A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 53 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo QUARENTA E SETE

Oh, meu amor, fomos abandonados no fundo da sala e agora não

poderei ficar com você para sempre.

 

Andrew brincava de enrolar uma mecha dos cabelos de Ive com o dedo enquanto a garota lia um livro deitada em seu colo. Cursive tocava em volume baixo no quarto, uma canção chamada After The Movies que fizera parte de sua adolescência, quando o mundo parecia pequeno demais para encaixá-lo.

Era estranho que pudesse ouvi-la hoje sem associá-la a coisas ruins. Pelo contrário, aquele era um tempo bom. Haviam decidido tirar o dia de folga e aproveitar. A filha da Morte chegara bem cedo à sua casa e tinham planos de almoçar juntos – purê de batata e carne de hambúrguer, a especialidade de Andrew. Ive ainda tinha a mão enfaixada e sorria menos que o habitual, mas aos poucos a memória do encontro com Rayla incomodava menos. Que coisa estranha era estar junto de uma garota! Por algum desses motivos que fazem com que os pensamentos mais aleatórios surjam, lembrou-se de seu primeiro fracasso amoroso. Tinha sete anos e estava apaixonado por uma garota da escola, foi sua primeira namorada – embora nem se dessem as mãos. Sylvia. Decidiu dar um presente para ela no dia dos namorados, comprou um chiclete que vinha com um anel de plástico, escreveu uma cartinha e colocou os dois num envelope. Mal pôde conter a ansiedade até a hora de ir para a escola. Correu pelos corredores e encontrou-a sentada num banco no jardim. Ela aceitou seu presente e chegou até mesmo a sorrir. Uma pena que dali a pouco uma amiga tenha devolvido o anel dizendo que Sylvia estava terminando com ele. Aparentemente, outro garoto havia dado um perfume a ela. Andrew sorriu consigo mesmo ao se lembrar dessas coisas que não mais importavam. Tudo teria seguido de acordo com o plano se não fossem pelas batidas na porta de seu quarto e a entrada de Amber com Prozy em seus braços. Papai mandou você me levar até a loja de discos, disse ela com um sorriso. Andrew balançou a cabeça negativamente e respondeu:

–Você pode muito bem usar o metrô ou um ônibus. Vocês sabem que eu odeio dirigir. Sem chance, eu estou ocupado.

– Mexendo no cabelo da sua namorada? Grande ocupação! Andy, por favor, não vai demorar nada. Você sabe como o papai é. Seja útil pelo menos uma vez na sua vida, eu juro que não vou te incomodar por pelo menos mais uma semana.

Andrew balançou a cabeça negativamente e respondeu:

– Não. Boa viagem, leve um guarda-chuva.

Ive sentou-se na cama.

– Eu acho que poderíamos ir até lá, passear um pouco – disse ela. – E, bem, eu acho que também preciso comprar alguns discos novos, eu já escutei todos aqueles que você me emprestou. Ah, também poderíamos tomar um sorvete depois.

– Eu não ficaria escutando os discos do meu irmão se fosse você, são todos iguais e do tipo se mate em quarenta minutos.

Andrew ergueu os ombros e relutante, cedeu ao pedido da irmã. Calçou um tênis e pegou um de seus cachecóis, a preguiça o impediu de ajeitar os cabelos. Ive colocou sua boina na cabeça e seguiu o jovem. Seu pai estava preparando o almoço e ao vê-los descer lançou um olhar rápido e voltou a se concentrar no que fazia. Gostaria de pelo menos uma vez ser capaz de ler a mente dele e descobrir o que aqueles olhos censuravam naquele momento. Pegou as chaves do carro sobre a mesa e foi até a garagem. Sua irmã brincava de conversar com a coelha, sem ao menos imaginar que a mesma estaria em sofrimento profundo por causa disso, não que ele se importasse.

Em poucos minutos estavam fora de casa. A manhã era calma em Dresbel e algumas pessoas aproveitavam para caminhar e soltar pipas nas praças. Havia um pequeno sinal de sol cortando as nuvens cinzentas e isso era mais do que o suficiente para deixar o dia um pouco mais animado. Quisera que todos os dias fossem assim. Olhou de relance para a irmã pelo retrovisor. Amber já era uma adolescente. Que tarefa difícil era lembrar-se que ela não era mais a garota que corria para sua cama no meio da noite ou que chorava por qualquer coisa. Ela mal podia imaginar as criaturas estranhas que a cercavam por todos os lados, pensou. Cada rua, avenida e bairro escondendo alguma coisa. Talvez fosse melhor assim, ignorando um mundo onde pessoas como Astrophel e Rayla vagavam livremente.

– Andrew, uma senhora de uns duzentos anos acabou de nos ultrapassar – reclamou a garota.

– Amber está certa, você dirige feito uma freira – concordou Ive.

O garoto sacudiu a cabeça e deixou sua indignação escapar:

– Isso não é uma corrida e eu odeio carros. Quão estúpida pode ser a ideia de me pedirem para dirigir?

As garotas riram e fizeram piadas sobre a forma como dirigia. Talvez fosse um motorista – havia ainda a possibilidade de que não apenas isso – tão bom quanto Alver Singer, o personagem de Woody Allen em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”. Ou um meio-termo disso. Deixou o motor morrer pelo menos duas vezes durante o percurso. Por que esperavam que ele dirigisse bem? Não gostava de ser obrigado a dirigir. Odiava automóveis! Todo garoto da sua idade parecia pensar neles durante cada segundo, mas lhe parecia absurdamente idiota a ideia de desejar uma lata que serviria apenas para consumir seu dinheiro em impostos e combustível. Talvez dirigir um carro barulhento fosse uma coisa masculina, esse tipo de pensamento fazia com que se sentisse um peixe fora d’água. Tinha aversão às atividades práticas que todos os garotos deviam saber; dirigir, consertar coisas ou regras de futebol. A voz de Amber o retirou de seus pensamentos.

– Eu quero mostrar algo pra vocês. Eu e Jonas terminamos de gravar essa música, é parte da demo tape que estamos montando. Vocês ouviriam?

– Se você pagar bem posso até fingir que gosto. – respondeu Andrew.

– Seria um prazer, Amber – disse Ive pegando o disco.

Ive desligou a música que o garoto deixara tocando e colocou o CD azul de sua irmã. As batidas começaram. Fazia muito tempo que não escutava nenhuma música dela. Lembrava-se de quando ela começou a se interessar pelo rap. Foi pouco após a morte de sua mãe, quando ela chegou com o The Slim Shady LP que um amigo da escola lhe emprestara. Ela costumava ir ao seu quarto a cada dez minutos para contar sobre a nova rima que estava criando ou falar por horas sobre o Wu-Tang Clan ou Tupac. Podia ver um pouco de si mesmo refletido nela, na forma como ela se dedicava de verdade àquilo que lhe interessava, a forma como lia tudo o que encontrava sobre o assunto. Como já a encontrara escrevendo suas letras às três da manhã na mesa da cozinha. Lembrava-se também da forma como se irritava com ela escutando música em volume alto. Talvez não fosse tão estranho assim que ambos encontrassem um caminho no mundo da arte. Prestou atenção no que ela cantava e viu que aquilo lhe dizia mais sobre ela do que pensava saber. Imaginou se aquele trabalho estaria ali caso sua mãe não tivesse partido. Talvez ambos estivessem lidando com o que havia acontecido da maneira que era possível e fosse a falta dela que lhes desse a energia para usar seus talentos. E talvez fosse isso o que tivesse o colocado no caminho de Ive ou de qualquer outra coisa desde então – uma limonada com o limão que foi dado. Não tinha outra escolha senão reconhecer que sua irmã havia crescido e era sobre isso que aquela música falava. Talvez não fosse seu dever protegê-la para sempre, mas faria isso do mesmo jeito.

– Você está chorando, Andy? – perguntou Ive.

– Não seja boba, claro que não.

Chegaram à loja de discos após mais alguns minutos de trânsito caótico. Era uma pequena loja de dois andares e decoração retrô. Pediu para que Ive e Prozy fossem à frente. Sua irmã já estava quase saltando para fora do carro quando chamou seu nome e disse:

– Eu gostei muito da sua música, Ambie, de verdade. Acho que você não é mais uma garotinha indefesa, não é? Você tem uma coisa sua aqui, estou orgulhoso.

A garota riu e disse:

– Eu nunca fui. Obrigada por escutar – o tom dela se tornou mais introspectivo. – Você acha que eu tenho chance? Digo, de atingir alguma coisa com música?

Andrew precisou de um instante antes de responder, afinal, aquela era a mesma indagação que se fazia todos os dias com relação às histórias que escrevia. Seria capaz de publicá-las e viver daquilo que gostava de fazer? Olhou para a irmã e deu sua resposta mais sincera.

– Eu não sei. A mesma coisa se aplica a mim, eu não sei se vou conseguir chegar a algum lugar com o que eu escrevo, mas eu continuo até quando não for possível, então, eu tento mais uma vez. Até eu entrar em colapso. Não é isso o que seu Eminem diz numa letra? Ou quem sabe, encontrar alguém que tenha a solução.

A garota riu. Sentia-se bem em conversar com a irmã daquela forma e em saber que não eram como Ive e Rayla. Que um podia sempre contar com o outro. Não havia medo ou ameaças ali, aprendera a valorizar esse tipo de coisa depois do que acontecera no apartamento de Ive. A busca pelos nomes do gato estava caminhando para um final e tinha esperanças de que tivessem outros momentos como esse. Desceram do carro e foram em passos lentos.

– Andy, você está feliz com ela? – perguntou a garota.

Ali estava algo no qual não precisava pensar muito para responder, bastava um sorriso muito grande. Sim, estava feliz, pela primeira vez em muito tempo não sentia o peso de mil pedras sobre seus ombros. Havia uma pessoa em quem confiava. Alguém que gostava dele e o aceitava exatamente como era – que segurava sua mão enquanto andava pela rua e com quem tirava fotos fazendo caretas. Estava feliz e isso era o bastante.