A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 26 de 79

Páginas do PDF

A Morte é Legal

Capítulo VINTE E DOIS

A vida e as opiniões do cavalheiro Andrew Webley. Pequenas

memórias.

 

Quem te ensinou a se odiar? Malcom X proferiu a pergunta num de seus discursos em 1962 e décadas depois, isso ressoava na mente de Andrew. O garoto já havia falhado em tudo e de tantas formas diferentes, que sabia que o problema era com ele. Coisa ruim no sangue que o tornava horrível, um traidor.

Andrew sentou-se no chão do banheiro após ter vomitado o pouco alimento ingerido nas últimas horas. Ouvia o som da chuva. O sol da melancolia brilhava forte ao passo que o verdadeiro se recusava a aparecer. Era como sentir-se cansado, apenas. Uma agonia indescritível – intolerável – que fervia na boca do estômago e se espalhava. E se eu tentasse escrever, pensou, talvez ajudasse. Acabou descartando o pensamento quase que imediatamente. Nem um número infinito de palavras seria o suficiente para descrever o que se passava. Tantas coisas na cabeça e todas ao mesmo tempo, desespero por saber que não existia forma de transmitir aquilo.

– Droga – murmurou.

Os dias que transcorreram desde que voltaram do mundo das fadas vinham sendo cansativos, tendo que vasculhar cada um dos cemitérios de Dresbel em busca do primeiro nome. Sem resultado, mas ainda restavam dois. Andrew odiava ter que visitar lugares assim durante a noite. Outra coisa que também havia acontecido era que a frequência das visitas de Ive a sua casa aumentou e ela se tornara presença conhecida por seu pai e irmã. Não faziam muitas coisas em dias assim e nem sempre conversavam sobre a busca dos nomes, mas sobre filmes, livros e curiosidades da vida humana. E baleias, lembrou-se, Ive gostava muito de baleias.

Andrew levantou-se e escovou os dentes vigorosamente. Havia um silêncio pesado na casa. Tudo vazio naquela manhã. Caminhava lentamente pelo corredor em direção ao seu quarto. Pensou em Yorick e no que havia feito com ele. Uma frase que Prozy dissera ressoava em sua mente: “Rayla já condenou uma alma ao Inferno...”. Isso significava que havia um Inferno. E qual seria o processo de julgamento de alguém? Estaria condenado pelo que fizera ao garoto de Hoon? Pensou em começar a fazer caridade para salvar sua alma, doaria todas as suas economias a um hospital infantil. Também iria começar a rezar todas as noites antes de dormir e fazer as refeições.

Então se lembrou de que talvez nada disso fosse o bastante. O objetivo de sua busca era o amor de Briony e caso tivesse sucesso, estaria tomando o livre arbítrio dela... E nem todas as economias do mundo consertariam isso. Uma garota não deveria ser o motivo de uma peleja tão grande. A única razão de estar mergulhando nesse pântano era o fato de que tinha a autoestima tão baixa quanto grama e era incapaz de conseguir alguém por mérito próprio.

Fechou o quarto e deitou-se na cama após ligar o rádio. Christie Front Drive tocava em volume baixo. A mente de Andrew ainda burilava alguns pensamentos quando ouviu a porta ranger atrás de si. Voltou os olhos assustados apenas para ver Ive entrar com um pequeno sorriso e carregando um livro nas mãos. Prozy estava ao lado dela e fitava o garoto de forma feia. Ficou calmo, mas também chateado, ficar sozinho naquele momento.

– Você sempre entra na casa das pessoas sem pedir permissão?

A garota deu de ombros e replicou:

– Bem, se você não quiser que eu entre, basta cingir a sua porta com sangue de ovelha. Dá um trabalho enorme e faz uma sujeira maior ainda, mas funciona... Ou pedir para que eu não te visite. Eu estava preocupada com você, sabia?

– Eu disse que seria uma péssima ideia visitar esse moleque – disse Prozy. – Ou será que eu deveria chamá-lo de Brutus? Existe uma parte no outro mundo para gente assim.

Andrew fingiu não dar importância ao que a coelha disse e voltou a se sentar na cama. Ive ficou ao seu lado e lhe deu o livro que tinha em mãos. Era o exemplar de “O Vento nos Salgueiros” que havia emprestado para ela.

– Você abriu mais do que noventa graus, isso deixa marcas na lombada, Ive. Eu ganhei esse da minha mãe, você deveria tomar mais cuidado. Bem, de qualquer forma, espero que tenha gostado.

– Desculpe-me, Andy, vou tomar mais cuidado da próxima vez. Eu não entendo porque você cuida tanto assim de um livro, sempre pensei que o mais importante fosse a história. Eu gostei muito, meio que me identifiquei com ele.

Andrew ficou a imaginar o que havia no livro para a filha da Morte se identificar. Não era capaz de entender a relação. Notou que Ive parecia cabisbaixa e seu sorriso não era leve e bobo como antes. Ela parecia cansada e distraída, andando de um lado para o outro até ficar parada olhando os títulos na estante. Andrew percebeu que os eventos em Hoon não haviam sido incômodos apenas para ele. Em algumas conversas banais que tivera com Ive, descobriu que ela estava no mundo dos vivos há cerca de um ano e que havia aprendido muita coisa desde que chegou, mas era a primeira vez que a enxergava tão humana e por isso perguntou:

– Está tudo bem com você, Ive?

– Sim, estou apenas um pouco melancólica hoje – ela foi até a janela e ficou observando as gotas de chuva batendo na janela. – Andy, não se sinta culpado pelo que aconteceu em Hoon, você não teve escolha e o resultado teria sido o mesmo.

Andrew não disse nada, planejava evitar o rumo daquela conversa. Gostaria de esquecer tudo e isso fez com que se recordasse de uma interessante passagem de “O Vento nos Salgueiros” em que o Deus Pã apaga a memória do Rato e da Toupeira “a fim de que as lembranças horríveis não permaneçam e cresçam, sombreando a alegria e o prazer”. Gostaria que alguém esvaziasse sua mente, uma tabula rasa na qual estivesse livre de suas indagações.

– Ive... Posso te fazer uma pergunta?

– Sim, você é meu amigo, Andy. E pelo que entendi durante esse tempo, amigos contam coisas uns pros outros. Você passou por um bocado de coisas comigo, ser honesta é o mínimo que posso fazer.

Olhou para a garota de olhos ingênuos e distantes. Ela parecia uma pessoa que esperava o retorno de algum náufrago, por um breve momento isso o fez pensar que a Violinista de Fevereiro não era tão diferente dela. Andrew não fez a pergunta de imediato, precisava formular a frase de uma forma que não parecesse muito intrometida. Por fim, decidiu ir direto ao ponto.

– Por que você está procurando os nomes? Você é a filha da Morte, não existe nada que você não possa ter.

Ive suspirou e olhou para o teto, desconfortável. Era curioso para o garoto enxergá-la sem o verniz do humor corriqueiro e dócil. Prozy olhava a cena em silêncio. E foi somente após um longo momento, que ela começou a falar.

– Querido, ninguém tem tudo. Eu sempre vivi num não-lugar que é feito por sombras e burocracia. É o ponto mais chato e brega do universo e eu estou destinada a tomar conta dele. Ser eternamente obrigada a assistir a existência de vocês sem travar nenhum contato, sem tato ou olfato. E quando se é uma forma sem corpo – um rascunho de pessoa – existe muitas coisas que se pode querer.

Andrew ouvia atentamente e se aproximou da garota, ficando ao seu lado, sem, no entanto, atrever-se a encará-la. Ive parecia mais estar fazendo um monólogo do que falando diretamente a ele. Bem, Andy, disse ela em voz baixa, isso não é a pior parte. Você não imagina o que é crescer com uma irmã como Rayla, que é competente e bem sucedida desde que nasceu. Invariavelmente alguém acaba por comparar você com ela. Mas isso também traz coisas que não são legais, Andrew. Eu vi Rayla sorrir apenas uma vez na vida, e ela estava condenando uma pessoa ao Inferno. Eu não quero isso para mim. Não quero que todos me temam como fazem com minha mãe e irmã. E eu encontrei interesses aqui.

O coração de Andrew bateu mais rápido ao perguntar.

– O que você quer dizer com isso?

Viu-a forçar um sorriso e responder:

– Vou tentar exemplificar de uma forma bem simples. No livro que acabei de lhe devolver, a Toupeira se cansa de fazer uma limpeza e caminha até encontrar o rio, que nunca vira. E ao conhecer o Rato, faz um passeio de barco durante dias, aprende um monte de coisas inesperadas e passa por experiências que fazem alguma diferença. Andrew, o seu mundo é o meu passeio de barco. Eu quero me tornar humana. Não quero ser apenas uma sombra.

Ele levantou os olhos e mirou a garota. Sentia que de alguma forma, ela era igual e que talvez não precisasse ter medo de confiar nela. Havia borboletas e pterodátilos voando em seu estômago, eletricidade na pele e uma vontade de abraçá-la. Momento de respiração interceptada. Colocou a mão sobre o ombro dela e sorriu.

– Ive, eu vou te ajudar naquilo que for possível. Eu sei o que você sente. É como gostar de maçãs num mundo que serve apenas bananas. A gente pode ser diferente de todos e realizar os nossos sonhos.

Os dois jovens se abraçaram. Ive limpou as lágrimas com as mãos e com seu sorriso normal, disse:

– Acho que o momento merece um milk-shake no Tord.

– Eu também acho – disse Prozy, que até então ficara calada. – Eu vou expelir meus olhos pelo nariz se tiver que ficar trancada com vocês por mais um minuto.

Os dois jovens riram da coelhinha e o humor do ambiente melhorou consideravelmente, ainda estavam chateados, mas havia chegado a um nível suportável. Andrew pegou um casaco e seu cachecol para acompanhar a garota pelas escadas, até ganharem as ruas de Dresbel. Até mesmo Prozy já parecia mais inclinada a perdoá-lo.

A cidade se abria movimentada diante deles. Iam abraçados como amigos às vezes fazem, sorrindo e falando sobre coisas como sabores de sorvetes e indie rock canadense. Já estavam quase no fim da rua, quando algo chamou a atenção do garoto.

Subindo no sentido contrário, vinha Briony segurando um guarda-chuva e o estojo do violino de encontro ao corpo. Ela tinha passos ligeiros e curtos. Não olhava para os lados em nenhum momento e passou sem sequer notá-lo. Andrew enfiou a mão no bolso e continuou a andar. Seus pensamentos dissociados de qualquer coisa que sua amiga de mechas verdes estivesse dizendo.