A Morte é Legal
Capítulo SETE
O felino e a barriga da baleia não são assim tão diferentes.
Um homem chamado Samuel Beckett escreveu uma peça – Esperando Godot – aos 43 anos de idade, obra que foi lida por Andrew Webley aos dezoito anos, sete meses, três semanas e cinco dias de vida. A história fala sobre dois homens, Estragon e Vladimir, que esperam e esperam por um certo Godot que nunca chega. Andrew também aguardava seu Godot: um Godot que abrisse os olhos de seu pai, um Godot que o tranquilizasse e mais importante – fundamental – um Godot que o tirasse da barriga da baleia.
Caminhou pela calçada que margeava o Lago Lou-Heaney, precisara de um ônibus e quarenta minutos para estar ali. A lagoa era um dos pontos turísticos da cidade e estava sempre bem cuidada, iluminada e movimentada. Esfregou as mãos para afastar o frio. Algumas pessoas caminhavam por ali e outras estavam sentadas no gramado.
Andrew conferiu o relógio e tentou encontrar Ive em algum ponto, mas não obteve nenhum sucesso. Suspirou. Queria ligar para Briony, talvez ouvir a voz dela melhorasse seu ânimo. Isso fez com que pensasse mais uma vez se teria a coragem necessária para fazê-la amá-lo de forma artificial. Teria felicidade em algo no qual não trabalhou nem fez crescer? Mas sempre fora um ótimo garoto, pensou, não era a hora de finalmente pensar em si e buscar sua própria felicidade?
Pegou uma pedra e atirou-a no lago, bateu três vezes antes de afundar. Tanto incômodo, pensou Andrew, tanto incômodo? Já se sentira péssimo antes, contudo aquela vez era diferente. Sentou-se na relva, murmurava uma canção do Texas Is The Reason.
– Você poderia ter escolhido um lugar mais fácil de achar, senhorito, mas sem problemas, aqui é legal também, bonito mesmo.
Andrew olhou de soslaio para confirmar a presença de Ive, com um sorvete de baunilha e sua coelha de estimação. Não se mexeu, mas continuou a olhar as águas calmas e escuras do lago. A garota sentou ao seu lado e deixou que Prozy se aninhasse aos seus pés. Quando Andrew abriu a boca, seu tom era grave e suas palavras pareciam vir de longe.
– Eu vou aceitar a sua proposta. Estou disposto a fazer qualquer coisa se isso me trouxer Briony, é a única coisa que importa.
– É, imagino que sim, caso contrário não teria me chamado. Andy, fico contente que tenha aceitado, vai ser bacana ter companhia.
– Fale por si própria – comentou a coelha. – Eu ainda acho que um humano será tão útil quanto cocô de lhama nessa história. Sinceramente, ter vindo para esse mundo horrível já é sofrimento demasiado.
– Uma coelha niilista que fala, vai ser difícil me acostumar com isso – disse Andrew ainda cheio de receios. O mundo inteiro parecia cada vez mais insólito. Afastou-se de Prozy e prosseguiu: – como funciona tudo isso, eu preciso assinar alguma coisa com meu sangue ou coisa assim?
Ive olhou-o com uma expressão de espanto que foi sendo substituída por sorriso incontrolável, combinada a uma risada espontânea e tão alta que chamou a atenção de um e outro transeunte que acontecia de estar passando por ali. Andrew ficou desarmado com aquela reação tendo em vista que havia perguntado seriamente.
– Andy, o humano mais engraçado do mundo. Isso não é pacto com um demônio. Você está ajudando a mim e a ninguém mais, minha mãe pode saber que eu te coloquei nessa história...
– Caso contrário...? – perguntou o garoto, já temendo a resposta.
– Ora, você morreria – respondeu Prozy, como se fosse um fato banal e corriqueiro.
– Mamãe é muito rigorosa com relação a sigilo empresarial – completou Ive. Tomou mais um pouco do sorvete e colocou o pote ao seu lado. Ela parecia mais séria quando voltou a falar. – Dresbel é a cidade mais mágica desse mundo, Andy. É como um farol para todas as criaturas espirituais e ninguém sabe por quê. Estou aqui para procurar os três nomes de um gato...
Andrew deixou que um ponto de interrogação ficasse explícito em sua face, mas não a interrompeu. Não conseguia conceber que sua cidade, uma metrópole como tantas outras, pudesse ser algo além disso. Tanto concreto e asfalto não poderiam abrigar algo além do cotidiano, pensou o garoto, mas sabia que estava errado e esse pensamento ia e voltava feito um bumerangue.
–...Mas não um gato comum, veja bem. Eu me refiro a uma criatura mais antiga do que esse universo e que vagou pelo espaço até cair aqui há mais de três bilhões de anos. Atualmente ele tem a forma de um gato e se uma pessoa descobrir seus nomes verdadeiros terá dois desejos atendidos. Um para mim e outro para você, entendeu?
Ficou em silêncio quando Ive parou de falar e observou Prozy lamber o que restara do sorvete.
– Por que você me colocou no meio de tudo isso? Eu não sou especial nem coisa parecida. Entendo de livros, não sei em que poderia contribuir. Por que eu e não outra pessoa? – perguntou ele.
A garota depositou a mão sobre seu ombro, um gesto leve e que não durou muito. Andrew voltou seu olhar para ela que agora enrolava uma de suas mechas verdes com o indicador, viu um sorriso agridoce no canto dos lábios dela.
– Eu não posso ler mentes... embora adentrar numa com convite seja diferente. Contudo, tenho a capacidade ver a aura das pessoas. A sua é vermelha, Andy, como a minha. Você deseja muito alguma coisa e eu poderia lhe ajudar. E bem... seria interessante ter um amigo durante o intercâmbio.
– E isso será muito perigoso?
A garota confirmou com um aceno de cabeça.
– Extremamente, caso contrário não valeria a pena, certo? E não seremos os únicos procurando. Existe um casal atrás dos nomes, mas não acho que causarão muitos problemas. Está dentro?
Andrew estava.
A nova cadência que pulsava em sua alma lhe assegurava isso. Aquela era a hora em que finalmente lutaria e conquistaria o que desejava – em que sairia vencedor e deixaria sua invisibilidade para trás. O destino o havia ungido com aquela oportunidade, o tempo de covardia devia chegar ao fim. Seu coração confrangeu, mas Andrew tinha certeza de que isso era o resultado da emoção que o tomava. Não disse nada, Ive sabia qual era sua resposta. Não se levantaram nem falaram nada durante um tempo, ficaram lá parados e olhando o lago à medida que as outras pessoas iam embora e o lugar se tornava deserto. Andrew simplesmente era. Briony não estava mais tão longe e dessa vez a luz no fim do túnel não era a de um trem.