A Morte é Legal
Capítulo QUARENTA E DOIS
Abril não é o mais cruel dos meses, Sr. Prufrock, agora, fique deitado
sobre a mesa.
O mundo é feito por coisas curiosas e elas vêm em todas as formas e tamanhos, como por exemplo, uma coelha niilista numa tentativa de voo. Andrew segurou Prozy firmemente em suas mãos e a atirou sobre a cabeça de Josephine. Ive não conseguiu esboçar nenhuma reação além de espanto. Os gritos da cantora eram horríveis e ela rodopiava tentando se livrar dos dentes furiosos da coelha, até que – ploft!– aproximou-se demais da beira do palco e caiu mais rápido do rápido. O garoto e Ive chutaram os ratos que avançavam e pegaram Prozy e a tiara no chão – que Ive se apressou em guardar na bolsa. Estava com o segundo nome, era hora de fugir dali o mais rápido possível.
Os ratos se agarravam nas pernas da dupla e tentavam roer e cravar dentes. Josephine já se recobrara do choque e liderava a multidão de perseguidores. Andrew pegava pedras no chão e as atirava numa tentativa patética de atingir alguma coisa.
– Temos que sair daqui! – gritou.
– Não me diga – disse Prozy. – Achei que você fosse querer um chá. Vai levar um ano para tirar o gosto de ratazana da boca.
Foram passando pelos túneis até alcançarem a porta em que foram recepcionados. O povo dos ratos vinha logo atrás, passos ruidosos, gritos de ódio e palavras de ofensas proferidas pela rainha. Eles corriam como um único bloco, amontoados, sendo impossível distinguir onde começava um e o outro terminava – alguns vinham em bandos ligados pelas caudas, sangue e sujeira. Era uma visão infernal que fazia com que Andrew chegasse à conclusão de que enfiar a mão na boca de uma garota morta não era assim tão ruim. Passaram pela porta e a fecharam rapidamente, sabiam que aquilo não funcionaria por muito tempo.
Apertou a coelha firmemente sob um dos braços e usou a mão livre para segurar a de Ive. Estavam perdidos nos túneis e sem lanterna. O barulho do esgoto corrente reverberava pelas galerias, assim como o som das portas derrubadas pelos ratos. Foram se esgueirando por túneis a esmo, pisoteando baratas e todos os dejetos de Dresbel. Os ratos se espalhavam por todos os lados.
– Não vamos conseguir sair daqui, Andy – Ive sussurrou.
Andrew não precisava enxergar para saber que ela estava chorando. E pela primeira vez, viu uma garota comum e amedrontada como qualquer outra. Tinha consciência de que ela tremia e que lágrimas corriam pela sua face. Sentiu vontade de abraçá-la, prover alguma espécie de conforto dizendo que ficaria tudo bem, mas não faria isso, não era a hora certa para chorar, era tempo de correr, abraços não salvam ninguém. Também estava assustado, mas faria tudo o que precisasse para que saíssem dali.
– Vamos – disse, e puxou a garota pelo braço.
Uma ideia cruzou sua mente. Havia uma lanterna em seu celular, aquele que carregava mais por hábito do que por uso. Vasculhou o bolso traseiro até encontrar e iluminou o caminho adiante, ainda que toscamente. Foram prosseguindo com pés mudos. O esgoto estava infestado dos súditos de Josephine, vez por outra vultos podiam ser vislumbrados passando ao longe. Andrew prendeu a respiração em medo, seu coração batia forte contra o peito. Ive engolia o choro e retomava o controle. Vem alguém aí, murmurou Prozy, e eles se esconderam num tubo. Um bando das aberrações passou em alta velocidade e não deu por eles. O garoto sugeriu um caminho baseado em pura intuição, que consistia em seguir as águas do esgoto até encontrarem uma rota para cima, já que ninguém parecia ter ideia melhor, foram por essa mesmo. O guinchar dos roedores os lembrava de que o perigo estava cada vez mais perto.
Sua intuição e sorte pareciam estar de mãos dadas, pois não esbarram com nenhum rato e passaram por um e outro lugar conhecido, que supostamente ficava perto da saída. Já estamos quase lá, Ive, disse ele, vai ficar tudo bem. A garota apertou sua mão com mais força. Correram o mais rápido que podiam e com a ajuda da lanterna improvisada, enxergaram uma escada que servia de saída. O trio riu e se congratulou com aquilo.
– Eu disse que conseguiríamos! – disse Andrew. – Hora de ir para casa, estou precisando de um banho.
No entanto, era cedo demais para isso. Saída praticamente de lugar nenhum, apareceu Josephine e saltou sobre Ive com ferocidade. A rainha dos ratos praguejou e bateu com suas patas finas, não perdendo a chance de morder onde pudesse. Ive gritava de dor e tentava se libertar. Todo aquele tumulto atraiu as ninhadas mais próximas, que se apressaram em prestar auxílio a sua líder. Andrew fechou o punho e desferiu um soco contra a garganta de Josephine, que caiu sem ar. Os ratos foram se aproximando e se aproximando. Deu-se conta de que precisaria tomar a responsabilidade para si e dar um fim naquilo. Segurou a roedora numa chave de braço e gritou:
– Ninguém se aproxima ou eu acabo com a sereia do esgoto.
Os ratos se detiveram e olhavam de Andrew para a cantora. Fez um sinal para que Ive subisse e levasse Prozy. Ela obedeceu imediatamente e saiu o mais rápido que pôde.
– Você não vai escapar assim – disse Josephine. – Eu vou te caçar até o último dia da sua vida.
Andrew não deu ouvidos ao que ela disse e olhou para confirmar se Ive e Prozy já estavam fora. Ao ter a certeza de que estavam a salvo, aproximou-se mais da cantora e falou:
– Não se esqueça de ter bons sonhos.
Os ratos sempre foram uma das maiores pragas a assolarem a humanidade, impossíveis de serem detidos, capazes de se esgueirarem por qualquer fresta, assim era o coletivo, mas, um indivíduo da espécie – isolado de seus parceiros do crime – é uma das criaturas mais frágeis do mundo. Por isso, não era de espantar que Josephine fosse desacordada com tanta facilidade – um mero soco na cabeça – e tombasse num segundo. Houve grande clamor em todos os canos e galerias. Andrew aproveitou o instante em que toda a ninhada ficou sem reação e se pôs a subir a escada. Os ratos avançavam sedentos de vingança e raivosos. Já estava quase nos últimos degraus quando foi ajudado pelas mãos de Ive. Rolou sobre o asfalto e apenas observou enquanto a tampa era colocada de volta no lugar. A filha da Morte, uma vez mais em posse dos seus poderes, lacrou a saída e caiu ajoelhada no chão, rindo e chorando ao mesmo tempo.
A chuva forte começou, a companheira mais fiel daquelas ruas. Olhou para Ive, caminhando em sua direção, ela tinha alguns ferimentos e filetes de sangue escorrendo pela testa, suas roupas estavam destruídas e imundas, mas ela nem parecia se preocupar. Suas risadas eram altas, assim como os gritos de felicidade.
– Andy, nós consegui...
A frase foi deixada em aberto. Ive foi atirada para longe e se chocou contra um poste. Andrew se levantou a tempo de ter os cabelos agarrados pelas mãos de Astrophel, que colocou uma faca contra seu tórax e disse:
– É bom te ver mais uma vez. Acho que essa cena me traz lembranças.
– Se você tiver machucado Ive, eu juro que mato você.
Astrophel riu, parecia divertido com a bravata. Andrew se debateu na tentativa de fuga, mas não deu certo. Localizou Stella parada pouco atrás deles. Prozy foi para perto de Ive, que tentava se erguer com dificuldade. O sorriso da garota foi substituído por uma expressão de fúria e faíscas verdes brotavam na ponta de seus dedos.
– Astro... – disse ela – eu pensei que você tinha aprendido a sua lição, eu não estou a fim de mandar a vovó para o hospital de novo.
– Não se mova ou eu mato o seu namorado. – respondeu o feiticeiro. – Eu quero o segundo nome, agora.
Andrew sentiu a lâmina roçar em sua pele. Aquilo não poderia estar acontecendo, pensou, era impossível que houvesse passado por tudo apenas para que Astrophel roubasse o nome. Olhou para Ive, ela parecia analisar a situação, procurando alguma saída alternativa. Logo chegaria à mesma conclusão que ele, não havia outra forma: precisaria entregar a tiara.
– Entregue o nome, garota – disse Stella. – Não precisamos deixar a cena ainda mais complicada. O seu namorado parece ser um bom garoto, não precisamos que nada aconteça a ele.
Ive riu.
– Ele não é meu namorado. Ele é apenas um humano, não tem nenhum valor para mim. Você sabe de quem eu sou filha, a morte é apenas um amontoado de fichas no escritório da minha mãe. Deixe Andrew em paz, ele é inútil para você.
Andrew tremeu, uma descarga de estresse fervia seu cérebro, deixando-o na porta do desespero, não era a hora certa para Ive tentar ser esperta. A ponta da faca já havia feito um furo em sua camisa e se pressionava contra uma de suas costelas.
– Você tem certeza do que está dizendo? – perguntou o feiticeiro.
– Ele não significa nada para mim. Deixe-o ir e brigue comigo pelo nome, Astro. Está com medo de levar outra surra?
Astrophel deu uma risada de escárnio e retorquiu:
– Resposta errada.
– NÃO! – gritaram Ive e Prozy.
Uma explosão de dor. Andrew sentiu a faca penetrar camadas de carne, cortando tudo em seu caminho até o pulmão direito. Sentiu sua pele sendo rasgada e arder como se queimasse. O ar fugiu e sangue escorreu. Viu Ive jogar a bolsa com o nome para Astrophel e correr em sua direção. O feiticeiro e sua esposa sumiram com um estampido. Sua visão ficou turva, Ive o segurava nos braços. Fique comigo, Andy, dizia ela, não me deixe, por favor, por favor, fique comigo. Os sentidos iam adormecendo e uma onda de frio se espalhava pelo seu corpo. Então, aquilo era morrer. Não era tão ruim. Sua vida não passou diante de seus olhos como um filme, nem houve música tocada por anjos ou um ente querido para lhe recepcionar. Apenas uma escuridão que ia lhe puxando para dentro da inconsciência. As imagens sumindo e os sons morrendo ao longe. Seus olhos se fecharam. A última coisa na qual pensou foi em como lamentava não terminar A Violinista de Fevereiro e de não ter levado Ive na loja de chocolates.