A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 28 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo VINTE E QUATRO

As coisas que eu gostaria falar para você, mas grito para um abacaxi.

 

Bem, Andy, disse Ive em voz baixa, a grande festa será aqui. Aquele era o último cemitério que havia para vasculharem, o Cemitério Municipal de Dresbel. Ficava longe do centro da cidade e foi o primeiro a ser construído. Tinha um enorme muro branco que circulava todos os 30 hectares do lugar. Milhares de túmulos dos mais diversos tamanhos e formatos tinham seus contornos cobertos pela noite. O vento frio corria por entre as árvores e pedras para se chocar contra o trio que acabara de saltar o muro. O ar fez com que os olhos de Andrew lacrimejassem. Estava surpreso pelo fato de não estar com medo. Respirou e apertou o cabo da pá que tinha em mãos com mais força. Lembrou-se de que sua mãe estava ali em algum lugar. Tudo o que fazemos vai nos trazer até aqui, pensou, independente do que seja. Mudou o curso de seus pensamentos. Não era hora para se deprimir mais do que o normal.

– Então... – disse Andrew – o primeiro nome está aqui.

– Será que dá pra você ser mais óbvio? – respondeu Prozy. – Você é quase uma comédia romântica de tão previsível.

– E você é absurdamente chata, mas eu quase te amo, sabia? Você mora no meu coração.

– Não. O coração é um pedaço de bife saltitante no seu peito e mesmo se uma pessoa pudesse viver no coração da outra, certamente começariam a cobrar aluguel.

– Já cobram – comentou Ive, que até então estivera apenas invocando magias que afastassem qualquer um que pudesse estar por perto. – Bem, vamos nos dividir. Prozy, ande naquela direção e procure sentir alguma energia diferente. Eu e Andrew vamos por aqui.

A coelha fez um aceno de cabeça e saiu correndo. Andrew e Ive foram pelo caminho indicado por ela. Tinham que tomar cuidado para não tropeçar em pedras e galhos. Iam passeando pelo silêncio. A mente de Andrew não conseguiu afastar-se do fato de que os restos de sua mãe estavam por perto. Algumas coisas da infância pulavam em sua mente. Quando se sentava no sofá da sala para jogar vídeo-game com ela ou quando ela trouxe um chaveiro do Mickey Mouse de presente. Ela lhe deu seu primeiro disco do Weezer – The Green Album – e sua edição de “Romeu e Julieta” para crianças. Essas imagens fraturadas vinham em relâmpagos.

– Andy, o que incomoda você? Sua aura está com uma cor estranha.

– Posso te perguntar uma coisa?

– Sinta-se à vontade, docinho de tinta. Responderei se puder.

– Você pode ressuscitar coisas, não é? Você fez isso com o pássaro no parque. Eu queria saber se você...

Ive o interrompeu colocando dois dedos sobre seus lábios.

– Eu sei o que você quer, disse ela, e a resposta é não. Andy, isso é demais até para mim e não é certo... Existe uma ordem natural e, mesmo se eu pudesse, a pessoa não teria uma vida, entende, seria no máximo uma casca que anda.

Andrew não disse nada, apenas continuou a colocar um passo depois do outro. Não havia criado esperanças de uma resposta positiva por parte da filha da Morte, mas, ainda assim estava decepcionado em certo nível. Sentia-se tão sozinho desde que sua mãe falecera. Sem nunca ter encontrado alguém que o ouvisse ou aceitasse. Sempre existiria dentro dele essa incapacidade de absorver a perda. E como ela se sentiria ao ver que o filho ia ficando mais velho, medroso e parado no ponto em que não conquistara nada de que se orgulhasse na vida.

Iam parando vez ou outra para verificar onde poderia estar o primeiro nome. Ive ficava imóvel como um cão de caça que se ergue para encontrar um rastro e dava prosseguimento a busca.

– É minha vez de fazer uma pergunta, Andy. Quem era a pessoa?

O garoto não respondeu. Não sabia se deveria ou não falar. Nunca falara sobre isso com ninguém. Sempre que alguém lhe perguntava alguma coisa sobre sua infância ou sobre sua mãe, a resposta era sempre única e invariável: eu não me lembro. Era mais fácil matar o assunto dessa forma a ter que enfrentar o que realmente sentia, mas sentia-se diferente com relação a Ive, como se pudesse confiar nela. Buscou as palavras e deixou que escorregassem numa voz tremida e cheia de altos e baixos.

– Minha mãe. Ela morreu quando eu era bem jovem, teve uma doença com nome de jogador de beisebol. Ela foi a mulher mais forte que já conheci, Ive, e isso não foi suficiente para que ela ganhasse da sua mãe. Eu estava ao lado dela quando os primeiros sinais apareceram e sei lá, eu queria poder ter notado, feito algo. Eu a vi ficar cada vez mais fraca até que ela não conseguia se levantar de uma cama.

– Andy, eu lamento. Não se culpe, não havia nada que você pudesse fazer. As coisas têm o seu tempo, e ninguém consegue evitar a minha mãe, não para sempre.

– Sabe o que é o pior? Eu não me lembro da voz dela. Era um timbre bem específico, e eu não me lembro. Quando a doença dela avançou até o estágio em que ela não conseguia mais se mover, eu segurava a mão dela e fazia carinho na minha própria cabeça, mas ainda assim, Ive, eu não me lembro da sensação do toque das mãos dela. Eu sou tão fraco, fraco, fraco, fraco, fraco, fraco, fraco.

Andrew pegou um vaso de flores que estava sobre um túmulo e atirou com o máximo de suas forças, apenas para ouvi-lo se estilhaçar metros adiante. Não sabia o motivo de ter feito aquilo, simplesmente pegou mais um e outro e repetiu a mesma coisa, até que várias flores vivas e murchas estivessem sobre o chão de pedra. Foi surpreendido quando Ive o envolveu com um abraço.

– Não seja tão duro consigo mesmo, Andy. Você tem que deixar as pessoas irem embora quando a hora delas chegar, eu não entendo muito disso, mas o Sr. Shakespeare comentou comigo uma vez que amar também é deixar partir.

– Você não entende, Ive. Eu nunca tive ninguém ao meu lado. É exatamente por isso que estou aqui com você hoje. Porque se eu não usar os nomes do gato para poder ficar com Briony, eu nunca vou ter ninguém ao meu lado até que meus dias aqui terminem.

Ive segurou seu rosto com as duas mãos e com um sorriso, respondeu:

– Docinho de tinta, cale a boca – respondeu ela.

Andrew teve sua capacidade de maravilhamento testada mais uma vez. Aconteceu da mesma forma com que um aluno atento termina olhando para as nuvens ou desenhando na última folha do caderno. Os lábios dela sobre os seus fizeram com que seus pensamentos ficassem empalhados. Embotamento dos sentidos. A língua dela tocando a sua tinha um gosto doce. Olhos abertos se fecharam, coração que escapulia de algumas batidas. Suspensão, encantamento e silêncio.