A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 71 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo SESSENTA E CINCO

Um dos sete magníficos não cavalgará rumo ao sol dessa vez, meu

caro consigliere.

 

Astrophel olhou da esposa para a refém, recolhida num silêncio cheio de medo. A impaciência subiu um pouco mais ao conferir o relógio, a espera piorava tudo. Havia pavimentado o caminho para que o garoto e a filha da Morte não tivessem nenhum problema para chegar ali. Os seguranças estavam mortos e as portas destrancadas. Desligou o jukebox com um movimento de mão, precisava de foco. Pensou no futuro: avançaria pelo mundo das fadas – a personificação do caos – até que recuperasse a filha. Anthea estaria ao seu lado de novo, só precisava girar as engrenagens certas ao seu favor. Pousou o olhar sobre Stella, quebradiça como uma estátua de cinzas. Doía-lhe saber que a fada se encontrava naquele estado por sua culpa. O mínimo que podia fazer era salvar as vida. Calma, pensou, era tudo o que precisava para que pudesse salvá-la, calma e fé.

Ouviu o som de passos no corredor. Sorriu. Os visitantes estavam ali! O pensamento lhe enchia de expectativa, afinal, levara muito tempo até que tivesse os nomes do gato tão próximos. Imaginou como algo tão poderoso pudesse existir. Uma divindade de outro universo dando suas dádivas aos homens, um Prometeu selvagem e obscuro. E ele, Astrophel, usaria tal coisa para vencer o único temor dos deuses antigos temiam: o fim.

Tirou sua adaga de dentro da jaqueta e ficou de prontidão. A porta se abriu lentamente e a silhueta do garoto foi a primeira a surgir, seguido pela coelha e a Princesa do Fim Inevitável.

– Andrew! – gritou sua refém ao vê-lo chegar – Me tire daqui, por favor. Chame a polícia.

O garoto disparou no rumo da irmã, mas foi impedido pela magia do feiticeiro.

– Ela está bem, apenas um pouco abalada – disse.

Astrophel deixou o jovem de lado e voltou seus olhos para algo mais interessante. Ive, tão atrevida e irritante, estava muda e sem nenhuma linha no rosto. Chegou a pensar brevemente que algum truque se escondia por trás daquela atitude, mas o ferimento na perna dela lhe revelou o oposto disso, a filha da Morte estava fraca e não seria de muita utilidade. Seus inimigos estavam acuados e incapazes de atrapalhar.

– Entregue o nome e a garota estará livre.

– Está comigo – respondeu a filha da Morte e começou a caminhar em sua direção.

– Não – disse. – Eu quero que o garoto me entregue.

– Por que você não pede uma embalagem rosa com laços? – disse a coelha. – Ei, Amber, desculpa não ter conversado com você antes, ordens do seu irmão.

Sua refém soluçou assustada. Astrophel ignorou a pequena distração e manteve seu pedido com firmeza.

– Isso não é negociável. Ou serei obrigado a cortar o braço de uma inocente para comprovar minha seriedade?

A garota de mechas verdes ficou estacionada no impasse e o encarou com raiva, estava avaliando suas possibilidades.

Astrophel viu o garoto pegar a moeda prateada das mãos de Ive e caminhar em sua direção com passos lentos e arrastados. Olhou para sua esposa, ela acompanhava sem compreender que sua vida estava sendo decidida ali. Não voltou a desviar sua atenção do prêmio que chegava. O jovem era um retrato ambulante do medo. Poderiam ter sido amigos numa outra vida, pensou, afinal, ambos gostavam das artes e distribuíam poucos sorrisos; mas o destino quis que um fosse o obstáculo do outro. O que uma pessoa tão jovem poderia desejar de forma a se envolver numa batalha tão maior que ele. O que lhe servia de propulsão?

Andrew parou a sua frente e estendeu a mão com o primeiro nome. Astrophel pegou a moeda sem nenhuma cerimônia. Um pedaço de metal tão pequeno, porém, tão importante.

– Solte minha irmã e iremos sem problemas.

O garoto ameaçou se distanciar, mas Astrophel segurou-lhe pelo punho:

– A garota escondeu a verdade, não é?

– Não acredite em nada, Andy! – gritou Ive. – Ele está mentindo.

O feiticeiro viu o rosto do ganhar um verniz de dúvida. Pobre tolo, atuando no palco sem ter lido o roteiro da peça. Decidiu que as próximas palavras a saírem de sua boca seriam as mais claras que já dissera em toda a sua vida, para que nenhuma dúvida restasse quando o ponto final fosse colocado.

– Lamento que sua namorada não tenha lhe contado: você é a ovelha de sacrifício. Encontrar os nomes é uma parte do jogo. O sangue de alguém com grandes esperanças é o pagamento. O gato não atende pedidos, eles os troca por almas.

– NÃO ACREDITE EM NADA DISSO, ANDY! – berrava a filha da Morte a plenos pulmões.

Mas Astrophel sabia que ele acreditava. Quase enxergava os pensamentos ganhando forma. Lembrou-se de um bog: o pântano de várias camadas, capaz de preservar coisas por séculos. O garoto estava retirando os pedaços de turfa com as mãos, aproximando-se da verdade,

aquele Homem de Tollund [1]. Que fascinante, lindo mesmo, era ver o súbito despertar numa mente jovem. O garoto cavava, fatiando o chão. Para baixo. Sem relaxar. Não demorou até que sua pá encontrasse o esqueleto no fundo: Foi traído pela pessoa que amava, assim como Isaac fora levado por Abraão para ser degolado. A diferença maior era que nenhum anjo desceria dos céus para salvá-lo.

[1] O “Homem de Tollund” é um cadáver descoberto na Dinamarca – viveu no século IV a.C. Foi morto e jogado num bog, tendo consequentemente, seu corpo preservado devido à camadas de musgos, ausência de oxigênio e ação de compostos antimicrobianos.