A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 29 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo VINTE E CINCO

Eu andei por aí caçando tigres de papel, mas no fim, tudo estava em

seu devido lugar.

 

Surpresa. Um sentimento indefinível cujo aspecto varia de pessoa para pessoa. Como Sansão teria se sentido ao notar que Dalila havia cortado seus cabelos? Ou como se sente um ganhador da loteria ao conferir seu bilhete premiado? Qual sentimento teria tocado o peito de Pip ao descobrir quem era seu benfeitor e pai de sua grande paixão? Andrew Webley tinha uma mistura de todos esses sentimentos quando os lábios de Ive deixaram de pressionar os seus. Labirintos e caminhos se formaram instantaneamente em sua cabeça, seu mundo havia perdido toda linearidade – se é que já houvera alguma.

– Eu não entendo – disse ele – por que você fez isso?

Nenhuma resposta saiu dela, apenas um olhar que estava no meio do caminho entre diversão e constrangimento. Ive bagunçou os cabelos dele e respondeu:

– Porque beijos deixam as pessoas felizes e eu achei que você estava precisando.

Andrew ficou sem reação. Não sabia o que pensar sobre aquilo. Tentou se convencer de que aquilo ocorrera apenas porque Ive provavelmente não conhecia as regras de interação humana detalhadamente. As pessoas não beijam umas as outras do nada, pensou. E ele era apaixonado por Briony. Suas pernas não deveriam estar tremendo e muito menos, seu coração disparado. Será que Ive poderia gostar dele? Não, pensou, ninguém nunca gostará de mim, não de verdade, talvez alguém até chegue a fingir que goste, mas se cansaria depois de algum tempo e procuraria alguém melhor. Uma garota – imaginava se podia chamá-la desse modo– que mal conhecia, não poderia fazer com que se sentisse assim. Poderia continuar amigo dela da mesma forma. E se ele estivesse assustado demais para ser? Era obrigado a dizer alguma coisa e quebrar seu constrangimento silencioso. Apoiou sua pá no ombro e disse:

– Ive, você não pode sair beijando as pessoas aleatoriamente por aí. Você sabe que sou apaixonado por Briony.

– Você é estranho, Andrew Webley – respondeu ela. – Estranho de um jeito engraçado, mas estranho. Parece que leva algo constantemente escondido em você. Parece que você leva você mesmo escondido. Pessoas como você me assustam.

– O que você está querendo dizer, além de comprovar minha teoria de que você é mentalmente instável? Você é a filha da Morte e eu sou a criatura assustadora?!

– Andy, é como pensar em nadar numa praia à noite. Quando eu tento enxergar algo, tudo está escuro, tudo está escondido. Fico sempre com a sensação de que há mais do que você mostra – Ive deu uma risada curta e baixa, parecia mais estar falando consigo própria do que com ele. – Você é um garoto doce, capaz de colocar a si mesmo nas linhas que escreve. Um menino que guarda seus tropeços, docinho de tinta, talvez isso te faça misterioso.

Ive parou de falar e deu de ombros, como alguém que simplesmente houvesse acabado de comentar sobre o clima – ‘acho que vai chover hoje’ – ou algo como ‘doces de abóbora são os favoritos da minha avó’. Ela continuou a enveredar por entre os túmulos, seus sapatos fazendo barulho no chão do cemitério. Andrew permaneceu imóvel e sem uma resposta, mesmo porque não havia uma a ser dada. Sentia-se nu. Sem nada que pudesse aliviar o impacto de ser lido como um cardápio de restaurante. Foi caminhando atrás da garota. Seus pensamentos foram interrompidos quando Ive estalou os dedos em frente a sua cara, dizendo:

– Prozy encontrou o primeiro nome!

O choque tirou Andrew de seu torpor emocional, fazendo com que se lembrasse do por que de estarem ali. Finalmente, após tamanho esforço e situações problemáticas, estavam com o nome quase em mãos. Ive corria por entre as sepulturas de forma ágil, já ele tinha dificuldade e se chocava contra qualquer coisa à sua frente. Talvez devesse pedir um pouco de coordenação motora ao gato, isso o permitiria viver por mais tempo.

– Andy, ande mais depressa – disse a garota. – Você é mais lento do que a minha avó... Acredite, ela é bem velha.

– Estou fazendo o meu melhor, Ive, lamento não estar à beira de um ataque cardíaco. Caso você não tenha percebido, eu não sou a criatura mais atlética do mundo.

– Fale menos, corra mais, moleque – Prozy gritou de algum lugar.

Andrew já conseguia enxergar a coelhinha parada em frente a uma lápide de mármore. Colocou-se perto da garota e de Prozy. Ao olhar a inscrição na pedra, o garoto se deu conta de onde estava: Adelpha Barrie, amada irmã e amiga – 1835-1847. Adelpha era uma garota que morava em Sounding Side, um dos primeiros bairros de Dresbel, e que foi morta e jogada no lago Lou-Heaney por um vendedor de doces itinerante. Até hoje, os pais usavam a história dela como exemplo para fazer com que as crianças não conversassem com estranhos, uma espécie de conto moralizante local.

– Está aqui! – disse Ive. – Eu consigo sentir o nome, tem a mesma intensidade de um achocolatado quente. Andy, precisamos começar a cavar.

Ele mal podia acreditar que estavam tão próximos assim do primeiro nome. Um passo mais perto de conseguir qualquer coisa que quisesse.

– Quanto mais rápido começarmos, mais rápido vamos embora – falou Prozy. – Ande, moleque, cave como se o seu jantar dependesse disso.

– Cale-se como se sua vida dependesse disso, sua coelha irritante! – respondeu o garoto.

Andrew enfiou a ferramenta na terra e deu início as atividades. Era a primeira vez em que fazia algo como aquilo. Era uma tarefa chata e cansativa que fazia com que as palmas de suas mãos doessem. Ive se limitava a observar e assoviar uma cantiga natalina ao passo que Prozy se queixava de alguma coisa. Andrew ia cada vez mais fundo no solo, implorando para que seu próximo movimento fosse aquele que daria fim ao trabalho. Mas não era. Sempre havia um e mais outro para presenteá-lo com um e outro calo.

– Ive – comentou Andrew – eu acho que nunca conseguiremos chegar até o fim.

– Não, vocês morrerão antes de conseguirem.

Andrew ficou sem reação e tremores passaram por cada pedaço de carne. Reconheceria o dono daquela voz mesmo entre um milhão de pessoas. Era o som que avisava que tudo estava prestes a piorar. O garoto virou a cabeça apenas para ver Astrophel e Stella se aproximando em passos lentos. Tudo do que eu precisava, pensou, como se cavar sem alguém tentando me matar não fosse difícil o bastante. Viu quando o casal parou a cerca de quatro metros de distância. Astrophel disse algo inaudível à sua mulher e a deixou sentada sobre um tronco caído.

– Astro, você parece tão saudável! – disse Ive. – Suco de juventude feérica, não é? Minha irmã diz que faz maravilhas para a pele.

Andrew viu o rosto de Astrophel se contorcer numa expressão furiosa e Ive se colocar em posição de ataque. Os dois oponentes trocaram olhares enquanto Andrew pegava Prozy em seus braços e se afastava dali. Enfie o dedo no olho dele, Ive, gritou a coelhinha, morda o nariz. Não houve tempo para uma resposta, pois o evento seguinte foram pedras voando contra o feiticeiro, que as repeliu com um movimento mínimo das mãos. Andrew conseguiu ver um sorriso aparecer por um breve segundo no rosto da garota, que repetiu seu ataque de forma mais violenta, fazendo com que lápides e vasos de flores convergissem contra Astrophel. Eu cuido de Astrophel, gritou Ive, você continua a cavar. Andrew assentiu com a cabeça e voltou a cavar enquanto a filha da Morte continuava em sua peleja contra o homem. Terra, pedra e vidro voavam em todas as direções. Vez por outra o garoto era obrigado a se abaixar ou desviar de algum projétil rochoso. Tinha esperança de que saísse vivo dali no fim daquela confusão.

Astrophel repelia todos os movimentos de Ive e se limitava a recitar algumas palavras que Andrew mal conseguia entender. Ela passou a atacá-lo com magias que faziam com que a noite fosse invadida por explosões coloridas que arrancavam as plantas desde os talos e rachavam sepulturas ao meio. Andrew imaginava se sua amiga conseguiria segurar aquela luta por muito tempo. Para sua sobrevivência, esperava que sim. Os pensamentos foram interceptados quando uma pedra atingiu sua perna, fazendo com que até seus antepassados sentissem dor.

– Ei, moleque, eu já estou começando a ver – disse Prozy.

Andrew também já enxergava um pedaço de bota marrom. Começou a cavar com mais força, atirando os montes de terra e restos de madeira apodrecida por sobre o ombro. A primeira coisa a golpeá-lo foi o odor de coisa podre. Mais e mais partes ficavam evidentes, deixando o garoto imerso em susto ao constatar que, passados mais de cento e sessenta anos, o corpo de Adelpha Barrie continuava intacto. Era uma garota de longos cabelos castanhos e com um simples vestido branco, ainda tinha a aparência de quando foi retirada do lago. Os lábios dela estavam roxos, fissuras abertas pelos peixes na pele amarelada e viscosa. Andrew não sabia o que imaginar daquilo, sentia seu estômago se revirar.

Olhou para Prozy, que retribuiu o olhar de nojo. Ive ainda lutava violentamente. Foi então que Andrew compreendeu o que Astrophel fizera ao recitar palavras. Reconheceu os murmúrios antes mesmo de ver quem os produzia, a sensação ruim que invadia seus pulmões e o som de braços que se arrastavam. Andrew olhou ao redor, torcendo para que estivesse errado. Odiou estar certo. Gubbinals surgiam das sombras e avançavam contra eles.

– Quem disse que as coisas ruins não podem piorar? – queixou-se o garoto.

Prozy soltou uma risada nervosa e respondeu:

– Agora você está começando a compreender minha filosofia de vida.

Andrew podia ver a amiga fazendo o possível para derrubar o maior número de inimigos possível, mas os gubbinals não paravam de surgir, infestando todo o cemitério. Ive era obrigada a se defender de Astrophel e protegê-lo dos monstros que se aproximavam. Luzes, pedras e gritos cortavam a noite ininterruptamente. Ele sabia que tinha que se focar no que viera fazer e pôs-se a vasculhar os bolsos e as mãos da menina morta, não tinha noção do que devia estar procurando, mas deveria encontrar logo, caso tivesse algum plano na vida. Ainda estava em busca de alguma pista quando ouviu Ive lhe gritar algo. O nome está na boca dela, dizia a garota que enfrentava três gubbinals ao mesmo tempo. Andrew e Prozy olharam para o corpo no buraco e trocaram outra careta de nojo. Talvez não fosse tão ruim assim ter sua imaginação devorada e ser morto por aquelas criaturas.

Os gubbinals persistiam na tentativa de chegarem até Andrew, mas a garota fazia um esforço considerável para impedi-los e atacar Astrophel ao mesmo tempo. O garoto sentiu um novo acesso de náuseas quando o cheiro do corpo entrou em suas narinas, o que não deixava sua missão nem um pouco mais fácil. Tentou afastar todo o nojo que sentia para um canto da mente, em seguida, ajoelhou-se ao lado da menina do cemitério. Eu não vou conseguir fazer isso, pensou. Seu pai sempre dizia que Andrew era – nas palavras dele – um “fresco”, e pela primeira vez, foi obrigado a concordar que a afirmação era mais verdadeira do que nunca.

– Não se preocupe com o tempo, acho que você ainda consegue uma brecha para um cereal – disse Prozy.

Lançou um olhar cortante para a coelha e chamou o que restava de coragem dentro de si, prendeu a respiração e segurando o queixo da garota morta com uma mão, deu início ao procedimento. Seus dedos invadiram a boca fria e úmida com hesitação, roçando levemente nos lábios. A aspereza da língua correndo sob o toque. O indicador e o dedo médio procurando por algo cuja forma lhe era desconhecida. Ainda estava empenhado no exame quando algo fez com que seu estômago se trancasse. A garota morta abrira os olhos e o encarava. Um olhar cheio de ódio. Com o coração aos saltos, Andrew soltou um palavrão. Ainda estava à procura do nome quando seu braço foi segurado pela garota morta. Droga, droga, droga, pensou. Deixou que seus dedos escorregassem até tocarem algo duro e puxou o mais rápido que pôde, afastando Adelpha Barrie com um chute.

– Cuidado! – gritou Prozy.

Andrew saia da cova quando foi erguido ao alto pelo pescoço. Sentiu a traquéia sendo pressionada e o ar desaparecendo. O garoto olhou para o seu agressor, apenas para constatar que Astrophel não tinha nenhuma expressão no rosto ao fazê-lo. Colocou o primeiro nome no bolso e tentou se libertar de todas as formas possíveis com socos e pontapés, mas era como se estivesse sendo esmagado por uma cobra. Eu não posso morrer aqui, pensava cheio de angústia, não agora, não aqui. Não conseguia mais escutar o barulho de Ive lutando contra os gubbinals, queria que ela estivesse ali. Queria ter tempo para fazer mais coisas na vida, como terminar “A Violinista de Fevereiro”. Sua visão começava a ficar embaçada e as forças para continuar a resistir minguavam. Estava a um passo de conhecer a mãe de sua amiga.

Um grito cortou o ar do cemitério. O aperto em sua garganta afrouxou e sentiu seu corpo desmoronar no chão. Uma voz feminina. Seria Ive? Não poderia ser. Não. Era diferente. Apoiou-se numa árvore e se levantou para ver o cenário que se desenrolava diante seus olhos. A filha da Morte havia destruído todos os gubbinals e sorria sentada de pernas cruzadas sobre um túmulo, enquanto Astrophel permanecia caído no chão e rolando em dor. Prozy aproximou-se e encostou o focinho em sua perna, tinha os olhos grandes e assustados. Ao olhar um pouco mais adiante viu o que impedira o feiticeiro de lhe tirar a vida. Uma cena que deixou o garoto dividido entre o alívio e a pena. Era como se sua mente estivesse paralisada e todo o ar recuperado houvesse fugido uma vez mais. Não conseguia sentir suas pernas. Não conseguia sentir nada. Seus olhos dançavam entre olhar para a Ive, que caminhava com passos leves e assovios para o seu lado, e para a imagem paralisante. Stella erguida no ar por galhos de árvores e trespassada por um deles na perna esquerda.

Ive passou por ele sem dizer nada, aproximou-se de Astrophel e disse:

– Astro, Astro, Astro, danadinho. Você acha mesmo que eu não saberia da ligação que você e a fada possuem – que sua vida depende da dela? Imaginei que fôssemos competidores com respeito um pelo outro, acho que me enganei. Bem, tenho apenas uma coisa a dizer: saia de Dresbel e não volte, este é o meu jogo. Não serei tão simpática da próxima vez.

– Eu vou te matar – respondeu o feiticeiro. – Eu juro por todos os deuses antigos que arrancarei a sua cabeça com as minhas próprias mãos, sua...

– Não precisamos desse tipo de comportamento, Astro. Esse tipo de linguagem atrai muita energia negativa. Não leve a vida à sério demais, caso contrário, não conseguirá aproveitá-la direito. Boa sorte e tudo de bom na sua jornada. Mais uma coisa, não se esqueça de limpar aqui antes de ir embora, não é de bom tom deixar o parquinho sujo depois de brincar.

Andrew acompanhou todo o diálogo sem conseguir mover um músculo e com os olhos deitados sobre a fada cujo sangue caia em gotas que se transformavam em borboletas vermelhas no chão. Seus pensamentos flutuavam sem ordem por um mar de caos. E mais uma vez, uma pergunta soou em sua mente. Briony valeria todo aquele esforço? Todo aquele sofrimento?

– Ei, Andy, acho que podemos ir embora – disse Ive. – A propósito, tem sorvete na sua casa? Um milk-shake seria ótimo para relaxar depois de um dia cansativo como o de hoje.

A garota pegou sua coelhinha com uma mão e passou o braço livre ao redor dele. Começaram a caminhar para fora daquele lugar. O garoto virou a cabeça e lançou um último olhar para o feiticeiro que se arrastava em direção à fada inconsciente. Andrew ficou em silêncio durante todo o trajeto, girando entre os dedos a moeda que retirara da boca de Adelpha Barrie. Olhou para Ive e seu coração não soube dizer o que estava sentindo. Deveria agradecê-la? Temê-la? A única certeza era a de que desejava sumir dali, dormir e esquecer. Ive cantarolava “Over The Rainbow” e Prozy permanecia muda. Dessa forma, o pequeno grupo ganhou as ruas da cidade, onde um vento frio serviu de anúncio para uma chuva fraca.