A Morte é Legal
Capítulo QUARENTA E TRÊS
Sou tão simpática quanto sopa de repolho sendo bombeada pra dentro
de seus olhos.
Amber estava no ponto de ônibus. A chuva caia e formava um rio na beira da calçada. Outras pessoas se espremiam na tentativa de não se molharem demais. A garota aumentou o volume dos fones de ouvido, não gostava de conversas paralelas e fazia questão de não deixar brechas para que alguém puxasse assunto. Focou-se nas palavras dentro de sua cabeça – precisava concluir aquela letra. Jonas queria gravar a música naquele dia, pois já estavam atrasados. Era a única coisa que faltava para que enviassem a demo para o Dr. Dre. Essa era a razão de estar escutando a composição do amigo há mais de duas horas, em busca de um flow que parecia se esconder. E que porcaria era aquele violino no começo da música, perguntou-se. Tecnicamente não era um violino, mas um erhu, Jonas dissera, um instrumento chinês – o que ainda assim não combinava com nada do que ela criava.
– Será que não poderia parar de chover por um minuto? – resmungou.
O ônibus chegou dali a pouco, sentou no fundo e retirou o caderno da mochila. Repetiu a música mais uma vez e foi murmurando tentativas de rimas. Sabia que a resposta estava próxima, bastava prestar atenção. Riscou uma linha e substituiu algumas palavras. Pensou em seus artistas favoritos, Tupac, Missy Elliot, Nas, Eminem e Ice Cube. Pensou em como eles desfiavam as músicas como se rasgassem uma cortina de cima a baixo. Já estudara todos eles, decorado cada letra e até mesmo a forma como dobravam palavras. Agora, precisava fugir da influência deles. Não queria fazer um novo Illmatic ou Marshall Mathers LP, essas coisas já existiam.
Seus pensamentos foram interrompidos ao ver que duas garotas apontavam para ela e riam. Abaixou a cabeça e tentou voltar a trabalhar em suas músicas, mas, o fluxo havia se quebrado. Não conseguia entender por que as pessoas sempre a tratavam como se tivesse um terceiro olho na testa. Você não se cuida, seu pai costumava dizer. O que não fazia sentido, tomava banhos frequentemente, não tinha piolhos e nem chulé, como alguém poderia dizer que ela não se cuidava? Se “cuidar-se” fosse um eufemismo para passar maquiagem até se parecer com um palhaço, estavam certos. Não gostava de se vestir ou se maquiar como as outras garotas, sentia-se estranha quando era obrigada a fazê-lo, mal sabia fazer um penteado simples. Gostaria de gostar, mas não funcionava dessa forma.
Uma idosa sentou-se ao seu lado e abriu uma revista semanal, Amber incomodou-se pelo fato de a mulher esbarrar em seu braço durante todo o tempo. Imaginou se teria sido uma garota diferente caso sua mãe não tivesse morrido. Sua avó costumava dizer que a falta de uma presença feminina tinha feito a diferença. Seria isso verdade? Não se lembrava de muita coisa dela e preferia dessa forma. As pessoas sempre comentavam como ela era uma mulher bonita e vaidosa, que encantava a todos. O oposto de tudo o que a filha se tornara. Não era bela, nem elegante e tampouco era simpática – pelo contrário – ríspida e desbocada com frequência, que preferia brincar com os carrinhos de Andrew do que com suas bonecas.
Uma das únicas lembranças que tinha de sua mãe não era das mais agradáveis. Ela estava de cama, com tubos que lhe ajudavam a respirar e outros para que pudesse se alimentar, havia algumas flores no quarto e o médico ia uma vez por dia injetar alguma coisa – para ajudá-la a lidar com isso, dizia seu pai. Lembrou-se de não ter tido coragem de entrar algumas vezes – tinha medo, seu irmão estava quase sempre por lá, ficava lendo ou assistindo TV. Amber então se lembrou da última vez em que conversou com ela. Havia acabado de ganhar um álbum de figurinhas e falou sem parar sobre cada uma delas – pensando agora, havia sido uma coisa egoísta, nunca perguntara como ela estava, como se sentia, falara sobre si mesma e suas coisas.
Estava quase na sua hora de descer do ônibus, passou com dificuldade pela velha e antes de sair, aproveitou a ocasião para mostrar um dedo para as garotas que riram dela – não foi o indicador nem o anular. Correu sob a chuva em direção a casa de Jonas. Seus pensamentos iam se avolumando até a borda em que a composição de música se misturava com imagens aleatórias de seu passado. Precisava daquele flow, o tempo em que podia se frustrar havia acabado. A música era a única forma de conseguir o que desejava: respeito. Talvez fosse verdade que se sua mãe não tivesse morrido, ela e o irmão estariam em situações melhores, mas isso não fazia diferença.
Ao chegar à casa de Jonas, tocou a campainha e ficou tremendo na varanda enquanto esperava-o. Já tinha em mente o que fazer com aquela música, como abordá-la pelos flancos. Talvez seu amigo estivesse certo e ela não pudesse ser domada com força bruta, logo, teria que tentar uma nova abordagem, precisava sentir-se no mesmo ritmo das batidas.
A porta se abriu e a Sra. Hurston atendeu. Olá, minha querida, disse ela, Jonas está lá em baixo e pediu para que mandasse você descer. A garota agradeceu com um sorriso e seguiu o caminho tão conhecido. Notou mais uma vez como os pais de Jonas o apoiavam em seu interesse por música e não pareciam se importar muito com o enorme período de tempo que passava trancado no porão. Queria que seu pai fosse um pouco mais parecido com eles. Afastou isso da cabeça e desceu as escadas até o estúdio. O garoto a esperava sentado na mesa de edição e compondo novas batidas.
– Você demorou – disse ele.
– Eu teria chegado mais rápido caso tivesse um barco. Pego o de Noé emprestado da próxima vez.
– Tão ruim assim?
– Pior. Agora, vamos gravar essa coisa de uma vez.
Amber colocou o microfone e os fones no lugar enquanto o garoto preparava os equipamentos.
– Acho que já sei o que fazer com essa música, Jo, disse ela depois de que tudo estava pronto.
– Então, faça sua mágica – respondeu Jonas e assumiu sua posição na mesa de gravação.
Amber pegou o seu caderno e conferiu alguns detalhes pela última vez. Aquela era a música na qual vinham trabalhando há meses, a última coisa que faltava para que a demo ficasse pronta e pudessem mostrar um trabalho de verdade para as pessoas. E estava nas mãos dela fazer isso funcionar. Respirou fundo e colocou os fones. Precisava se conectar com o que estava fazendo, esquecer-se de tudo e deixar fluir. Fechou os olhos e relaxou, eliminando a tensão indesejada, estava dentro de sua área de concentração, apenas ela e o microfone. Quando sentiu-se pronta, pediu para que Jonas soltasse a batida.
Houve um clique e a música começou. Lá estava o erhu e logo vinham as notas. Sua mente foi seguindo as linhas do velho Roland TR-808. Podia sentir todas as influências de Jonas convergidas naquela música. O estilo suave de um Nujabes que ia subindo em direção ao caos controlado. As palavras foram deslizando de sua boca, um flow preguiçoso que singrava pelo som, falando sobre a cidade, indo de um detalhe para uma vista panorâmica, sobre as ruas e si mesma – sobre os obstáculos para se chegar ao topo. Em cada letra, palavra, frase, estava o drama que a levara até ali. A vergonha que sentira após o duelo contra Lil Darryl-D, a atenção que nunca recebera. A improvisação se mesclava ao que já havia escrito antes, formulando coisas novas a cada verso. O tempo ia aumentando, assim como o tom leve ia dando lugar a um discurso raivoso. Era como imaginar um novo tempo e espaço apenas com um microfone. Sentar na janela do quarto e dialogar com o mundo. Ia cuspindo as rimas, um jogo complexo que fazia um oceano de adrenalina circulasse nas veias. As palavras continuavam a vir, agora eram sobre a velha escola e aqueles que serviram de guias, sobre aqueles que estavam mortos e sobre aqueles que influenciaram todos. O céu é o limite. Notorious B.I.G disse isso. Tudo estava sendo depositado naquele microfone. E seria com aquele canto que faria com que sua voz fosse espalhada pelo mundo, através da qual conseguiria respeito. Seu flow foi perdendo a velocidade, acompanhando as notas de piano, e por fim vieram palavras sobre sua mãe. Desejava que ela estivesse ali e não precisasse estar fazendo aquela canção. Sentia falta dela. Como era sua voz ou seu abraço e risada? Lágrimas escorreram pelo seu rosto. Rezava para que algum dia pudesse vê-la mais uma vez, mesmo que apenas em sonhos. As batidas iam sumindo até que a música tivesse ido embora.
Ficou parada por um momento após terminar. Não sabia como reagir. Estou aqui, pensou, estou aqui. Tirou os fones e olhou para Jonas. O garoto a encarava em silêncio, mas seus olhos diziam tudo o que ela precisava saber.
Correu e abraçou-o.
– Você conseguiu, Amber – disse ele. – Foi de verdade. Qual é o nome dela?
– O mundo é meu – respondeu ela e sorriu.