A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 27 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo VINTE E TRÊS

As grandes verdades são encontradas no meio da lama e da noite, sem

curvas.

 

O mundo do hip hop sempre foi fundamentado sobre lutas e desafios e batalhas de egos. Fosse a rivalidade que tomou conta das Costas Leste e Oeste dos Estados Unidos nos anos de 1990 – culminando com as mortes de Tupac Shakur e Notorious B.I.G. Ou quando Commom atacou Ice Cube com a diss track “The Bitch In Yoo”. Passando pelas ofensas que Nas e Jay-Z trocaram entre 2001 e 2005. A luta estava sempre presente. Eminem contra Ja Rule. Canibus atacando L.L Cool J. E naquela noite, Amber Webley entrava naquele mundo.

Amber podia sentir o cheiro da plateia voando em sua direção: suor, bebidas, cigarros. Uma onda de calor se espalhando pelo corpo. Abafamento. Mãos suavam, pernas tremiam e sua boca estava seca. O que era aquilo que experimentava? Não sabia. Excitação? Não. Medo? Não poderia ser. Deixou que seus olhos passeassem pela plateia. Todas aquelas pessoas, um monte de adultos – e não simplesmente outros jovens da pista de skate – estavam ali para lhe julgar e caso ela falhasse, resultaria tudo em constrangimento. Ela não podia fraquejar agora. Sentiu alívio ao finalmente encontrar Jonas, ele havia ido para um lugar de onde podia enxergar melhor. Respirou fundo e tentou se focar no que estava acontecendo ali.

– Isso aí, família – gritava Maurice – o primeiro duelo da noite: Amber Webley contra o campeão da liga dos MC’s: Lil Darryl-D! Todo mundo fazendo barulho na quebrada. A rua é nossa.

Amber olhou para o garoto a sua frente. Devia observar Lil Darryl rapidamente para encontrar as rimas adequadas para usar contra ele. Roupas, trejeitos, aparência, qualquer coisa serviria. Ele era mais alto do que se lembrava, tinha um jeito tranquilo e olhava para ela com um sorriso cheio de deboche. Ele cuspia no chão e fazia algumas improvisações em voz baixa até o momento em que Maurice chamou os chamou para perto e disse:

– Darryl é o campeão, por isso escolhe quem começa. Vocês têm trinta segundos, depois disso o povo decide quem fica e quem some daqui chorando.

Lil Darryl-D riu e disse:

– Deixe-a começar, vamos ver o que rainha do subúrbio sabe fazer.

– A decisão é sua, cara – disse Maurice e entregou um microfone à Amber.

Isso não era uma coisa boa. O fato de ser a primeira lhe daria menos tempo para analisar o seu oponente e descobrir quais eram suas fraquezas. Tinha que se contentar com o pouco que sabia e rezar para que ele não tivesse nada guardado. Droga, pensou, tenho que ganhar todos eles logo no início e encontrar uma brecha na credibilidade dele, mas do que posso falar? Ele com certeza usará o fato de que sou uma garota branca.

– Plateia, plateia, plateia! – gritava Maurice ao microfone. – E ficou decidido que a novata começa. Duelo de bate e volta, com a possibilidade de uma terceira rodada caso o respeitável público assim decida...

O apresentador ainda continuava a falar, mas a mente de Amber não estava ali. Olhou para o público. Barulho, muito barulho, tantos e tantos rostos. Seu coração acelerado. Sentia os músculos do seu pescoço se contraindo, frio na ponta dos dedos. Limpou a testa com a mão. Por algum motivo, mal enxergava as coisas mais próximas direito, mas conseguia ver as expressões faciais das pessoas lá em baixo. Começava a respirar pesadamente. Toneladas de ar entrando pela boca seca.

–... E não se esqueçam de que na próxima sexta-feira, o MC Big Vinny vai estar aqui lançando o seu novo trabalho num pocket show exclusivo. Todo mundo apoiando ele, galera. Então, agora é a hora que todos estavam esperando, o duelo de MC’s. Preparada aí, Amber?

A garota se limitou a olhá-lo sem responder nada, o que pode ter dado a impressão de que seu silêncio era um consentimento, pois a próxima coisa que Maurice disse, foi:

– DJ Seung-Hwa, faz essa pick up coreana girar, mano!

Não houve muito tempo para pensamento, pois o DJ fez com que as batidas começassem imediatamente. Amber olhou para as pessoas e em especial, Jonas. Levou o microfone até perto da boca. Lá se iam as quatro batidas, correndo desenfreadas sem que ela as perseguisse. Olhava para o público que a encarava entre risadas e expressões de descrédito. Tinha que fazer alguma coisa sobre isso. Abria a boca, mas nenhuma palavra vinha, era como um peixe fora da água.

Sem travar, pensava, não posso travar. Apertou o microfone com mais força. Sabia que Lil Darryl estava rindo, tinha certeza disso. Sentiu uma lágrima escorrer pelo rosto. Droga!

Aquela não era a ocasião para choro, mas para dar a eles a nova vinda de Rakim [1]. O kung fu lírico. Era hora de dobrar palavras e criar rimas. Contudo, é impossível fazer isso quando as palavras se tornam escorregadias e a plateia começa a vaiar. O momento foi se estendendo como um elástico infinito. Teria Rakim travado alguma vez? Eazy-E? Roxxane Shantè? Ghostface Killah? Lady Sovereign? Notorious B.I.G? Não, ela tinha certeza. Não eram tão fracos quanto ela estava sendo. Trinta segundos. Quatro batidas por quatro. Repetidas. Nenhuma palavra. Nenhuma. Nenhuma. As pessoas gritavam, ela não entendia, mas estavam rindo e gargalhando. O que seu pai pensaria se a visse naquela situação? Provavelmente se sentiria envergonhado. O que seu irmão sempre certo e organizado diria? O que as pessoas de sua escola comentariam quando soubessem da sua falha? O fluxo de todos os pensamentos foi deslizando pela sua mente, se exibindo com todos os detalhes crus.

Olhou para suas mãos, estavam marcadas pela força com a qual segurava o microfone. Tudo o que ela precisava era um palavra, uma linha, um verso com o qual provar que conseguia fazer aquilo, que era tão boa quanto Andrew em alguma coisa. Ele era o inteligente, organizado e promissor, enquanto ela sempre ficava em segundo lugar em qualquer comparação. Ele tinha tudo. E ela não tinha nada no qual fosse boa, o rap havia sido apenas uma ilusão na qual se fiara mesmo sabendo que não conseguiria. Tudo estava tomado. Perdido. Que fossem todos para o inferno!

Jogou o microfone no chão e saiu correndo do palco. As lágrimas a acompanhavam enquanto saía por entre as pessoas que gritavam, empurravam e passavam a mão em sua cabeça. Um corredor polonês formado por cem pessoas. E ela correu. As batidas continuavam em sua cabeça mesmo quando se sentou na calçada de uma avenida distante.

[1] Amplamente reconhecido como o rapper mais influente de todos os tempos. Responsável pela concepção atual de flow em 1986, e por criar estruturas mais complexas, como o uso de rimas internas e inovações formais, o que levou a comparações com o jazzista Thelonious Monk.