A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 59 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo CINQUENTA E TRÊS

Treze maneiras de se olhar um harmônio e sentar-se sobre vinte

montanhas nevosas.

 

Era uma manhã preguiçosa. Estavam no quarto de Andrew ouvindo música e conversando sobre coisas banais. Ive tentava encontrar algo interessante, acabara de ler O Apanhador no Campo de Centeio e sentia uma espécie de ressaca literária, em que nada parecia ser interessante. Alguma coisa a incomodara profundamente no livro – ainda que ela não soubesse responder o quê quando questionada. Andrew sabia o que era isso. A mesma coisa aconteceu ao ler Grandes Esperanças pela primeira vez, depois de ter gasto dois dias inteiros acompanhando a vida de Pip, Estelle e todos ao seu redor. Charles Dickens tinha alguma espécie de poder que fazia com que se apegasse aos personagens como se fossem todos velhos conhecidos, e ao fechar a última página foi como se estivesse dizendo adeus a todos eles. Era aquilo que Ive sentia nos últimos tempos, a pontada no coração por ter passado horas agradáveis com pessoas de papel e ser obrigada a deixá-las partir. A garota suspirou e suspendeu sua busca para deitar-se ao lado dele na cama.

– Estou entediada – disse ela.

– Deveríamos estar pensando em como encontrar o próximo nome e pegar aquele que Astrophel levou.

– E depois disso poderíamos ir num karaokê e celebrar. Eu canto Bon Jovi e você faz a coreografia, moleque – murmurou Prozy, que estava deitada num canto assistindo a um filme.

– Prozy, sua opinião não conta – respondeu Andrew.

A coelha não se deu ao trabalho de responder e saiu do quarto para ir atrás de Amber, a única pessoa que parecia ser capaz de aguentá-la. Ive apoiou-se sobre os cotovelos e encarando Andrew firmemente sorriu e disse:

– Eu quero te fazer uma pergunta. Você ainda sente alguma coisa por Briony?

Aquela pergunta o pegou desprevenido. Pensou por um instante e respondeu:

– Não daquela forma. Não mais, Ive, eu gosto de você. Fui iludido durante muito tempo. Briony e eu seremos amigos, não mais do que isso.

Ive deu um sorriso pequeno que desapareceu rapidamente. Ela levantou-se e caminhou pelo quarto. Andrew a seguiu com os olhos, sabia que ela lutava para lhe dizer alguma coisa e preferiu esperar até que ela estivesse pronta. Ive desligou a TV que Prozy deixara ligada e puxou uma cadeira para perto da cama.

– Andy, se houvesse uma maneira de saber o que Briony pensa sobre você?

– Por que você está dizendo isso?

– Porque não quero que você fique comigo sem ter certeza. As coisas podem dar errado para nós. Preciso que saiba se ainda existe alguma possibilidade de você levar uma vida normal.

– Eu pensei que você não pudesse ler pensamentos.

– Não é leitura de pensamento, é uma visita onírica. E ela permitiu a visita.

Andrew lembrou-se da noite em que as duas estiveram juntas, Briony dissera que Ive estava convidada a fazer uma visita, apenas não podia imaginar que seria uma coisa tão literal. A oportunidade única de observar a mente de uma pessoa, embora, ao mesmo tempo, estivesse invadindo a única coisa que deveria permanecer território soberano. Qual seria seu direito de entrar na mente de outra pessoa e enxergar tudo aquilo o que ela guardava dentro de si? Pôs-se a imaginar se isso não seria tão errado quanto usar os nomes do gato para tomar o livre arbítrio de alguém. Entretanto, a oportunidade que qualquer escritor gostaria de ter em mãos estava ali, enxergar alguém por dentro.

A briga entre quem ele era e quem poderia ser prosseguiu mais forte do que antes. Não tinha mais nenhuma interesse por Briony, disse para si mesmo. Estava certo de que aquilo não era nada demais. Algo produzido pela curiosidade. Unicamente. Nenhum dano a ela e sua literatura iria se beneficiar de forma imensurável. Ora, James Joyce não deixaria que uma chance assim escapasse por entre seus dedos, pensou. É isso o que escritores fazem, usam suas palavras para cavar a mente de outras pessoas, a única diferença era que poderia fazer isso literalmente ao invés de literariamente.

– Tudo bem, Ive, vamos fazer isso.

A garota assentiu com a cabeça e após trancar a porta, pediu para que se sentasse no chão de pernas cruzadas e fechasse os olhos. Isso o deixou levemente desconfortável, mas não fez nenhuma objeção. Ela segurou sua mão e disse:

– Eu preciso que você imagine uma campina tão grande que é o mundo todo.

Andrew seguiu as ordens de Ive. Vibrações estranhas começaram a ressoar em sua cabeça. Sonolento, levemente anestesiado. Tentava mover alguma parte de seu corpo e nada acontecia. Sentiu-se subitamente fraco, como se sua percepção de espaço e tempo estivesse sendo realocada por uma batedeira. Sua mente formava rápidas associações de ideias, ao mesmo tempo em que o desconforto inicial dava lugar a uma onda de euforia e agitação. O rio de todos esses sentimentos escoou tão rápido quanto veio e numa questão de segundos, havia somente paz.

Estava descalço. Sentia o vento batendo em seu rosto, o sol não estava muito quente e o silêncio era intocável. Uns poucos arbustos se destacavam na paisagem verde. O que mais saltava aos olhos eram as portas azuis que se espalhavam por ali, sem nenhuma organização em particular. Se fosse um pintor, aquilo era algo que colocaria numa tela. Gostava do lugar, como se as preocupações da existência houvessem sido abolidas.

– Estamos na entrada da mente dela e cada uma dessas portas corresponde a um pensamento – disse Ive, surgindo de algum lugar atrás do garoto.

– Esse lugar é incrível.

– Andy, todas as pessoas do mundo passam grande parte de suas vidas por aqui, todas as noites. Quando Kivian criou esse mundo, ela distribuiu uma área para que cada um pudesse guardar seus pensamentos e sonhos. Morte e sono estão no mesmo departamento.

Ive começou a cantarolar algo dos Beatles e a andar, o garoto a seguiu em silêncio e notou que havia uma placa em cada porta, Andrew reconheceu a letra bordada de Briony: Música Pop – anunciava a primeira delas. Prosseguiram passando em frente às portas de Roupas, Escola, Família e Compromissos. A filha da Morte continuava a melodia de poucas notas dizendo que traria ajuda. Não sabia se isso era sério ou apenas mais uma invencionice de Ive. À medida que o tempo passava, o céu ganhava uma tonalidade roxa – Briony estava fazendo alguma coisa agradável, de acordo com Ive. O que acontecia atrás de uma das portas no momento, indagou-se Andrew. Já estava com a boca aberta para comentar isso quando foi interrompido pelo pio do melro pousado sobre uma das portas. As asas negras batiam e os olhos da ave estavam fixos sobre a dupla.

– Estão longe de casa – grasnou o melro. – O que buscam nos meus campos?

– A porta com o meu nome.

– Precisamos que nos guie – disse Ive. – A soberana desse lote nos deu permissão de estar aqui. E por isso, emplumado, você obedecerá.

O pássaro a encarou sem se mover ou falar. Andrew podia jurar que a criatura não estava nem um pouco feliz em ter visitantes, como se estivessem poluindo o lugar com a mera presença.

– Eu os levarei até lá – disse o melro e partiu.

Andrew segurou a mão de Ive e seguiu a ave. Os passos afundavam no verde debaixo de seus pés e aquele mundo parecia nunca ter fim. A busca por alguma porta que tivesse seu nome se tornava mais longa. As horas deviam estar se amontoando umas nas outras, suspeitava Andrew, correndo sem parar atrás da ave negra e silenciosa.

O garoto deixou que o seu descontentamento caísse.

– Eu estou cansado de não chegar a lugar nenhum, estamos aqui há eras.

Ao que Ive sorriu e respondeu:

– Não seja bobo. Estamos num pedaço da mente de Briony, o tempo psicológico corre de forma diferente – funciona de acordo com o estado de espírito da pessoa. Ela deve estar sonolenta ou distraída, é por isso que os minutos ficam se esticando aqui dentro.

Depois daquilo que pareceu mais uma hora, o melro pousou sobre uma porta. A última que havia, pois tudo o que havia a seguir era uma palmeira – a única árvore vista por ali – e um branco infinito, como uma folha de papel em branco que houvesse sido posta sobre tudo. Andrew se aproximou da porta e leu a placa. Andy, seu nome estava escrito da mesma forma que a dedicatória do livro que lhe dera.

– O tempo de vocês está acabando – disse o pássaro. – Visitas futuras não serão aceitas.

O melro mexeu as asas e voou para dentro da imensidão branca. O coração de Andrew bateu mais forte, sentiu a testa suar e seus dedos tremerem. Olhou para Ive, que apenas deu de ombro e o incentivou a abrir. O jovem estendeu a mão para a maçaneta de vidro e a girou. Ive entrelaçou os dedos nos seus e juntos começaram a seguir pelo corredor escuro que se abria diante deles. Não demorou muito tempo para descobrir onde estavam, era uma enorme sala de cinema na qual, exceto por duas cadeiras no centro, estava lotado por manequins em roupas de gala.

– Isso está ficando muito estranho – murmurou Andrew.

– Acredite em mim, poderia ser bem pior. Eu ouvi falar da mente de um homem que era cheia de armadilhas e guilhotinas.

A dupla tomou seus lugares e esperou até que as luzes se apagassem e o barulho do projetor ficasse audível. A tela se iluminou e alguma música de Cole Porter começou a tocar enquanto as imagens se formavam em preto e branco. Os créditos apareceram e, por fim, o título, Andy Não Pode Saber, surgiu.

Havia uma sala onde várias pessoas dançavam charleston e bebiam destilados. Andrew teve a impressão de que estava assistindo alguma filmagem recuperada da Era do Jazz. A câmera se focou numa garota fumando com uma amiga num sofá. Tinha cabelos cortados, saia curta e usava bastante maquiagem. Andrew, numa de suas noites de insônia assistiu a um filme de Clara Bow, uma das mulheres mais bonitas que já vira, e as garotas se pareciam com ela, fossem em gestos ou sorrisos. Foi com alguma dificuldade que a reconheceu como sendo Briony e a outra como Kayla, sua companheira de banda.

– Eu ouvi uma coisa por aí – Kayla disse.

– O quê?

– Seu amigo, o escritor, está apaixonado por você. Há muito tempo pelo que parece. Você sabia disso?

– Eu imaginava, Kay. Não é uma situação fácil. Eu gosto dele, eu me preocupo com ele, mas falta aquela coisa para dizer que eu morreria por ele.

Kayla tomou mais um pouco do champanhe e acrescentou com um sorriso:

– A faísca do amor?

Andrew sabia que apesar de se parecer com um filme, aquelas palavras eram verdadeiras e expressavam os sentimentos de quem dizia. Não sabia como filtrar ao que assistia. Ive colocou sua cabeça no ombro dele e segurou sua mão. As garotas na tela se distraíram olhando para o grupo de rapazes que dançava ali perto, mas logo em seguida, retomaram o assunto.

– Andrew é um pouco estranho, admito – dizia Briony. – Eu gosto dele, é uma ótima pessoa, simpático, educado e inteligente.

– Mas não é o suficiente, correto? Ora, Andy é um garoto tão bom, estou certa de que você teria todo o amor do mundo, Bri.

Briony riu com o canto dos lábios e após bebericar mais um pouco de bebida, respondeu:

– Não existe isso de amor que não se bloqueia ou que não se cobra, amiga. O amor é uma coisa insegura. Existem tipos diferentes de amor: Amor de mãe, amor de amigo, mas, o amor de relacionamento não anda sozinho.

– Que coisa mais triste, Briony.

– Eu não sou de ficar por ficar, mas sou uma pessoa intensa. Tenho sentimentos intensos. Sem meio termo, por isso, não posso ficar com Andrew. Porque estar com ele seria um meio termo. Não, paixão é o que importa, sem isso, tudo fica muito neutro. O que salva o amor é isso, que vem de mãos dadas com a raiva, ciúmes, ódio, inveja e vingança. E sabe, eu fiquei pensando... Será que ele não sente apenas uma empolgação? Eu dou atenção, apoio, me preocupo com ele... Preencho um vazio dele.

Andrew não se incomodou em assistir ao resto da cena. Não precisava. Levantou-se num salto e saiu tropeçando nas pernas dos manequins. Ali estava sua ervilha do pensamento verdadeiro de uma pessoa! Fora um idiota por ter não ter esperado exatamente o que havia acontecido. Começou a empurrar os espectadores de plástico e fibra com violência. Rejeitava tudo o que havia escutado. Não e não. Que tinha ele na cabeça? Ingenuidade, estupidez e a coragem de um verme. Mas ele se lembrava de cada conversa com Briony e permitia que o revisionismo da cabeça trabalhasse a revelia. O que ela faria caso soubesse disso, que ele tinha ciência de tudo? Iria sentir-se envergonhado por ter sua máscara destruída?

Foi nesse momento que sentiu os braços de Ive o envolverem com força.

– Está tudo bem.

Andrew caiu de joelhos e ainda vislumbrou uma última imagem da versão melindrosa de Briony dançando com um jovem ao som de uma banda. Ive segurou sua mão. Escutou o grasnar do melro e o som de suas asas longe e longe.