A Morte é Legal
Capítulo VINTE E OITO
Ela disse que não deixaria os robôs verdes devorarem-me, mentirosa,
estou num deles agora.
“Tha Carter II” tocava em volume alto, mas Amber Webley não prestava atenção. A música ia de um lado para o outro do quarto, fazendo os vidros da janela vibrarem. O olhar dela percorria os pôsteres de seus ídolos, as roupas e discos espalhados pelo chão, a parede grafitada e os cadernos lotados de letras e rascunhos. Seus pensamentos caminhavam preguiçosos no sótão da mente. Isso tudo é muito injusto, pensou. Sabia que Lil Wayne na idade dela já havia dado passos concretos em direção a uma carreira no mundo do hip hop, e ela não conseguia nem duelar num viaduto. Era obrigada a reconhecer que talvez fosse apenas uma MC mediana e sem nada de especial.
Rolou na cama de um lado para o outro até não conseguir mais. Não tinha vontade nem ânimo para fazer coisa alguma. Colocou um agasalho e saiu. Podia escutar o irmão conversando com a amiga, havia notado que eles vinham passando muito tempo juntos. Olhou para o relógio do corredor e viu que passara a maior parte do dia dentro do quarto. Quatro horas da tarde. Havia coisas sobre a mesa, o jornal de Dresbel anunciava na primeira página que Abim, a pantera do zoológico morrera engasgada com algo atirado em sua jaula. Pelo menos eu não sou a única morrendo engasgada, pensou rancorosa. Pegou um gibi que estava jogado no sofá e saiu de casa, gostava de sentar na escada da entrada e observar a rua. O movimento de carros indo e voltando.
Estava frio – foi a impressão que seu corpo registrou primeiramente –, estava muito frio e o chão estava umedecido.
As imagens daquela noite continuavam a voltar a todo o instante. Sentia-se um lixo. Quantas mil vezes ela já se imaginara no palco, vencendo a todos um por um? Setenta vezes sete por dia. Jonas me disse para não entrar no duelo , pensou, folheando a revista em quadrinhos displicentemente, para assistir ao menos uma vez... Como eu poderia ao menos pisar na loja de Maurice novamente? Não, não, não! Fracassara diante do amigo, da plateia e, ainda pior, diante de seu rival. Ela era apenas uma faca cega no meio de um tiroteio. Oh, sim, exclamou consigo mesma, agora serei motivo de piada de todo mundo.
Amber tirou os olhos do papel a tempo de ver Jonas descer a rua em seu skate. A última pessoa que queria ver naquele momento. Será que ele não tinha noção de que ela queria ficar sozinha? Ele atravessou a rua e sentou-se ao lado dela.
– Estava preocupado com você – disse ele.
– Como você pode ver eu estou viva, agora, já pode me deixar em paz.
Esperava que isso funcionasse e o fizesse ir embora, seu humor não suportaria muita conversa. Jonas olhava para o alto, como se fosse encontrar alguma coisa no céu que acabasse com aquele momento constrangedor. O garoto colocou a mão em seu ombro para oferecer apoio, Amber afastou a mão dele com um tapa.
– Você não entende, não é? Não sabe o que é se sentir incapaz. Quem engasgou lá em cima fui eu, passei vergonha na frente de todos os MC’s da cidade e saí correndo. Claro que você não entende, está sempre fazendo seus batuques sem ter que levar na cabeça. Credibilidade de rua, que ilusão. Se eu estivesse morta, eu estaria melhor. Não quero mais saber de duelar, não quero saber de rap.
– Amby, não diga isso.
Amber se levantou e rasgou a revista em quadrinhos, deixando que os pedaços caíssem como pedras sem peso. Jonas se moveu, perturbado. A maré que se agitava dentro dela não podia ser contida ou transmitida em palavras. Quanta frustração havia, que raiva, que surto, ânsia verdadeira. Ficou ali, olhando para o garoto, que estava de cabeça baixa girando uma das rodas do skate com a mão. Sentia-se como alguém que fica na ponta dos pés para alcançar o topo de uma escarpa inabordável. O garoto a olhou serenamente e esperou até que ela estivesse menos furiosa. Você não pode desistir do que é importante para você dessa forma, disse ele. A vida é desafio, Amby. Eu não gosto de ir para a escola, onde as pessoas riem do meu cabelo, da cor da minha pele e do que eu sou de forma tão chata que eu gostaria de ter nascido diferente. Sinceramente, ninguém sabe como aquele lugar é o inferno, eu levo surras nos banheiros, nos corredores, sou enfiado dentro de armários e tenho que encontrar desculpas todos os dias para os machucados novos. E dia após dia, eu não consigo reagir, fico parado, rezando para que pelo menos uma vez, eu passe despercebido e ninguém preste atenção em mim. Isso é um dia bom, quando ninguém mexe comigo. E eles não acontecem com frequência. Então, sim, eu sei o que é se sentir incapaz. A minha música é a única coisa que tenho, porque sou eu contra o mundo. Acredite, eu tenho que levar muito na cabeça para fazer os meus batuques.
A garota ficou parada, processando a avalanche de palavras do amigo. Era a primeira vez que o ouvia falar daquela forma. Nunca imaginara que Jonas pudesse ter tanta coisa guardada dentro de si. Sentiu-se mal por ter agido como se ela – e apenas ela – fosse o centro do mundo. Voltou a se sentar ao lado de Jonas e passou o braço por sobre os ombros dele.
– Foi mal, Jo – disse ela. – Não sei com que eu estava na cabeça. Acho que só estou chateada pelo o que aconteceu no viaduto.
Jonas forçou um sorriso e respondeu:
– Está tudo bem, Amby. Eu só quero que você não desista de tudo por causa do que aconteceu lá. Esse tipo de coisa é normal. Você terá outras chances para chutar o traseiro de Lil Darryl. Ou todo aquele papo de ser a rainha da cidade era besteira?
Amber ficou em silêncio. O olhar perdido na distância, além da Torre de Dresbel no fim da cidade. Estava com raiva e assustada, o medo de falhar escapando pelos cada poro. Fechou os olhos por um instante. Se Jonas pode superar os medos dele para fazer isso, pensou, o mínimo que eu posso fazer é mostrar o dedo para quem entrar na frente e me mover. Sentiu a velha vontade de brigar dando partida no cérebro, a competitividade que a movia. Eles podiam ter cuspido no túmulo dela aquela noite, mas ela estava de volta e com vontade de usar a coroa. Subiria naquele palco e queimaria a alma de Lil Darryl bem lentamente. De agora em diante, seria uma ameaça à solta, uma renegada.
Limpou uma lágrima que começava a sair. Tinha um objetivo para guiá-la. Olhou para o amigo e com um pequeno sorriso, disse:
– Prepare suas batidas, vamos voltar ao jogo e ensinar as donzelas como versos de verdade são feitos. Eu não vou perder, Jonas.
Viu Jonas abrir um largo sorriso e se aproximar dela. Estava visivelmente contente por vê-la melhor. Não perfeita, contudo, visivelmente melhor, e isso por ora seria o suficiente. O garoto enfiou a mão dentro do bolso e tirou um pequeno disco azul.
– As últimas batidas que criei, esperava que você jogasse algumas linhas nela.
Amber tomou o disco em suas mãos e assentiu com a cabeça. A melhor coisa que tinha a fazer era se concentrar em algo para esquecer os eventos passados. Iria trabalhar nessa faixa até que seus olhos sangrassem. Guardou o CD no bolso e convidou Jonas para ajudá-la com a música. Por um instante, tudo estava bem, como se nada tivesse acontecido e eles estivessem apenas brincando de fazer rap no porão.
Jonas se levantou e foi com dela. E durante algum tempo houve silêncio, mas, caso alguém esperasse diante daquela mesma casa por mais alguns minutos, começaria a ouvir batidas e versos rápidos sendo disparados.
Eu sou a lei e a sina, olhando a corja de cima/
É, eu sei, me mover por instinto, caminhando/
Expressando o que sinto, uma homicida da rima/
Eu mando bem, você é ninguém elevado ao cubo/
Não pergunto quem, eu sou ouro e eles, adubo/
(...)