A Morte é Legal
Capítulo VINTE E NOVE
Eu te mostrei as ruas da sua cidade e te contei que elas eram feitas de
papel machê.
A manhã começava fria e silenciosa às cinco da manhã. O orvalho recobria as árvores e os carros estacionados. Os primeiros trabalhadores já eram vistos descendo a Avenida Chillingworth, desciam apressados e esfregando uma mão na outra. Vapor escapava dos bueiros e a garoa não dava trégua. Nada naquelas primeiras horas da manhã tinha algo de diferente ou extraordinário. Exceto para Andrew Webley, que observava Ive caminhando em sua direção. Era o início da busca pelo segundo nome do gato. Apreensão percorria seu estômago. Enfiou as mãos nos bolsos e esperou até que Ive e Prozy se aproximassem. Eu fiquei com medo de você não aparecer, disse Ive. Sacudiu a cabeça numa negativa e começou a acompanhá-la. Não poderia simplesmente desistir, e, além disso, sentia uma curiosidade maior do que o medo em descobrir esse mundo secreto.
Prozy se ajeitou dentro da bolsa de Ive e disse:
– Eu sei que o meu bom senso não faz diferença para vocês, mas, não acho que chegar até Obie e pedir o nome seja de muita utilidade.
– Você é sempre tão pessimista – disse Ive. – Relaxe, eu andei pesquisando nos arquivos e descobri como resolver isso. Ao que consta, Obie é suspeito de contrabando espiritual e de organizar uma quadrilha de imigração ilegal para o mundo humano, trazendo fadas, espíritos e outras coisinhas para cá.
– Essa é a pessoa que a gente está indo procurar? – indagou Andrew estupefato.
A coelha riu e respondeu:
– Nem mesmo Rayla conseguiu provar isso, não acho que uma estagiária faria muita diferença.
Ive fingiu estar ofendida e respondeu:
– Coelha de pouca fé, por que duvidar de mim? Você nunca vai pagar o seu carma se continuar agindo dessa forma – ao notar a expressão de confusão no rosto de Andrew, explicou: – Prozy era uma criminosa muito famosa no lado de lá. A punição dela é ser meu espírito-guia.
– Moleque, eu fui a melhor que já existiu. O recorde de roubo no mundo espiritual ainda é meu, vinte e sete bancos no mesmo dia.
Andrew riu e continuou a seguir pela avenida em direção ao centro da cidade. Olhava para Ive algumas vezes, se lembrando do beijo que trocaram no cemitério. A recordação nítida daquele evento lançou uma aura de embotamento sobre tudo o que acontecia ao seu redor, como se por um momento, a memória fosse mais tangível que a realidade. Mas que acesso de emoção era esse? – Essa explosão de calor no peito – O que era? Coisa sem princípio nem fim. Essa vontade de segurar a mão dela. Será que estava começando a ter sentimentos por ela, então? Quando ela anda, pensou, os cabelos dela se movem levemente. Como um gato que se move numa viela, ou como um jejuador em seu retiro, deu um passo atrás do outro, ainda flutuando em pensamentos. A voz dela o interrompeu.
– Como anda a violinista?
– Eu... não tenho escrito muito ultimamente, muita coisa na cabeça.
– Pois deveria voltar a fazê-lo, ora. Histórias são importantes, Andy.Mais importantes do que a maior parte daquilo que importa. Porque se você fizer direito, elas podem viver para sempre. Quando eu era menor, o Sr. Shakespeare costumava me dizer que enquanto houver pessoas vivas no mundo, as histórias viverão e as pessoas viverão nas histórias.
– Como ele é? Digo, William Shakespeare.
– Estranho – respondeu Prozy imediatamente. – É a melhor forma de definir aquele homem. Eu me lembro de quando ele decidiu criar um monólogo musical com tubas e castanholas. Ele chamava de a fase progressiva dele.
Ive riu, como que se lembrando de velhas histórias.
– É um homem engraçado e cheio de manias estranhas, consegue ser bem dramático às vezes, mas todo mundo gosta dele por lá. Tem um senso de humor que só ele entende e está sempre metido em algum tipo de rivalidade com o Sr. Ben Jonhson.
Andrew foi obrigado a imaginar como seria viver no outro lado, onde todos os mestres desde a Antiguidade eram apenas vizinhos de porta. O garoto perguntava-se por que temer a morte se tinha a certeza de uma continuação do outro lado. Qual a graça em viver num mundo tão banal se existia um novo mundo onde poderia se dedicar apenas aos seus interesses – sem responsabilidades e sem limite de tempo. Onde pudesse flanar sem sentimento de culpa.
– Bem, Andy,estou curiosa para ler sua história. Por isso, escreva-a – estavam perto do encontro entre as ruas Bruton e Walsh. – Estou quase terminando o livro novo que comprei.
Ive havia comprado uma bela edição ilustrada de Peter Pan numa das lojas da Rua Florence Nettle. A garota tinha o hábito de ir até seção de livros infantis e ficar sentada no chão lendo ou olhando as figuras de livros, movendo-se apenas para alternar a posição ou pegar outro calhamaço. Gostava de conversar sobre livros com ela, ao contrário de Briony, que gostava de ler romances açucarados e bobos, Ive tinha um gosto por coisas inusitadas.
– Um dos meus livros favoritos quando eu era criança. Meu pai costumava ler para mim – respondeu Andrew.
– Eu gostaria tanto de visitar a Terra do Nunca. Imagine só, viver num lugar onde você pode ser criança para sempre! Voar pelos céus – ela abriu os braços e girou –, enfrentar piratas, dançar com índios e fazer tudo, tudo, tudo o que quiser. Se você pudesse ser personagem de algum livro, qual você seria?
– Não sei, talvez um do tipo Werther que sofre por amor durante a história inteira e se mata no final.
– Moleque, a graça dessa brincadeira está em imaginar ser alguém diferente do que você já é.
– Morra, sua coelha maldita.
Já estavam caminhando há mais de meia hora quando pararam em frente a um terreno baldio, onde uma placa dizia: Não entre. Olhou de um lado para o outro, procurando alguma coisa que servisse para mostrar que estavam perto de alguma coisa. Não encontrando nada, voltou os olhos questionadores para sua amiga. Ive sorriu e respondeu:
– Não se preocupe, você vai entender. Será um pouco nojento, mas vai dar tudo certo. Poderia fechar os olhos, por favor.
Andrew obedeceu, sem conseguir supor o que Ive poderia querer com isso. Ouviu quando ela se aproximou e segurou sua cabeça com uma das mãos, logo em seguida, sentiu algo frio e úmido sendo passado sobre suas pálpebras. Todo o seu corpo se arrepiou e seus olhos arderam como se tivessem sido mergulhados em pimenta.
– O que você fez? – perguntou em dor.
– Não muito, só cuspe e lama para clarear sua visão – disse Prozy.
– Cuspe! Você passou cuspe nos meus olhos, sua louca?! – respondeu Andrew, irritado e se limpando com uma ponta do cachecol.
Talvez tivesse protestado ou se enfurecido mais, caso não tivesse perdido a voz momentaneamente. Diante de si, onde antes havia apenas um terreno vazio, erguia-se uma enorme construção de três andares. Podia ver um fluxo de pessoas e coisas que definitivamente não eram humanas em nenhum aspecto ou circunstância. Andrew permanecia completamente imóvel e boquiaberto, mais até do que estivera em Hoon. Uma placa de neon avisava: MERCADO CENTRAL DE DRESBEL. Sua boca formou apenas um som:
– Uau.