A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 23 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo DEZENOVE

Eu prefiro ficar sozinho. Em qualquer lugar e com você. Eu não estou

pronto para começar.

 

Astrophel mordeu o dorso da mão. Segurou o soluço que subia de dentro. O banheiro estava frio. Controlou o medo que ameaçava tomar conta de si. Lavou o rosto e tentou se controlar. Podia ouvir Stella ajeitando a mesa e os vidros do lado de fora. Sabia o que e como devia ser feito, mas o seu coração não estava firme, confiante – estava alojado no medo. A morte é a única certeza, pensou, não fique assustado, mas preparado. Respirou fundo e saiu do banheiro.

Seus passos eram pesados. Poderia voltar atrás?

A sala do apartamento estava mergulhada numa semi-escuridão e Stella colocava os castiçais em seus devidos lugares. Fingiu não notar o medo e reprovação no olhar dela, já era suficiente ter que lidar com seus próprios anjos e bestas interiores. Abriu o cofre que ficava atrás de uma pintura com a qual Caravaggio presenteara o casal.

– Você tem certeza de que é a única saída? – perguntou Stella.

Tinha certeza? Não. Nunca houvera certeza nenhuma em nada do que se propusera a fazer. Daria certo ou daria errado. Uma breve questão de sorte ou azar. Surpreendeu-se ao conseguir responder friamente:

– O único caminho, meu amor. E se para salvar você for preciso vender minha alma, que seja! Aos Infernos com isso.

– Você será condenado e ficará lá até o fim dos tempos.

Astrophel riu:

– Sim, quando eu morrer. Assim sendo, não morrerei nunca e nem você irá.

Tirou um enorme livro do interior do cofre e deixou que os dedos deslizassem sobre a capa de madeira e couro. As páginas de velino cheiravam a setecentos e oitenta anos de segredos. Havia roubado o volume de um frade que fora emparedado vivo num mosteiro na Boêmia. Um miserável que quebrara seus votos monásticos e que em uma noite, com o auxílio de um demônio, escreveu o livro que continha todo o conhecimento negro da humanidade.

Sentiu Stella tocar o seu cabelo, beijou os lábios dela e tentou confortá-la com um abraço, a comunicação silenciosa que haviam desenvolvido com o passar dos anos. Tudo ficará bem, dizia o aperto dos braços. Era o que queriam acreditar. Astrophel sentia-se cansado. E se isso não desse certo? Estaria disposto a arriscar sua alma apenas pela possibilidade de salvar Stella? Havia um nicho em seu coração pelo qual um pensamento se esgueirava: Tudo seria devastado no fim.

– Hora de começar – disse Astrophel se desvencilhando do abraço ao mesmo tempo em que usava uma pequena magia para acender as velas e a lareira.

Passou as páginas até encontrar aquela que procurava e se deteve enquanto buscava a coragem necessária para recitar as palavras de invocação. Palavras do mundo espiritual que pessoas comuns vislumbravam apenas em transes e delírios. Seus lábios tremeram quando começou a pronunciar lentamente cada sílaba:

Rhumn talaballa kanta shurianta lahia,

Bathury kori barithala shumann doremi,

Allenthui nacai kalantaras orikanti-bandias.

A entoação demorou ainda mais uma hora entre gestos invocatórios e riscos traçados no ar. Stella o auxiliava trazendo os ingredientes necessários ao ritual. Era uma tarefa extenuante que fazia com que um torpor fosse subindo da ponta dos dedos até a cabeça. O suor fazia com que sua camisa ficasse colada as costas como uma segunda pele. Colocou seu foco de volta no que estava fazendo.

Astrophel sentia o ambiente se tornar mais frio, imaginava se era verdade ou apenas seu corpo exausto. Não era cansaço. A temperatura havia caído o suficiente para embaçar todos os vidros e criar uma cortina de neblina dentro da sala. Afastou-se do livro e foi se colocar ao lado de Stella, que tremia e usava uma cadeira como apoio.

Ele sabia que o demônio se aproximava. As chamas da lareira crepitavam e mudavam de tamanho, ganhando formas assustadoras. Cheiro de enxofre dominou. Estava dando certo. O mal estar provocado pela presença demoníaca estava impingido em cada centímetro. Não demorou muito para que uma voz sibilante e pausada surgisse do fogo.

– Astrophel, Bruxo da Terra Velha – disse a voz. – Por acaso não sabe que não se deve perturbar aquele que moram no Inferno?

– Eu não perturbaria se não precisasse de algo. Mefistófeles, meu caro, sua presença não é tão agradável quanto você imagina e definitivamente gostaria de me ocupar com coisa melhor.

– Como pode querer um favor meu quando me dispensa tão enorme grosseria?

– Eu te trato como convêm tratar um demônio. E, além disso, não vim até aqui para suplicar um favor ou trocar amenidades, mas para estreitar laços comerciais.

Houve silêncio da parte da criatura, Astrophel sabia que ela estava apenas fingindo estar em dúvida. Mefistófeles era um negociador que se divertia em negociar favores com humanos desde que saísse com a alma deles no final. O demônio responsável por seduzir e corromper pessoas e – o mais importante – detentor dos segredos do mundo humano.

– O que você busca, Bruxo da Terra Velha? – indagou a voz que vinha do fogo. – E o que você me oferece em troca?

– Astrophel... Não – murmurou Stella.

– Eu busco os nomes do gato e te darei um desejo em troca. Ajude-me a encontrar os nomes e compartilharei o grande prêmio com você. Ou será que aquele que atende todas as vontades não tem desejo próprio? Eu posso te ajudar. Quer dominar o Inferno? Eu te darei isso. O sangue de mil milhões? Estará ao alcance.

– O que você me pede é perigoso, feiticeiro. E estarei dependendo do seu sucesso para receber o meu pagamento. O que eu tenho a ganhar?

– Você sairá ganhando em qualquer situação. Eu te darei a minha alma caso não consiga obter todos os nomes. Meu espírito pelo resto da eternidade e mais seis meses. Acho que é uma boa oferta.

Ficou imóvel, sem desviar os olhos das chamas. Lembrou-se de uma conversa recente que tivera com Stella na qual ela lhe dissera que o universo conspirava para punir aqueles que lutam contra o destino. Uma opinião com a qual os gregos concordavam, disse para si mesmo. Tenho medo de que assim seja, pensou ele e voltou a se concentrar no que acontecia. Segurou as mãos nervosas dela.

– De fato – respondeu a voz sibilante. – É um bom acordo e uma boa meta para se perseguir. Eu te darei a localização do primeiro nome e localizarei os restantes. Você cumprirá a sua parte. O primeiro deles está cravado nos dentes da afogada. Numa terra sagrada, proibida para moradores do mundo inferior.

Astrophel entendeu exatamente ao que o demônio se referia e com um sorriso, respondeu:

– Fico feliz que tenhamos um acordo, Mefistófeles. Acho que não temos mais o que conversar aqui. Até o próximo encontro e saia por onde entrou.

– Nos veremos em breve. De hoje em diante você tem uma dívida comigo.

O fogo foi diminuindo de tamanho e brilhava em cores diversas a cada movimento. O feiticeiro acompanhou até que somente restassem brasas avermelhadas na lareira. O ambiente foi se aquecendo lentamente. O casal estava sozinho. Astrophel pensava: demônio, você não sairá com nada.

Stella segurou-o pela mão, trazendo-o para junto de si. Tremia. Astrophel apertou-a em seus braços e acariciou seus cabelos prateados. Até então ela se mantivera forte, a confiança de que conseguiriam escapar ilesos enchiam-na de força. Mas e agora que via o caminho mais sinuoso que nunca? É possível conter lágrimas quando ainda há uma réstia de luz, uma porta aberta. Mas ao que poderia se apegar quando já haviam tomado a mais desesperada das medidas?

Astrophel permitiu que ela chorasse e não disse nada. O que havia para ser dito?