A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 64 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo CINQUENTA E OITO

Eu preciso de fósforos, pólvora e dinamite para celebrar o aniversário

do meu chefe.

 

Andrew conferiu o embrulho mais uma vez e esperou o elevador fazer sua trajetória até o andar de Ive. Seus olhos se distraíram observando os tênis molhados, já fazia algum tempo que uma chuva tão forte não caia sobre Dresbel. O trânsito estava caótico e cada carro parecia empenhado em mostrar ao da frente quem oferecia a buzina mais irritante. Gostava da cidade, apenas não suportava a maior parte dos moradores. As pessoas eram o problema: jogando lixo ou cuspindo no chão em cada esquina, pessoas que tentavam tirar vantagem uma das outras a qualquer custo, pessoas que fumavam e sopravam fumaça em sua cara pelas calçadas e outros paramécios que agiam de forma pior, mas, eram considerados alfas sociais por outros tão idiotas quanto.

Seus pensamentos foram interrompidos pela porta do elevador se abrindo. A filha da Morte já o aguardava ao lado de Prozy. Ela lhe deu um beijo. Não podia deixar de notar como estava bonita. Ive vestia uma camisa do Lucy and The Popsonics que pegara dele e um casaco preto de tweed com calça e tênis.

– Vocês poderiam ser menos nojentos e não trocar saliva na minha frente? – disse Prozy. – Eu acabei de acordar.

– Se isso te irritar eu devo estar fazendo alguma coisa certa – respondeu Andrew.

– Você demorou, docinho de tinta!

– Eu passei numa loja antes e comprei isso para você – disse ele entregando o embrulho.

Ive sorriu e sem perder tempo, rasgou o pacote tirando o Pooh de pelúcia que se escondia ali. Andrew sentiu a revoada de borboletas no estômago ao escutá-la soltar gritinhos de felicidade. Sentia algo diferente na forma como se relacionavam agora, capaz de compreender a porção feminina que a habitava. Gostava de observá-la distraída com algum pensamento ou quando experimentava algum doce pelo qual se apaixonava. Costumava pensar que um relacionamento, até o mais simples deles, residia na felicidade que o outro lhe proporcionaria, mas era o contrário. Talvez parte do sentimento de estar com alguém fosse se alegrar por fazê-la feliz.

– Obrigada, Andy, eu amei de verdade e em excesso.

O trio entrou no apartamento e Ive foi até a cozinha buscar biscoitos e leite para que pudessem discutir sobre o terceiro nome. Ive caminhava como se fosse mais leve do que qualquer coisa ao redor. Ela voltou carregando uma bandeja e juntou-se a ele no sofá. O rímel deixava seus olhos ainda mais vivos. Era obrigado a conjecturar quanto tempo levaria até que uma garota tão legal notasse que poderia conseguir alguém mais interessante do que ele. Deixou esses pensamentos de lado e levou sua atenção para a busca pelos nomes.

– O que faremos hoje? – perguntou já com medo da resposta.

Ive sorriu e respondeu:

– Um telefonema.

– O que você quer dizer com isso?

– Exatamente o que ela quis dizer, moleque – disse Prozy. – Um telefonema, com a diferença que é para o Inferno e o atendimento deles é péssimo.

A garota fez uma careta e ergueu os ombros. Andrew sabia que a essa altura não deveria se surpreender com nada, mas telefonar para o Inferno era uma coisa nova. Minha irmã é a única pessoa que sabe onde está o último nome, disse ela, e minha mãe me mataria se eu descesse até lá, e estamos falando da pessoa que faz isso melhor do que ninguém... por isso o telefonema. Ive falou tudo isso como se estivesse explicando a razão de preferir água gaseificada ao invés de refrigerante. Olhou para Prozy em busca de alguma resposta e recebeu apenas a versão cunicular de dar de ombros. A filha da morte abriu um armário e tirou uma caixa de papelão, colocando sobre a mesa de centro. Dentro dela havia um velho aparelho de telefone que parecia ter escapado diretamente de 1990 e um calhamaço: Lista Telefônica dos Mundos Espirituais – 365ª Edição. Era uma coisa enorme e empoeirada que fazia com que se lembrasse da antiga casa de sua avó.

– Onde você conseguiu isso? – perguntou.

– Eu uso para conversar com mamãe quando sinto saudades. Não é um telefone comum, ele consegue filtrar o ruído branco espiritual e alcança sinal em setenta e oito universos.

– E eu achava que o meu telefone tinha boa recepção – respondeu Andrew, ajudando a conectar todos os cabos.

Tudo aquilo não levou mais do que cinco minutos e logo em seguida todos se sentaram ao redor da mesinha trocando olhares ansiosos. Prozy expressou pela centésima vez sua desaprovação e tinha certeza de que Rayla havia grampeado todas as linhas. Ive respondeu que era um risco necessário e tirou o telefone do gancho.

– Vou deixar no viva-voz para que escutem.

Andrew assentiu com a cabeça e deixou que a garota procurasse o número na lista. Foi até a cozinha e pegou um copo de água. Estavam perto do último nome, pensou, e agora não sabia o que poderia solicitar. O desejo que o carregara havia deixado de existir: Briony não lhe interessava mais, sabia disso, Ive era a pessoa com a qual se conectara. Era isso que o motivava agora, fazer com que ela conseguisse se tornar humana para que permanecessem juntos. Poderia até mesmo dar o outro nome para Astrophel, mas não faria isso – não depois de ter levado uma facada. Deixou o copo vazio sobre a mesa e voltou para a sala, onde Ive digitava uma longa série de números. Sentou-se ao lado dela e ouviu a chamada sendo completada.

– Acho que teclei corretamente – disse ela.

O telefone chamava: uma, duas, três vezes. Imaginou se tudo aquilo não passava de perda de tempo, mas na décima chamada uma voz entediada e fanhosa respondeu:

– Portaria do Inferno. Agripina Minor, péssima tarde.

Ive pigarreou e respondeu:

– Humn... Meu nome é Ive, bem, Princesa do Fim Inevitável, você deve ter ouvido falar.

Eu gostaria de conversar com Kivian, ela está no Nono Círculo.

– Qual é o assunto, por favor?

– Pessoal, ou seja, não é da sua conta. Faça imediatamente ou vou prestar queixa contra o seu atendimento. Não acho que Hades gostaria de ouvir que a sobrinha dele foi maltratada.

Silêncio. Todas as não palavras do mundo e muitas outras contidas ali. A voz, quando surgiu novamente, foi em síncope e raiva contida:

– Estarei transferindo sua chamada para o ramal correto, aguarde um instante.

Andrew e Ive se entreolharam. As palavras de Agripina Minor foram substituídas por uma valsa irritante. Interessante notar que até mesmo no além o atendimento era terrível. Olhou para a garota a tempo de vê-la franzir o cenho e suspirar pesadamente.

– O que foi?

Ive se aproximou um pouco mais e disse:

– Já faz muito tempo que não converso com minha irmã. E se alguma coisa der errado... – deixou o resto suspenso.

– O Inferno é pior do que você imagina, moleque – disse Prozy. – Eu já vi pessoas enlouquecerem nas primeiras horas. Eles passam documentários sobre isso no mundo espiritual. Você não acreditaria no que fazem com Hitler, um cacto e dois potes de maionese.

– Prefiro não imaginar – respondeu Andrew e virando-se para Ive, acrescentou – Não se preocupe, vai dar tudo certo. Eu estou com você.

– A mesma coisa que estar sozinha – murmurou Prozy.

Houve um clique e a valsa deixou de ser tocada. Alguém estava do outro lado, sabiam disso por causa da respiração entrecortada que inundava a sala. As palavras que saíram do aparelho eram mal articuladas e cheias de pausas:

– Quem é? Você, Rayla, irmãzinha? Eu imaginei que fosse sentir minha falta. É, eu tava certa, você tá roída por dentro... Igual a um queijo, né?

Andrew segurou a mão de sua namorada com força. Faria tudo o que estivesse em seu alcance para acalmá-la. Ive era uma das únicas pessoas a quem enxergava como mais do que sombras projetadas numa parede. A garota respirou e respondeu:

– Sou eu, Ive.

– Irmãzinha? Que surpresa! Você vai me tirar daqui não é?

– Lamento, não posso fazer isso – um ganido escapou do outro lado da ligação. Ive continuou: – Eu preciso da sua ajuda. Estou procurando o terceiro nome.

Kivian gargalhou tão alto que Andrew e Prozy cobriram as orelhas.

– Mamãe tem outra traidora nas mãos. Rayla deve estar muito contente, afinal, ela se tornará filha única como sonhou e eu ganho companhia.

– Irmã, preciso saber onde está o terceiro nome. Eu sei que você conseguiu localizá-lo.

– NÃO! – gritou Kivian. –É errado que você consiga realizar o seu desejo enquanto eu permaneço aqui pela eternidade.

– Usaremos o segundo desejo para tirar você daí.

As palavras escaparam da boca de Andrew antes que tivesse tempo de pensar corretamente. Mas, afinal, era a única solução que conseguia encontrar no meio de tudo. Não tinha nenhum plano para o seu desejo e se isso permitisse que Ive continuasse ao seu lado, que assim fosse. Voltou sua atenção ao telefone que havia se tornado mudo após sua interferência. Ive olhava daquilo para ele sem saber como agir e Prozy sacudia a cabeça negativamente como se ele houvesse acabado de fazer um acordo com o diabo em pessoa. Quando a irmã mais velha voltou a falar sua voz era mansa e baixa.

– Agora eu entendo... você está realmente seguindo os meus passos. É fácil se apaixonar por eles. Tão frágeis e vulneráveis. Vamos fazer o seguinte. Eu dou o terceiro nome para vocês e ganho minha liberdade.

Andrew olhou para a garota e assentiu com a cabeça.

– Isso mesmo. Quando conseguirmos reunir os três nomes eu me tornarei humana e você estará livre.

Kivian permaneceu quieta, Andrew tinha a impressão de que ela saboreava aquele momento, sua tão aguardada oportunidade de fuga. Não confiava nela e tinha consciência de que talvez fosse um erro deixá-la sair. Um pequeno palpite no canto da mente.

– Tudo bem, temos um acordo – disse ela finalmente. – O terceiro nome está com um escritor num clube no sul de Dresbel. Ele se reúne todas as sextas-feiras à meia-noite com alguns camaradas, é a sua melhor chance.

– Certo – murmurou Ive.

O trio ouviu as instruções que Kivian distribuía. Andrew pensava em tudo o que poderia acontecer. Os cenários possíveis se desenrolavam a sua frente como mil novelos de lã. Ponderou sobre a forma como a vida se complicava a cada minuto. Seu único alívio era a certeza de que em nenhum futuro contemplado mentalmente a libertação de Kivian estava incluída. Segurou na mão de Ive e continuou a escutar.