A Morte é Legal
Capítulo CINQUENTA E DOIS
Ela estava nadando em creme dental quando o big bang aconteceu no
quintal.
Havia combinado de se encontrar com Jonas na pista de skate para que pudessem discutir alguns detalhes sobre uma nova música. Ia murmurando alguma coisa de J Cole – que tanto ela quanto o amigo consideravam o nome mais quente do hip hop nos últimos anos, superando Rick Ross ou Drake. Ficou imaginando se algum dia chegaria a esse nível, em que seu flow fosse único e as pessoas o sentissem em qualquer lugar do mundo. O mundo do rap estava cheio de artistas realmente bons que nunca conseguiram chegar ao circuito mainstream – como ela poderia escapar disso? Em Dresbel mesmo havia pessoas assim, com flow e delivery acima da média. Afastou esses pensamentos e continuou a caminhar, fechou o casaco, tentando criar suas rimas.
O dia estava nublado e todos os pés pareciam ter escolhido ficar dentro de casa. Amber gostava daquela breve calmaria e dos poucos carros que iam pelas ruas, não havia muito com o que se incomodar ou buzinas irritantes. Tomou a primeira esquina e chegou até a pista em menos de cinco minutos. Não havia barulho de rodas ou música e o lugar estaria completamente abandonado não fosse por uma figura sentada num canto. A garota sentiu a raiva ferver seu sangue. Lil Darryl-D estava pichando palavrões numa das paredes.
– Ei, babaca, o que você pensa que está fazendo? – gritou Amber.
O garoto se virou e a encarou em silêncio. Ao contrario de qualquer expectativa que a garota pudesse der sobre o próximo minuto, Lil Darryl voltou a dar as costas e foi caminhando em direção à saída. Não houve nenhum xingamento ou gesto obsceno, apenas ombros caídos e a lata de tinta jogada no chão. Entretanto, Amber não aceitaria isso como resposta depois de vê-lo sujar a pista daquela forma. Correu até o garoto e o puxou pela jaqueta, atirando-o no chão com violência.
– Saia da minha frente antes que engasgue com a próxima frase – disse Lil Darryl se levantando.
– Você não tem nada na cabeça – respondeu ela. – Você acha mesmo que pode ir embora depois de fazer isso?
– O que você vai fazer? Chamar sua mamãe rica para te ajudar?
– A minha mãe está morta, a não ser que eu tenha algum poder vodu, não dá pra contar com essa ajuda.
Isso pareceu pegar Lil Darryl de surpresa, pois ele simplesmente continuou a encará-la, boca meio aberta – a possível resposta atrás dos dentes. Amber se preparou para o ataque que não veio. O garoto coçou a nuca e quando voltou a falar sua voz havia perdido a rispidez.
– Foi mal ter dito isso da sua mãe. Eu nunca conheci minha mãe, ela usava drogas e abandonou a família um dia. Pelo menos eu não sou um daqueles bebês do crack.
Amber sentiu sua raiva por ele sumir como ar escapando de um balão. Lamento pela sua mãe, foi a única coisa que conseguiu dizer. Darryl forçou um sorriso e balançou a cabeça dizendo:
– Isso é história antiga, eu nem ligo. Nem sei por que eu falei, deve ser porque hoje o dia tá uma porcaria, saca? Meu irmão, o HOL-K, foi preso hoje, acho que vou ter que arrumar um emprego agora.
Amber ficou imaginando como teria sido a vida dele até então, sem uma mãe e com um irmão que precisava vender drogas para sustentar todo mundo. Ela sabia que nunca seria capaz de compreender a vida de Lil Darryl e das pessoas parecidas com ele. Não quando seu pai conseguia lhe dar todo o conforto necessário e sua única preocupação era estudar para as provas de matemática. Nem todos tiveram as vantagens que ela tivera, seu pai costumava falar isso. Talvez por isso, o garoto depositasse tanta coisa no rap, porque era a única coisa que tinha realmente, sua única chance de ir para frente. Era como Eminem perguntava em Lose Yourself. Alguém com apenas uma oportunidade de alcançar tudo deixaria isso escapar ou agarraria a oportunidade?
– Sinto muito pelo seu irmão, cara.
– De boa.
Ela não conseguia deixar de se surpreender com a reação dele diante de tudo aquilo. Era óbvio que estava irritado e triste – caso contrário, não teria ido até ali para pichar obscenidades. Ao mesmo tempo, parecia resignado, como se o destino já estivesse selado e tentar fugir não fosse uma opção. Seus pensamentos foram se desenrolando. Ficaria ele em casa rabiscando versos como ela? Suas músicas falariam sobre algo particular ou não? Quantos amigos ou familiares já teria perdido para as ruas? Isso fazia com que pensasse no mundo do rap como um todo. Quase todos os seus artistas favoritos já haviam tido algum problema com a lei. Tupac e The Notorious B.I.G já haviam sido presos – e foram assassinados. A lista se ramificava por outras direções. Em 1999, Jay-Z foi acusado de esfaquear uma pessoa. Proof matou e foi morto numa briga de bar. 50 Cent alvejado por nove tiros e o NWA foi advertido pelo FBI por causa do disco Straight Outta Compton. Não sabia como pensar sobre isso corretamente.
– Ah, Maurice me mostrou a demo que vocês fizeram, seu amigo deixou uma cópia com ele – disse Darryl. – Ficou bem legal, o seu flow é bom.
– Eu sei que é.
Os dois riram e o garoto começou a andar para fora da pista. Ele ia com os passos arrastados e os braços frouxos, nesse momento, ele parou e sem olhar para trás, disse:
– A gente ainda tem que terminar aquele lance no duelo.
– Eu vou chutar sua bunda, não se preocupe.
Lil Darryl-D continuou a andar. Amber permaneceu ali mesmo depois que o garoto virou a esquina e desapareceu. Ambos viviam atrás das linhas inimigas de formas diferentes. Era o que Nas chamava na música Got Urself A Gun de “soldados da mesma luta”. Sorriu do pensamento e foi sentar-se no banco para esperar que Jonas chegasse. Foi somente alguns minutos depois que se lembrou de que deveria ter feito Darryl limpar a parede antes de ter ido embora.