A Morte é Legal
Capítulo CINQUENTA E SEIS
Pai, a mulher louca tem um gato chato e um cachorro fedido, eu os
odeio.
Rayla e Shaitiri foram as primeiras. A Torre de Dresbel estava iluminada e vazia naquela noite. Caso subisse até o topo dela poderia enxergar toda a cidade, mas como não se interessava por turismo, permaneceu ali embaixo, onde a grama estava amassada e suja, com pontas de cigarros e latas de refrigerante espalhadas – algumas pessoas consideravam o local agradável para piqueniques e namoros. Pensou em seu plano outra vez, tudo deveria ser feito com perfeição, caso contrário, as coisas desmoronariam e o centro não conseguiria sustentar
[1].
Olhou para a raposa-do-pensamento que caminhava de um lado para o outro. Sabia que Shaitiri estava tão ansiosa quanto ela para que tudo acabasse e pudessem voltar para suas vidas normais, mas isso não seria possível até que resolvesse as coisas com sua irmã. Caminhou até sua parceira e afagou os pelos de seu dorso.
As memórias de infância foram surgindo aos poucos: lembrou-se do dia em que Gengis Khan chegou ao mundo espiritual. Ela e Kivian estavam curiosas para vê-lo pela primeira vez, contudo, eram obrigadas a ficar cuidando de Ive, a menor do trio – e o maior incômodo. O imperador mongol chegaria por um dos portões da Cidade Vermelha e seria encaminhado ao antigo centro de treinamento da D.I.E, onde ministraria uma palestra sobre táticas de guerra. Rayla teve a ideia de deixar Ive com alguns brinquedos e dar uma espiada na agitação que estava acontecendo. Ela e Kivian correram o mais rápido que podiam pelas ruas da cidade. Grande parte dos funcionários olhava pelas janelas das centenas de prédios administrativos. Todos estavam curiosos com a presença do humano que conseguira conquistar tanto poder.
Naquele tempo, tanto a Base de Operações quanto o Centro de Treinamento da D.I.E ficavam no mesmo lugar – antes que um marechal desmembrasse as duas coisas – e não havia muito problema para se chegar até lá. Levariam apenas alguns minutos e estariam em casa bem antes que alguém voltasse. O que não saiu exatamente como o esperado. Já estavam quase na entrada quando avistaram a mãe esperando por elas alguns passos adiantes. Ela havia voltado para buscar uma pasta que havia esquecido e encontrou a filha mais nova sozinha – e Ive não havia tido nenhuma dificuldade em delatar tudo o que as irmãs haviam feito a ela, com um pouco de expansão da verdade incluída. Os humanos temiam a morte sem conhecê-la, Rayla e Kivian temiam bem mais por serem filhas dela.
O rosnado de Shaitiri a tirou de dentro dos devaneios, as graças da infância seriam trancadas agora. Precisava focar sua atenção. Olhou para o relógio e confirmou o horário de encontro, tudo corria dentro do planejado.
– Estão chegando – disse Shaitiri.
– Todos os três?
– Sim.
– Ótimo.
Houve um risco verde no céu, seguido por outro e outro. Rayla aproximou-se um pouco mais da torre e acompanhou a trajetória das luzes em descida veloz. Vinham cada vez mais rápidas e em menos de um minuto chocaram-se contra o chão, fazendo com que o solo tremesse e uma nuvem de poeira se formou. Esperou até que a confusão se assentasse para distinguir as três formas paradas a alguns passos de distância em seus uniformes da D.I.E. Dois jovens e uma garota a olhavam com um sorriso. Todos os três eram seus amigos desde os tempos na academia: estava Larrabeiti, o mais forte do grupo, Faaih, a garota tatuada e de cabelos curtos que parecia ser incapaz de sorrir, por fim, havia Ekopo, o franzino de olhos assustados.
– Bem vindos ao mundo humano, meus amigos – disse Rayla apertando a mão de cada um. – Como estão as coisas no mundo espiritual?
– O mesmo de sempre – falou Ekopo. – O sindicato dos ceifadores pretende entrar em greve, querem um aumento.
– Quem não quer? – respondeu Larrabeite com sua voz de trovão. – E sua mãe decidiu modernizar o lado de lá e abandonar as máquinas de cartões perfurados. Parece que um desses gênios da tecnologia humana chegou e a convenceu.
Rayla sorriu e sentou-se no chão, o grupo de amigos fez a mesma coisa. Shaitiri ficou ao lado de sua dona e não disse coisa alguma. Era bom estar com pessoas que não a odiavam por estar fazendo o seu serviço.
Faaih fez um movimento de cabeça e perguntou:
– Hora de acabar com a festa. A gente não veio até aqui para colocar a fofoca em dia, certo, capitã?
– É por isso que eu nunca vou namorar você, Faaih – respondeu Larrabeite.
A mulher murmurou alguns palavrões que fizeram com que os presentes se entreolhassem. Rayla sorriu e fez um sinal para que prestassem atenção no que ela tinha a dizer. A primeiro-tenente tinha razão. Todos os minutos eram importantes e não havia espaço para brincadeiras. Esperou até que os ânimos se acalmassem e começou a falar:
– Faaih está certa. Eu os convoquei porque uma situação delicada está na balança. Todos conhecem Ive, minha irmã mais nova. Ela está envolvida na busca pelos nomes do gato. Os universos estariam em risco se ela tiver sucesso. Ive é a próxima Morte e não pode fugir disso. Precisamos neutralizá-la e extraí-la.
– Mas isso não é tudo, é? – indagou Ekopo.
– Não. Astrophel, o feiticeiro, também estará presente e ele é perigoso. Também existe a possibilidade de que o próprio gato não goste da ideia de alguém atrapalhando sua diversão. Minha irmã já encontrou um garoto humano que preenche os requisitos. Precisamos fazer o possível para que ele não se machuque, mas, tenham em mente que extrair Ive é nossa prioridade.
Todos ficaram calados, ainda tinham na memória os eventos do banimento de Kivian. Aquilo havia sido um dos capítulos mais dolorosos na história do mundo espiritual, talvez não estivessem esperando que voltasse a acontecer tão cedo. Era isso que acontecia em todas as histórias, pensou Rayla, elas se repetiam indefinidamente? Não, ela não permitiria isso. Pela segunda vez em toda a sua existência, não sentia orgulho de ser parte da D.I.E. Gostaria que outra pessoa estivesse responsável por toda essa bagunça e pelas coisas que viriam depois que o trabalho de campo estivesse concluído: os relatórios infinitos, as audiências, depoimentos e interrogatórios por parte de seus superiores. A burocracia era mil vezes pior que estar em ação e tinha consciência de que seria julgada publicamente mais uma vez.
Olhou para cada um dos oficiais que estavam ali. Todos assentiam com a cabeça ao que ela dissera. Tudo estava pronto para que a missão acontecesse da forma mais rápida e cirúrgica possível. Shaitiri deitou a cabeça sobre seu colo.
– Estamos dentro, Ray – disse Larrabeite. – Vamos arroxear traseiros, como fizemos com aquele poltergeist canadense.
– É isso aí – responderam Ekopo e Faaih ao mesmo tempo.
Rayla não respondeu de imediato, apenas olhou para o céu e reconheceu aquele como o último momento de paz antes do dilúvio. Respirou fundo e estalou os dedos. Todos os olhos estavam fixados nela. Começou a explicar o plano e o que cada um deles faria quando chegasse a hora certa.
Shaitiri uivou como se soubesse o futuro.
[1]A mente de Rayla faz uma referencia ao verso: “Things fall apart; the centre cannot hold” de William Butler Yeats no poema “The Second Coming”.