A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 73 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo SESSENTA E SETE

Eu vou fingir que você não existe, na esperança de que se torne

verdade.

 

Andrew sentia-se perdido e desorientado com todas as coisas que Astrophel dissera. Não queria acreditar em nada do que ouvira, mas sabia que era a verdade: Ive o havia usado desde o início. Deixou que seus olhos fossem de Amber, abraçada em sua cintura, passando por Rayla que apontava uma arma para o feiticeiro caído, e o gato negro que entrou calmamente. Era difícil de acreditar que uma criatura tão pequena pudesse ser tão poderosa. Todos os presentes o observavam com atenção, exceto Ive, que olhava para o garoto, ainda tentando expressar sua inocência.

Andrew ignorou e focou sua atenção na criatura, que saltou sobre uma cadeira e após um miado baixo, começou a transformar-se em outra coisa. Pernas esticaram aqui, pelos ali e seu tamanho dobrava e triplicava. Levou algum tempo para que o garoto reconhecesse a forma humana assumida pelo gato, mas em alguns segundos a lembrança atingiu-lhe em cheio: lá estava o homem que tocava o violão azul em frente à sorveteria de Tord.

– Boa noite, meus caros participantes – disse o gato-homem. – É uma verdadeira felicidade conversar com todos, sério, isso é muito bacana. Acompanhei tudo o que fizeram até aqui. A última vez em que me emocionei tanto com algo foi durante a Guerra de Tróia.

Andrew viu a irmã de Ive perguntar:

– Tudo isso é apenas diversão para você? As pessoas que morreram e a interferência no mundo humano, desrespeitando toda e qualquer regra existente?

O homem balançou a cabeça afirmativa e abriu um sorriso.

– Claro que sim! Eu sou a criatura mais poderosa em noventa e sete universos, isso é o bastante para entediar qualquer um. Eu não obriguei ninguém a sair por aí procurando pelos meus nomes, aliás, meus nomes falsos.

Andrew olhou para o gato e sentiu toda a raiva acumulada subir. Tantas pessoas feridas naquela história para que ele se divertisse. Lembrou-se de seus amigos no mundo das fadas: Horatio, Nina, Mary, Mirtza Sosostriz e, principalmente, Yorick. Pensou no livreiro do Mercado Central, Astrophel, Stella e até mesmo em Ive, que se enganara ao acreditar em tudo. Fez um esforço para soltar-se da irmã e se aproximou do gato que lhe encarava.

– O que você quer, Andy, meu garoto?

– Eu não posso acreditar que foi tudo em vão. Você se aproveitou dos nossos sonhos com um propósito egoísta. Isso não te faz a criatura mais poderosa, apenas a mais patética.

Sem esperar por uma resposta, virou as costas e começou a se afastar. Segurou na mão de Amber e empurrou uma cadeira que lhe atrapalhava o caminho. Pensou ter visto aprovação no rosto de Rayla e de um dos soldados da D.I.E – o maior deles. Sabia que poderia ser fulminado antes de atravessar a porta, mas isso não importava. Não queria saber de nada e não tinha medo. Queria que o mundo sobrenatural explodisse em mil pedaços e que seus habitantes sumissem. Tentou não pensar na garota que lhe mostrara o admirável mundo novo que agora desmoronava ao seu redor.

– Andrew, precisamos conversar – falou Ive. – No início era por interesse, mas as coisas mudaram no meio do caminho. Eu realmente gosto de você.

O garoto ignorou e continuou a caminhar, não precisava daquilo. Talvez no fim das contas o seu destino fosse permanecer sozinho. Todas as garotas iriam machucá-lo, filhas da Morte ou não.

– Eu acho que temos um vencedor! – disse o gato finalmente.

Andrew parou onde estava e olhou para o dono da voz. Aquilo havia de ser mais um truque dele, afinal, gatos são assim: dissimulados, mentirosos e cruéis. Queria sair correndo dali, mas o outro veio em sua direção com os braços estendidos e lhe abraçou, dizendo:

– Andy, você merece isso. Nomes são poder, eu nunca deixaria que os meus caíssem em mãos erradas, existem bichos piores do que você imagina por aí e fariam um belo estrago na realidade com os meus nomes. Mas... O que realmente importa pra mim, cara, é a cabeça. Eu acompanhei cada um durante os últimos meses e de boa, você é o meu garoto. Quer que eu traga sua mãe de volta, todo o dinheiro do mundo ou uma namorada? Dois pedidos.

A torrente de palavras pegou o jovem desprevenido. Seria possível que o gato estivesse realmente lhe entregando os desejos numa bandeja? O homem balançou a cabeça lhe incentivando a dizer qualquer coisa. Ficou tentando a perguntar por que ele? Astrophel teria um objetivo mais nobre, assim como Ive ou qualquer um dos presentes. Talvez, até mesmo Rayla tivesse uma maior utilidade para eles. Amber apertou sua mão, o mesmo gesto de apoio que fazia quando brigava com seu pai.

– Mas Astrophel disse que era necessário sacrificar alguém para que você atendesse aos pedidos.

– As pessoas inventam muitas histórias, eu gosto de comer peixe, não gente. Experimentei uma vez e não foi bom, gosto forte. É preciso sacrificar alguma coisa na busca para que eu atenda desejos, não uma pessoa. Todos aqui fizeram isso de uma forma ou de outra, você sabe quais caminhos o trouxeram até aqui, menino Andrew.

Pensou em sua mãe, poderia tê-la de volta. Sua família voltaria a ser completa e poderia até mesmo ser um adolescente comum. Poderia apagar o passado e deixar de ser o garoto fraco e emotivo que se esgueirava pelos cantos. Seu pai não precisaria sentir vergonha de um filho que se interessava apenas por livros e música triste, assim como todas as brigas poderiam ter um fim. E mais do que tudo, poderia deixar Ive e o buraco que tinha no peito, para trás. Olhou para ela. Sentiu raiva e vontade de abraçá-la ao mesmo tempo. Pensou em todos os pedidos que poderia fazer, contudo, lhe soavam feios e obscenos – exceto um: deveria fazer a coisa certa e ela não iria lhe trazer nenhum benefício.

– Eu já sei o que eu quero – disse. – Existe um garoto no mundo das fadas, o nome dele é Yorick Cabeça-de-Chiclete-Doido, eu quero que ele seja livre e esqueça de tudo o que aconteceu na cidade dos adultos.

O gato meneou a cabeça e respondeu:

– Já está feito. Próximo pedido.

– Eu quero que você ressuscite Mirtza Sosostriz, a bruxa da cidade de Hoon, as crianças precisam dela e por nossa culpa, ela não está lá.

– Já está feito, cara. Você deve estar imaginando por que eu te dei os desejos. A verdade é: se o meu amigo Astro tivesse ganhado, um demônio escaparia do Inferno e acabaria com a Terra. Eu gosto muito de blues para permitir que isso aconteça. Se a linda do cabelo verde se tornasse humana, não haveria uma nova Morte quando a mãe dela se aposentasse, e irmão... a velha realmente precisa de umas férias. – O gato virou-se para os outros e continuou – Eu agradeço pela diversão, mas, tenho que ir. Combinei de tocar no aniversário de um amigo.

Sem mais nada a dizer o homem voltou a sua forma de gato e foi embora como se nada houvesse acontecido. Andrew ficou sem acreditar que todas as coisas se resolveriam dessa forma. Sentiu alívio por aquela história ter chegado ao fim.

– Vamos para casa – pediu Amber.

Andrew assentiu com a cabeça e já estava saindo quando Ive entrou na sua frente:

– Não vou deixar que você vá enquanto não conversarmos.

Sorriu. Não conseguia pensar em nenhuma outra atitude. Permitiu que seu olhar e o da garota se cruzassem e as palavras que saíram de sua boca não foram medidas.

– Não temos o que conversar, Ive Princesa do Fim Inevitável. Eu confiei em você e sua única intenção durante todo o tempo era me usar. Acho que nunca precisou dos nomes para ser humana. Já tem o dom de enganar e trair quem se importa com você. Nota dez em humanidade, Ive. Não me procure mais.

A garota não conseguiu dizer mais nada, apenas se limitou a deixar que dois filetes de lágrimas escorregassem pelos olhos e abriu caminho para que passasse. Abraçou sua irmã e saiu porta afora, evitou olhar para trás. Não desejava que a garota soubesse que estava sofrendo, ela não teria esse privilégio. De agora em diante deveriam se tornar dois polos de um mundo, frios e distantes. Ela nunca saberia que em sua raiva profunda e emaranhada na fossa, ele a amava. Não ficaria sabendo da mudança do mar, do sangue nos trilhos e dos tigres de papel.