A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 31 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo VINTE E SEIS

Eu cuidarei do seu coração como faço com minhas unhas: usando

acetona e alicates.

 

O som dos carros estava longe e aquela noite caia sobre a praça como lençol numa cama. As pessoas que passavam por ali pareciam simplesmente ignorar a jovem ruiva e a raposa albina de cinco caudas ao seu lado. Passavam, desviavam e davam espaço, mas nunca a viam. Era um dos pequenos detalhes que permitiam a Rayla fazer seu trabalho sem maiores incômodos.

Ela caminhava lentamente, como se não quisesse dar um passo além do necessário, observando a grama e as árvores, os bancos e ruas. Ive esteve aqui, disse ela numa voz calma, ainda consigo sentir traços da presença dela. A raposa sentou-se sobre as patas traseiras e ergueu o focinho, após um momento de farejar, respondeu: o cheiro dela ainda está presente, mas alguma coisa está bloqueando o meu sentido. Rayla sorriu, era de se esperar que Ive não deixasse nenhuma imagem mental para que a raposa-do-pensamento lesse. Teria que trabalhar da forma antiga e descobrir o que havia acontecido. Bem, ossos do ofício. Olhou para o chão e seus olhos caçaram pistas: pegadas, fios e resíduos espirituais. Sabia que a irmã deixara alguma coisa para trás, afinal, não era uma criminosa. Alguma coisa estava ali, bastava encontrar.

Afastou uma lata de refrigerante com o pé e se aproximou de uma árvore. Colocou a mão sobre o tronco. Nenhuma distorção espiritual, mas sabia que estava perto de algo, sua intuição gritava isso. Parte de si esperava que Ive fosse inocente, apesar de pouco provável.Não gostaria de punir outra irmã. Havia muita burocracia envolvida nos processos de extradição familiar para o Inferno. Formulários para preencher e julgamentos intermináveis, seria um prazer evitar todo esse transtorno.

Rayla caminhou ao redor da árvore. Alguém esteve com ela, pensou, um par de pegadas a mais, parece ser o formato de um homem, um e oitenta de altura. Continuava a procurar alguma coisa em terra quando algo chamou sua atenção no ar.

– Você está sentindo isso? – perguntou. – Alguma coisa está vibrando mais forte do que o normal aqui.

A raposa assentiu. Rayla ergueu a mão e um pássaro voou para ela como se estivesse sendo puxado por uma corda invisível. Seus dedos se fecharam como garras ao redor da pequena ave. Sentia os fiapos de magia que Ive usara para trazer aquele animal de volta à vida. Um crime grave por si só, pensou, o suficiente para abrir um inquérito espiritual.

– O que você pretende fazer com esse detalhe? – perguntou a raposa. – Não há provas que conectem Ive a esse incidente. Existem milhões de fadas, espíritos e demônios espalhados pelo mundo humano.

Rayla sorriu com o canto dos lábios e respondeu:

– Eu ainda não tenho todas as evidências, Shaitiri, contudo, algo me diz que elas surgirão em breve.

A capitã da D.I.E sentiu um cansaço repentino abater-se sobre ela. Sabia como as coisas aconteceriam dali em diante e como investigações seriam extenuantes. Faria o seu melhor para manter a ordem e no fim, teria somente a alcunha que as pessoas sussurravam pelas suas costas, Rayla Mão-de-Ferro. Bem, não se importava com isso. O importante era terminar aquele trabalho e seguir para o próximo tão rápido quanto pudesse.

– Devemos prosseguir – disse a raposa.

Rayla circulou a árvore em busca de mais pistas e Shaitiri a acompanhou. Seus olhos iam das pegadas para o pássaro em sua mão, sabia que tudo o que precisava estava ali, bastava ligar os pontos como fizera no caso do assassino em série no Nepal. Sabia o que trouxera sua irmã até Dresbel, isso era óbvio desde o início, mas era preciso remontar o que acontecera ali e pensar como ela. Ive não sabia encobrir seus rastros. Fechou os olhos por um momento e deixou que diversas teorias cruzassem seu cérebro, formando pedaço por pedaço a explicação que lhe parecia mais plausível. As palavras jorraram de sua boca com entusiasmo à medida que explicava:

– Ive está procurando os nomes do gato. Ela deu o primeiro passo e escolheu um humano que se encaixasse, revelou sua identidade e ofereceu alguma coisa. O humano não acreditou nela, então, ela foi obrigada a fazer algo que não deixasse dúvidas.

– Por isso o pássaro ressuscitado. — disse Shaitiri.

– Exato.

– Humn... Isso é uma possibilidade. Qual será o próximo passo?

–Ela precisa começar de algum ponto. No lugar dela, eu procuraria alguém com experiência nisso, alguém que já encontrou os nomes.

– Mirtza Sosostriz.

– Exato. Acho que é hora de fazermos uma visita. Contudo, preciso consertar uma coisa antes.

Rayla pressionou a mão em que o pássaro estava preso, uma criaturinha leve, quente e macia, podia sentir um minúsculo coração batendo. Os dedos da garota se fecharam como um compressor, esmagando lentamente o corpo do pássaro que a bicava na tentativa inútil de se libertar. O esforço não durou muito tempo. Em menos de meio minuto, a ave estava morta pela segunda vez.

– Shaitiri, alimente-se – disse a capitã.

A raposa não hesitou em obedecer sua dona. Ficaram ali durante mais um tempo, a observar o mundo humano e conversando sobre o próximo evento. Rayla sabia que o fim daquela história não seria agradável. Esperava conseguir salvar o humano antes que fosse tarde demais.

Chuva.