A Morte é Legal
Capítulo CINCO
A nossa revolução não será televisionada, mas fará até os ossos de
Tutankamon dançarem.
Delivery: Essa é a palavra chave que uma pessoa deve ter em mente quando pensa em rap: ritmo e poesia, porque é disso que consiste o gênero. O delivery é a forma de imposição de um MC – mestre de cerimônias; é o timbre, o volume e a entonação, aquilo que se coloca sobre as quatro batidas. É isso que separa os aspirantes daqueles que realmente estão prontos para o jogo. Logo, não era de surpreender que Amber Webley se irritasse profundamente quando Jonas a interrompeu pela quarta vez, não está bom, Amby, disse ele, você não pode metralhar a música dessa forma, está adiante da batida. A garota o fuzilou com uma carranca que faria um rinoceronte louco voltar a pastar.
– Eu estou fazendo o que posso aqui. – respondeu Amber. – Sério, a minha rima estava
perfeita! Eu consigo mandar um flow [1] tão rápido que daria mil voltas ao seu redor antes que você pensasse em piscar.
– As suas rimas são ótimas. De boa, você atira palavras como ninguém, é legal e tudo mais, mas nem sempre dá certo. Você está lutando karatê quando a batida está pedindo por xadrez.
Estavam no pequeno estúdio caseiro que ficava no porão da casa do garoto. Jonas Hurston tinha cabelos curtos e negros e pele cor de chocolate. Estava sentado de forma relaxada em frente a um velho sintetizador e, como que alheio ao olhar de censura dela, sorria e tamborilava os dedos na perna. Amber sabia que a música sempre fora tradição em sua família. O avô tocara piano com Miles Davis numa apresentação em 1962, o pai era um habilidoso saxofonista numa banda de jazz enquanto a mãe, professora de História da Arte numa universidade, integrava o coral da igreja dominical. Não foi muita surpresa quando Jonas se interessou por música, e em especial pelo hip-hop.
Amber tirou colocou o microfone no pedestal e se jogou sobre as almofadas espalhadas pelo carpete. O lugar estava abarrotado de fios, instrumentos musicais e caixas de som. O pai de Jonas havia recoberto as paredes com materiais isolantes, portanto, estavam livres para fazer todo o barulho necessário. Olhou para o garoto que havia acabado de se levantar para conferir no computador o resultado da última tentativa.
– Se eu tiver que repetir isso mais uma vez, eu juro que vou vomitar. Estou cansada e a melhor coisa que vou conseguir fazer vai ser desmaiar.
– Ei, eu produzo batidas pelas quais Marley Marl e Kayne West salivariam, o mínimo que você tem a fazer é jogar algo espetacular pra combinar com elas.
– Você é muito convencido – respondeu a garota atirando uma das almofadas sobre ele.
Jonas riu e não respondeu, deixou que a música começasse a tocar. A garota era obrigada a admitir que ele tinha um dom forte para produzir barulhos criativos e cheios de força. Fechou os olhos e ouviu a linha do sintetizador se misturar com as notas do piano sob as pancadas eletrônicas. Amber sentia as progressões da música e o crescendo ganhando mais espaço. Este era o momento em que sua voz vinha cheia de potência e velocidade; respiração perfeita. Do que ele está reclamando? , pensou.
Ouviram até o fim. Amber deixou explícito em sua cara que não encontrava nenhum defeito. Estava irritada porque aquela era a quinta tentativa e ela já havia tentado de todas as formas mudar o seu delivery, mas sem resultado. Jonas colocou algo para tocar e ela não levou nem um segundo para reconhecer a voz de Tupac Shakur, o ídolo de ambos.
– Eu não sei o que você não gostou, está tudo legal.
– É, eu sei. Está muito bom na verdade mas dá para fazer melhor. Amby, você precisa enxergar de verdade a música, conversar com ela. Ela está pedindo para relaxar, você canta como se estivesse pronta para morrer e não é o que precisamos. As batidas estão pedindo boas vibrações.
– Qual é o próximo passo, hip hop de bom coração? Você acha que usarão isso em palestras motivacionais? Caso você não tenha entendido, esse estilo de música que a gente faz tem muito a ver com rimar força e violência.
Jonas riu e respondeu que talvez ela estivesse certa, mas Amber sabia que ele dizia isso somente para encerrar a discussão. Cabeça dura, pensou ela, simplesmente não entende. Ele pegou um caderno que estava sobre a mesa de som e disse:
– Temos que nos dedicar bastante porque estou com um plano, coisa grande. Vamos gravar uma fita demo e fazê-la viajar até a Califórnia... até as mãos do Dr. Dre.
Amber demorou um tempo para saber se o amigo estava fazendo uma piada mas percebeu que não era o caso: Jonas tinha o olhar de alguém determinado a fazer algo estúpido. Dr. Dre?! Ele não podia estar falando sério. O maior produtor de rap do mundo nunca daria a mínima para uma dupla de crianças de Dresbel. O que seu amigo esperava? Que colocassem uma fita caseira no correio todo dia até que o dilúvio de gravações rendesse algo?
– Cara, você está bebendo ou usando drogas, não é? A única coisa que Dre vai notar será a pilha de lixo ficando maior. E se você não notou, somos apenas duas crianças.
Jonas sacudiu a cabeça e respondeu:
– Isso não é problema. Os dois garotos do Kriss Kross eram mais novos do que nós quando entraram no jogo e conseguiram fazer sucesso. A gente pode chegar lá, confie em mim, é só nos dedicarmos de verdade.
Amber conhecia aquele olhar: era o mesmo que exibia quando criava algo novo, como se visse coisas sólidas se transformando em som dentro da cabeça. Ponderou sobre o que estava sendo sugerido. E mesmo que não tivessem sucesso, seria uma experiência interessante. Estou dentro disso, disse ela, e o garoto riu satisfeito.
– Amby, nós vamos chegar longe, o céu é o limite, acredite – replicou Jonas divertidamente e, mudando de assunto, acrescentou: – estou trabalhando numa coisa nova para usarmos, acho que está no gravador do meu pai.
A garota o viu ir até o armário onde o Sr. Hurston guardava seus equipamentos e esticar o braço para alcançar o aparelho mencionado. Teria sido uma ação completamente banal se algo não houvesse chamado sua atenção. A camisa de Jonas havia subido levemente quando ele esticara o braço e por um breve momento Amber viu marcas roxas inconfundíveis.
– O que aconteceu com você? – indagou, mais alto do que pretendia.
Jonas ajeitou a roupa apressadamente e a encarou assustado. A calma leve e relaxada trocada por súbita apreensão que não passou despercebida a Amber. Ficou esperando. Nenhuma resposta flutuou dele para ela e a pergunta foi repetida de forma implacável:
– O que aconteceu?
– Não foi nada, eu caí de skate na rua – retorquiu ele.
– E eu tenho um dinossauro no bolso, invente uma coisa melhor – Amber caminhava na direção dele. – Quem fez isso com você? Foi alguém na escola, um vizinho, seu pai?
Ela estava certa de que poderia extrair algo, eram amigos e esse laço implicava em não manter segredos um com o outro. A situação fez com que se lembrasse do irmão e de como era difícil vê-lo falar sobre o que o incomodava ou alegrava, sempre trancado com livros e música ruim no quarto. Contudo, Jonas não era assim e aquela súbita reserva lhe intrigava.
Estavam um diante do outro quando a porta se abriu e puderam ouvir o som de alguém descendo as escadas. Amber olhou para o garoto e a expressão que ele tinha era a de quem por um triz escapara da morte. Ela murmurou que aquilo não havia acabado e ergueu o olhar para ver a Sra. Hurston – magra, alta e simpática – trazendo biscoitos e leite.
– Olá, crianças, trouxe um lanche para vocês, já faz muito tempo que estão aqui em baixo sem comer nada. Amber, você fica para o jantar?
Que devia fazer? Pensou em alguma desculpa para recusar o convite, mas antes que pudesse emitir qualquer resposta, Jonas tomou a palavra e falou:
– Ela disse que já está de saída, parece que tem um compromisso com o pai.
– Uma pena – comentou a mãe e se virou para sair.
Amber olhou para ele e ficou em silêncio. Havia mais significado entre as palavras que não estavam ditas do que todas as longas frases do mundo. Ante aquele evento, decidiu que por ora não forçaria nada. E sem dizer nada, um se afastou do outro e se colocou a guardar as coisas num silêncio incômodo. Sentia raiva por tentar ser uma boa amiga e receber esse tipo de tratamento, mas iria descobrir o que estava acontecendo. Encaminhou-se diretamente para a porta e foi embora. Não se despediu.
[1] É a forma como um rapper encaixa seus versos na batida. O sistema de ritmos e rimas, a cadência.