A Morte é Legal
Capítulo TRINTA E SEIS
Quando todos os rios do mundo se chocam no fim da estrada e fazem
uma grande explosão de sal.
Na Rua D. havia um velho cinema chamado Belle Époque. Era propriedade de um homem com quem Astrophel costumava jogar xadrez uma vez a cada cinquenta anos mais ou menos. Vinham jogando há muito tempo. O homem se chamava Baz e era um apreciador do cinema desde o momento em que os irmãos Lumière fizeram a primeira exibição de um filme em 28 de dezembro de 1895. Astrophel e Baz haviam se conhecido na plateia daquele evento e a amizade permanecera desde então. Logo, não foi surpresa quando o homem decidiu abrir um cinema todo seu. Haviam jogado pela última vez quando os Beatles se separaram. Astrophel pensava que já era hora de uma nova partida. Arrumou a gravata e sorriu consigo mesmo.
Chegou ao Belle Époque às oito horas da noite. Vários carros estavam estacionados e pessoas entravam. Algumas senhoras que Astrophel conhecia de algum ponto do século passado, pessoas que assim como ele, viam os anos passarem e passarem. O cinema era um dos pontos de encontro da alta sociedade mágica naquela cidade, um grupo fechado e sem muitas variações. Cumprimentou alguns e entrou na antessala das bilheterias. Um saguão oval em decoração art déco com uma escadaria que levava ao segundo andar, onde encontraria Baz cuidando dos rolos de filmes – o homem era orgulhoso demais para aceitar modernizar qualquer coisa ali dentro. Até mesmo os filmes. Olhou para os cartazes espalhados, exibiriam Cinema Paradiso naquela noite – era a coisa mais recente que já vira passando por ali.
Subiu as escadas sem muita pressa, sabendo de cor o caminho que deveria fazer. Passou pela sala de projeção e seguiu para o escritório que ficava no fim do corredor. Bateu na porta e esperou alguma resposta. Erguia o braço para uma nova batida quando a porta se abriu e o rosto de uma jovem surgiu. Era ruiva e tinha olhos grandes e verdes.
– Posso ajudar? – indagou ela.
– Estou procurando por Baz Kandinsky. Diga que Astrophel o procura.
– Já ouvi histórias sobre você. Baz era meu pai.
– Era?
– Morreu durante o sono na primavera passada, deixou o cinema para mim.
Aquelas palavras o deixaram desnorteado e sem uma reação. Após ter atravessado tantas dezenas de anos se encontrando com aquele homem, era uma triste surpresa ouvir aquilo. Deixou que os ombros caíssem e com um sorriso forçado, respondeu:
– Entendo, lamento. Não vou mais tomar seu tempo, tenha uma boa noite.
– Por que você não fica e assiste ao filme dessa noite? Teremos uma delegação de vampiros críticos da Rússia que fará uma palestra sobre ele mais tarde. Eles se orgulham de ter sido patronos de Serguei Eisenstein.
– Eu já assisti a esse filme. Fico grato pelo convite, filha de Baz. Adeus.
Deu as costas e saiu em rumo às ruas. Parou brevemente numa esquina, olhando para a lua gorda que brilhava no céu. A mesma lua que puxava as marés e uma vez por mês, permitia que se afastasse de Stella por algum tempo sem que morresse. No fim, todos, inclusive ele, desejavam fugir da morte. Mas poderia isso ser possível? Baz estava morto. Morto feito cravo de aldrava, diria Charles Dickens. Stella caminhava para o mesmo buraco. Qual era mesmo o lema da D.I.E? Vasculhou sua mente e lá estava. Memento Mori, lembre-se de que vai morrer. Que coisa frágil era a vida! Não importava quanto tempo alguém conseguia se esconder, o final da peça seria sempre o mesmo.
Entrou num café da Rua Finn e pediu um macchiato. Seus olhos passavam ora sobre as garotas que conversavam animadas e ora sobre os homens de terno que discutiam números e investimentos. Será que algum deles pensava no fato de que iriam morrer? Eram conscientes de que viviam numa peça insignificante? Um palco onde atuavam e morriam e nada fazia sentido. Lembrou-se de alguns versos do Totentanz, em que a Morte se dirige ao imperador:
Imperador, a espada não vai te ajudar,
Cetro e coroa são inúteis aqui,
Eu tomei-te pela mão,
Para que você venha para a minha dança.
Os pensamentos alcançaram Stella. Era estranho não estar perto dela. Como se ficasse sem um braço momentaneamente. Tinha plena consciência de que o fim de ambos estava conectado e um não poderia existir sem o outro, aquela benção e maldição que os ligava tão profundamente, incompreensível ao olhar alheio. Estamos numa encrenca, pensou. Todos os últimos acontecimentos eram apenas consequências de sua inaptidão em aceitar a mortalidade. Sua esposa estava velha e cada vez mais fraca, sua filha, perdida num mundo onde ele não era bem vindo.
Olhou para o relógio, já estava quase na hora de ir para casa. Deixou o dinheiro sobre a mesa e saiu. A morte de Baz ainda rondava sua mente. Lembrou-se da época em que passaram todo um verão numa casa de praia na Irlanda em companhia de um escritor. Gastavam suas tardes e noites em longos passeios e em teatros. Foi a época em que os sonhos pareciam plausíveis. As músicas tocadas em frente a lareira. Os bailes e os amigos e as cores. Nada restara. Ao seu redor estava um mundo destituído de cores ou consolo. Sentia-se como estivesse vivendo apenas por teimosia.
Tomou um atalho entre a Décima Avenida e a Rua Greenwood.
Os nomes do gato. Essa era outra questão com a qual precisava lidar. Já havia perdido o primeiro para o garoto e a filha da Morte. Sorriu amargamente ao se dar conta de que a família dela era sempre uma parte de seus problemas. Bem, pensou, talvez eu possa fazer algo acerca disso. Os dois lados sabiam que a busca pelos nomes era uma tarefa na qual pessoas saiam feridas. Stella era a grande prova disso. Talvez fosse a sua vez de levar isso aos seus inimigos. De uma forma que os fizesse recuar sem objeções.
Estava quase chegando ao seu prédio. Além de tudo, havia sua questão com Mefistófeles. Precisava dar um jeito nisso também. Nunca fora sua intenção entregar sua alma numa bandeja para o demônio. Tinha um plano e sabia como fazê-lo dar certo, mas para isso, Andrew Webley seria necessário. Precisaria sacrificar o jovem para que seu castelo de cartas não desmoronasse. Uma pena.
Chegou ao edifício, mas não entrou. Deteve-se ali, olhando para a luz acessa na janela de seu apartamento. Ponderando as coisas que vieram e ainda viriam. Pensou em seu amigo morto. Pensou no garoto que iria matar. Como desejava que aquilo não estivesse acontecendo e ele não estivesse ali. As lágrimas vieram no mesmo instante. Rolando pelo seu rosto sem pedirem licença. Olhou para a lua. E velhas palavras ecoaram dentro de si.
Amanhã, e amanhã, e amanhã,
Rasteja em ritmo mesquinho, de um dia para o outro,
Até a última sílaba do tempo registrado,
E todos os nossos ontens iluminaram dos tolos
O caminho até a poeira da morte. Apaga, apaga, breve chama!
A vida é uma sombra que anda, um pobre ator
Que se agita e se pavoneia no palco,
E então é esquecido. É uma história
Contada por um idiota, cheia de som e fúria,
Sem significado algum [1]
[1]A memória de Astrophel faz uma citação de “Macbeth”, Ato 5, Cena 5, Linhas 22-31 sem se incomodar em dar crédito a William Shakespeare.