A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 72 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo SESSENTA E SEIS

E nada do que eu disser será ouvido, ela está usando um chapéu de

papel alumínio.

 

Rayla esperou até o último minuto. Quando Shaitiri deu o sinal, tudo aconteceu rapidamente. Larrabeite derrubou a porta com um chute e deu passagem para o time. A capitã fez um rápido reconhecimento, vendo sua irmã ferida num canto, uma garota humana presa e o amigo de Ive sendo segurado pelo feiticeiro, que se assustou ao ver os quatro soldados.

Sabia que não havia tempo para discutir, apontou sua arma e atirou várias vezes, assim como seus companheiros. Astropheu gritou e se correu para perto da esposa, erguendo uma parede de luz verde. Seria ele tão idiota ao ponto de pensar que aquilo era o suficiente para detê-la?

Copos se quebravam em mil pedaços e o balcão de madeira ganhava centenas de furos. A ofensiva continuava enquanto o feiticeiro atirava mesas e cadeiras sem muito efeito. Não muito longe dali o garoto tentava desamarrar a irmã com a ajuda de uma Ive visivelmente chocada pela presença da D.I.E. Shaitiri afastou-se o suficiente de Prozy e passou a transmitir as táticas do feiticeiro, nenhum ataque dele chegava a causar um perigo real.

– Bruxo da Terra Velha, entregue-se ou não sairá daqui com vida – disse Rayla.

Sua ordem foi ignorada, iria devolver os ataques. Gubbinals, disse a raposa-do-pensamento. Repassou a mensagem aos companheiros, que se prepararam para lutar contra as formas que saiam das paredes. O feiticeiro era um inimigo forte; poucos seriam capazes de domar criaturas assim – apenas uma pessoa sem nenhum pensamento bom.

Rayla não desviou sua atenção da batalha. Astrophel tentava acertá-la com raios azuis capazes de rasgar o chão. Rolou para trás de uma mesa para se proteger e continuou a se aproximar. Os outro oficiais da D.I.E tentavam limitar os inimigos como podiam. Uma zona de guerra sem espaço para segundos pensamentos. A raposa lhe repassava tudo o que acontecia ao redor de forma didática: sua irmã lutava contra dois gubbinals e Larrabeite estava eliminando o quarto. Ekopo havia sido atingido no braço e agora, Faaih o ajudava a se colocar de pé.

Quando sua munição acabou, Rayla foi obrigada a abandonar sua arma e avançar contra Astrophel usando magia – o que de forma alguma era sua especialidade. Raios se chocaram no ar e fizeram o som de uma explosão. Derrubou um gubbinal e voltou ao seu adversário. Mire na fada, disse Shaitiri, ela é a fonte de vida dele. Assentiu com a cabeça e mudou o seu alvo principal para a mulher. Mirou com cuidado e lançou seu ataque contra a idosa assustada.

Rayla chegou ainda mais perto, estava a menos de cinco metros do outro. Os gubbinals se amontoavam mortos pelo chão e Astrophel não podia fazer nada além de defender sua esposa dos ataques. Foi nesse momento que a surpresa atingiu a todos de uma vez: um jorro de luz roxa acertou a fada no lado esquerdo e fez com que ela voasse por sobre o marido. Astrophel gritou em agonia enquanto a capitã se virava para Ive, a mão ainda envolta em brilho. Acenou com a cabeça e caminhou para perto do inimigo tombado.

A esposa morta se desfazia em cinzas coloridas até que nada sobrava e o marido passava por uma mudança pior: seu corpo secava e as rugas de centenas de anos reclamavam um lugar ao sol. As mãos se atrofiavam e os dentes caíam enquanto os cabelos grisalhos se tornavam tão longos que resvalavam no chão, ossos se partiram com estalos e olhos se tornaram claros e cegos. Toda a força e orgulho desapareceram.

O time se encarregou de lidar com os últimos gubbinals e a raposa-do-pensamento Ive e os dois humanos. Olhou para a figura patética na sua frente e pediu a arma de Faaih, que entregou prontamente. Havia apenas uma saída misericordiosa para aquele sofrimento, como um cavalo que após quebrar uma perna deve ser sacrificado. Encostou o revólver na têmpora de Astrophel e apertou o gatilho. Não houve nenhum som. O dedo não obedecia à ordem enviada pela mente. Tentou mais uma vez e nada aconteceu.

– Você não irá matá-lo – disse alguém atrás dela.

Um tremor percorreu até o último pelo do corpo e seu coração parou momentaneamente. Conhecia aquela voz. A forma como cadenciava cada sílaba, lentamente, esticando-as como parte de um novelo de lã. A única criatura poderosa o suficiente para controlar uma filha da Morte.

O gato estava ali.