A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 6 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo DOIS

Estou tentando dizer que sorvete é tão legal quanto sabão, mas você

não ouve!

 

Andrew e Briony decidiram procurar algum lugar mais calmo para conversarem. Raramente tinham algo em mente quando saíam, sendo que o mais frequente era caminharem a esmo até que algo surgisse. Andava ao lado dela e a espiava pelo canto dos olhos. Ela dava passos curtos e leves como se caminhasse sobre bolhas de sabão.

– Feliz aniversário. – Disse ao entregar o presente.

Ela mostrou um pequeno sorriso e o abraçou. Gostava desse carinho com o qual era tratado. Aí dormia um dos motivos que lhe impediam de simplesmente falar. Caso não desse certo, perderia sua amiga e, mais do que tudo, gostava da sua presença. Observou-a rasgar o embrulho e tirar uma delicada boneca de pano com aroma de uva.

Iam andando sob a chuva. Havia engarrafamento na maior parte do caminho e os pedestres eram mais rápidos do que os motoristas. Na região central tudo era colorido com múltiplos cartazes de anúncios, placas e televisores. Telões em prédios e vozes suaves que escapavam de alto-falantes ocultos.

– Espero que goste, a moça da loja disse que são ótimos enfeites. Se não gostar, finja que gostou para aliviar a minha consciência por não saber escolher presentes.

– Eu amei! – ela então tirou um pequeno aparelho prateado da bolsa e mostrou a Andrew dizendo: – Comprei um novo, porque no meu antigo não cabiam mais músicas e eu não queria apagar as que já tinha.

Andrew observou sem dizer muita coisa, já que não se interessava muito por tecnologia e sua atenção estava focada em outro lugar. Briony tinha cabelos castanhos e longos, ondulados além dos ombros. Era baixa e naquele dia vestia jeans e uma blusa rosa, tinha a pele bronzeada e lábios finos. Mas eram os olhos que mais chamavam a atenção de Andrew, estreitos e expressivos. Os pontos mais interessantes da via láctea.

– Você já conseguiu alguma ideia para o seu livro? – perguntou Briony.

– Nada. – respondeu coçando a cabeça. – Imagino se vou terminar isso de verdade.

Andrew lutava há dois anos contra “A Violinista de Fevereiro” – um título precário e que nunca revelara para Briony – mas nada parecia surgir em seu auxílio para remediar sua falta de inspiração.

– Não se preocupe tanto. As ideias vão vir até você.

Andrew encolheu os ombros e respondeu:

– Elas deveriam escolher uma forma mais rápida de transporte. O preço da passagem aérea caiu bastante, elas podem abandonar os camelos.

Sentaram num dos bancos da Praça Benjamim W. Era circundada pelas principais avenidas de Dresbel e fontes que se iluminavam durante a noite, estátuas e bancos de madeira, em que várias pessoas se sentavam. As árvores, flores e gramado estavam impecáveis assim como o museu municipal que ficava por ali. Sentaram num banco coberto, próximo a uma garota com mechas verdes no cabelo que brincava com um coelho.

Ela gosta de mim mas não gosta de mim, pensou ele. Que péssimo! Talvez não devessem se misturar no final das contas, como se ele fosse lo-fi e ela, chamber-pop. Melhor seria afastar esses pensamentos da cabeça.

– O que você vai fazer no próximo fim de semana? – perguntou ela.

– Provavelmente o mesmo de sempre: Nada. O máximo de diversão que a minha vida permite é assistir a reprises de filmes iranianos na TV a cabo.

– Acho que você precisa sair um pouco mais de casa, amigo.

Ela segurou a mão de Andrew. Dedos pequenos e macios, uma coisinha delicada e quente. Talvez esse fosse o momento ideal para se declarar. Havia lido certa vez que o contato físico era a linguagem corporal feminina emitindo sinais de interesse. Seria uma brecha? Mas ela também o chamara de “amigo” e essa palavra é capaz de minar as esperanças de qualquer pretendente.

– Eu e Kayla iremos tocar perto da minha casa. O nome do lugar é “Espaço 319”. É bem conhecido.

Andrew deu de ombros e respondeu:

– Farei o possível para estar lá, com certeza.

– Não. Você vai estar lá. Eu nem me lembro quando foi a última vez em que você foi a um show meu.

O garoto a ouviu discorrer sobre inúmeras outras coisas, mas sua cabeça estava longe, imaginando como seria agradável silenciá-la com um beijo. E tudo estaria em silêncio. Olhos fechados, seu coração saltaria uma batida. Aos poucos, ambos desapareceriam completamente. Soltou o ar dos pulmões e decidiu que era hora de falar a verdade. As palavras estavam na ponta da língua.

– Briony...eu tenho...sabe... uma coisa. Uma coisa para te contar... – não conseguia evitar o tremor na voz.

Ela o encarou nos olhos. Isso deixava tudo tão mais complicado. Sempre que estava diante dessa situação, lembrava-se de um poema de Elizabeth Jennings que falava sobre a timidez que as pessoas têm para com aquelas que mais amam.

– Sim?

– Eu queria... ter contado isso antes...a verdade é que eu gosto muito...

Mas Briony não estava lhe dando atenção. Estava ocupada procurando o celular que tocava dentro da bolsa. A centésima tentativa falha. Ou intervenção divina para salvá-lo de um vexame. Como se fosse possível fazer o que planejava e não parecer estúpido ao mesmo tempo.

– Era a minha mãe, está numa loja e pediu que eu fosse até lá. Termine o que você estava dizendo.

Andrew balançou a cabeça e apressou-se em responder:

– Não era nada importante. Era só para contar que assisti a um ótimo filme essa semana.

A menina o observou em silêncio. Em alguns momentos ela movimentava os lábios e ele pensava que palavras saltariam. Mas no fim era apenas um suspiro e uma frase banal:

– Tudo bem. É melhor não deixar minha mãe esperar muito.

Os dois se abraçaram e ela deu alguns passos antes de parar e perguntar com um sorriso:

– Andrew... você realmente iria comentar sobre o filme? Sei lá, fiquei com a impressão de que você estava para falar sobre alguma coisa mais séria do que isso.

Um redemoinho em seu estômago. Aquele olhar talvez fosse a indicação de que em algum nível ela soubesse o que as palavras omitiram. Engoliu em seco. Fez um movimento facial parecido com um sorriso e respondeu:

– Não... era isso mesmo. Pura bobagem.

Briony o olhou por mais um momento antes de dar de ombros e responder:

– Tudo bem, então. Até mais, querido. A gente se vê e muito obrigada pelo presente.

– Não precisa agradecer. Feliz aniversário mais uma vez.

Andrew viu o momento em que ela abriu o guarda-chuva amarelo e atravessou a rua para desaparecer numa esquina. A garota não voltou o olhar em nenhum momento. Pensava em si mesmo como um Cyrano sem espada ou poesia.