A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 54 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo QUARENTA E OITO

Minha capacidade de ser feliz está relacionada com a quantidade de

chuva que cai sobre você.

 

A noite mais fria do ano chegou sem nenhum aviso. As pessoas andavam envoltas em toneladas de agasalho e faziam todo o possível para não saírem de casa, a não ser que algo muito grave ocorresse – como a morte do gato de estimação ou uma antena de TV estragada. Exceto uma pessoa, que sentada sobre o telhado de uma casa, observava a família de Andrew Webley reunida para jantar.

Isso não está certo, pensou Rayla incomodada. Shaitiri deitou-se aos seus pés e ficou quieta, de olhos fechados, sabia que a raposa ouvia tudo o que se passava dentro da casa do garoto – e de sua cabeça, não se incomodava com isso, estava acostumada com a presença dela. Voltou a prestar atenção na família. Assemelhavam-se a qualquer outra em seus hábitos e era bem possível que o garoto não fosse uma má pessoa, apenas tivera a má sorte de entrar no meio de uma batalha que não era a dele. Ive não teria o menor peso em sua consciência? De certa forma, era capaz de entender qualquer atração que Ive pudesse ter pelo mundo humano. Ela mesma já sentira isso durante seu intercâmbio nesse mundo. Vivera durante dois anos em Amsterdam – gostava de passear de barco nos canais e caminhar à noite nas ruazinhas do bairro Jordaan, foi durante a época em que artistas e estudantes lotaram o lugar, havia uma festa diferente a cada dia. Heike. Sim, este era o nome do jovem que trabalhava num dos bruine cafés da região e que lhe serviu de amizade durante a estadia. Conheceram-se numa apresentação do Blondie. Um garoto forte e de riso fácil, que fazia todos ao seu redor escutarem-no bem. Costumavam frequentar shows de bandas obscuras que tocavam My Sharona do The Knack umas cinco vezes por noite e beber cerveja barata. Mais de uma vez sentiu-se tentada a largar tudo e ficar no mundo humano para sempre, se divertindo com os amigos sem preocupações. Mas não poderia fazer isso, era obrigada a voltar para casa e ingressar na Escola Preparatória de Cadetes Espirituais. Tinha responsabilidades com as quais lidar, pessoas que contavam com ela. Chegou a pensar em Heike inúmeras vezes depois que partira e chegara até mesmo a passar em frente a sua casa e observar do lado de fora como estava – envelhecido, casado e com duas filhas. O intercâmbio servia para que conhecesse aquele mundo e como eram responsáveis pelos mais diferentes tipos de vida, não para que se mudasse para lá.

Suspirou e voltou o foco de sua atenção para a família. Ele está pensando em Ive, comentou Shaitiri, parecem gostar um do outro. Rayla apenas forçou um pequeno sorriso. As pessoas costumavam duvidar de sua capacidade de compreender as pessoas, o que não era verdade, e era justamente por compreendê-las que não permitiria que sua irmã causasse destruição desnecessária. Sua mente era capaz de entender aquilo pelo que ela estaria passando, a curiosidade com a mortalidade, contudo, não se pode ter tudo o que se deseja. Às vezes sentia muita raiva do fato de todos a enxergarem como alguém que surgia apenas para drenar a alegria de qualquer outra pessoa – até mesmo sua mãe lhe enxergava como um monstro. Parecia lhe culpar pelo destino de Kivian, o que não era justo, visto que apenas fazia seu trabalho. Ive era outra que sempre fora protegida. Ora, ela que a servia sem jamais transgredir uma ordem, nunca sequer ganhara um parabéns. Já essa filha que não dava o mínimo valor a coisa alguma, herdaria tudo. Bastante injusto, tinha que admitir. Sua mãe mal lhe dirigia a palavra a não ser que fosse para reclamar que a D.I.E não mantinha a vigilância adequada em um ou outro lugar, ou para discutir taxas, metas e o andamento de processos. Ive nunca comparecera a nenhuma reunião e nem parecia demonstrar o menor interesse. Se soubesse que as coisas ficariam dessa forma não teria voltado para casa, tinha certeza de que não visitara todos os bares de Amsterdam.

Shaitiri se levantou e começou a rosnar, o que serviu de sinal para que Rayla se colocasse em prontidão. Olhou para a raposa que lhe devolveu uma expressão confusa. Podia sentir uma presença poderosa se aproximando. Era como uma onda de calor que se irradiava por sobre o telhado e fazia com que se sentisse levemente anestesiada. Sabia que essa era a intenção e por isso mesmo tentava não se entregar. Buscou sua faca e aguardou. Imaginou se acaso pudesse ser uma obra de sua irmã, afinal, Prozy era a única coisa que conseguia se ocultar dos poderes da raposa-do-pensamento. Procurou por alguma coisa camuflada na escuridão. Conseguia notar seus sentidos sendo embaralhados, substituídos por um tipo de euforia artificial.

Seus olhos conseguiram notar um vulto a sua esquerda. Tinha apenas uma chance. Atirou sua faca o mais rápido que pôde naquela direção, um tiro que seria capaz de derrubar um urso. Houve um som de choque e logo em seguida a lâmina caindo no chão.

– Não precisamos de tanta agressividade, pequena Rayla – disse uma voz calma que parecia estar se divertindo com o momento. – É um prazer encontra-la pessoalmente.

A capitã da D.I.E olhou naquela direção para observar o visitante – um pequeno e frágil gato preto de rabo quebrado. Rayla sabia que não deveria se deixar levar pela falsa aparência dócil, diante de si estava uma das criaturas mais poderosas já existentes e o ponto de partida de todos os últimos eventos. Precisava de uma reação, responder algo, mas alguma coisa lhe deixara incapaz de esboçar qualquer resposta. Tentou se recompor e não deixar transparecer o que se passava com ela.

– O prazer é todo meu – respondeu. – O que o traz até aqui?

– Eu tenho acompanhado de perto a busca de todos, isso me diverte. As pessoas acham que ter um desejo atendido é a recompensa por encontrarem os nomes, quando na verdade é apenas um prêmio de consolação por me tirarem do tédio.

– Eles estão cada vez mais perto de você.

– Eu sei. Tão excitante, não é verdade? É como se aproximar da parte final da Nona Sinfonia, onde tudo acontece.

Rayla fez um sinal para que Shaitiri se retirasse e se aproximou da outra criatura. Havia um misto de medo e curiosidade dentro de si. O felino caminhou até a ponta do telhado e se sentou, balançava a cauda e assim como ela, observava o jantar da família Webley.

– Eu acho que você deveria voltar atrás nessa história. Minha irmã é a próxima Morte, você precisa impedi-la de conseguir o que deseja. Isso destruiria todo o equilíbrio entre os mundos.

– Isso não é meu trabalho. Todas as pessoas têm o direito de fazer suas escolhas. Pense em mim como um fornecedor de alimentos com alto colesterol, todo mundo sabe que pode fazer mal a elas e ainda assim procuram a minha loja.

Rayla gostaria de poder chutar a cabeça dele até que nada restasse. Não podia acreditar que tudo aquilo era somente entretenimento para ele. Milhões de pessoas estavam em risco por causa daquela busca idiota pelos nomes e o gato nem ao menos se dava ao trabalho de fingir que se importava. Sua irmã e todos os outros, participantes num reality show de apenas um espectador.

– Eu não vou deixar que isso chegue até o fim – respondeu ela. – E se isso significa acabar com a sua raça, é isso o que eu vou fazer. Nenhuma outra irmã minha irá cair no seu jogo.

O gato lhe lançou um olhar irritado e isso foi o suficiente para que uma dor excruciante percorresse cada centímetro de carne, como se seu sangue estivesse cozinhando dentro das veias. Tentou gritar, mas sua garganta estava fechada, fazendo-lhe sufocar. Não conhecia nenhum tipo de defesa contra um poder tão antigo. Foi quando a dor começou a afrouxar e o ar voltou a entrar em seus pulmões. Tossiu enquanto tentava se apoiar nos braços. Shaitiri chegou em poucos segundos e se pôs a rosnar contra o felino.

– Não entre no meu caminho, pequenina. Seria um desperdício caso alguma coisa acontecesse a você. Sua mãe não ficaria feliz em perder outra filha.

Rayla permaneceu quieta enquanto a criatura saltou de um telhado para o outro, miando na noite escura e balançando a cauda partida. Sentia uma forma diferente de raiva, o tipo que serve de combustível para se buscar vingança. A garota e a raposa ainda ficaram por ali durante um tempo. E pela primeira vez em sua existência, desejou nunca ter tido irmãs para que não precisasse limpar a sujeira delas.