A Morte é Legal
Capítulo DEZOITO
Os horríveis e espantosos feitos e proezas do mui renomado Mendigo,
rei de ninguém.
Barulhos. Vindos de longe. Eram como explosões de fogos de artifício. Gritos estridentes cortavam o espaço e o coração de quem ouvia. Cata-ventos iam cobrindo as ruas formando o que se assemelhava a um grande lençol de mil cores estendido sobre uma cama vazia. Vinham empurrados por todos os ventos de todas as direções. O pequeno contingente que estava com Andrew e Ive se entreolhava. Estavam assustados e preocupados com os companheiros que poderiam ter sido pegos. Yorick despachou Nina, Mary e Pirrip para ajudar a resgatar os menores. O líder e Horatio ficariam para pedir a ajuda de Mirtza Sosostriz.
– Não temos tempo a perder – disse o líder ruivo invadindo o jardim. – Temos que conseguir ajuda, eles têm medo da bruxa.
Andrew viu que Ive estava assustada, olhando para os lados enquanto carregava Prozy nos braços e caminhava com seus passos curtos e ligeiros. Teria feito qualquer comentário de simpatia para a garota caso não estivesse trabalhando suas próprias coisas. Olhou para o que acontecia ao redor: As abóboras pararam de cantar, os anões de jardim se tornaram estátuas, as vassouras caíram duras e esticadas ao tempo que os gatos sumiram de vista num átimo de segundo.
– Nós passamos por um monte de gubbinals e quando eu penso que nada pode piorar... Isso! – comentou Andrew. – A vida é muito injusta.
– Você diz isso porque a Morte não é sua mãe – respondeu Ive.
A porta se abriu sozinha e o quinteto entrou na casinha. Era um lugar aconchegante com uma lareira que crepitava ruidosamente. Várias fotos amareladas e artigos de decoração estavam visíveis, almofadas coloridas, livros dos mais diferentes tamanhos e formatos, um toca discos girava um jazz que Andrew não reconhecia, móveis de madeira envelhecida completavam o ambiente. E debruçada sobre uma mesa na cozinha, estava a dona do lugar. Mirtza Sosostriz era uma jovem pouco mais velha do que Ive, tinha longos cabelos castanhos, rosto claro e sardento, boca pequena e olhos verdes, suaves. Ela sorriu ao ver que tinha visitas.
– Olá, Ive Princesa do Fim Inevitável, você cresceu bastante e trouxe companhia humana. Olá, Prozy, seja bem vinda. Estou testando uma nova receita de doce de quimera fúcsia. Ou seria de quimera púrpura? Sempre confundo. As pessoas querem coisas novas. Estão cansadas das lasanhas de sempre – as mesmas receitas e formas e fôrmas. Em que posso ajudá-los?
O barulho de revolta crescia do lado de fora e ficava mais próximo. Andrew achou por bem ficar calado e apenas observar enquanto Ive caminhava acompanhada por Yorick e Horatio. Ela trocou um abraço com a bruxa e apoiando-se na parede, começou a explicar.
– Eu e Andy estamos procurando os nomes do gato. Pensei que você pudesse me ajudar com isso, pelos velhos tempos. Como você pode ver, não podemos ficar aqui, por isso eu preciso da sua ajuda agora.
Antes que Mirtza Sosostriz pudesse dizer qualquer coisa, Yorick se adiantou e com a voz recheada de urgência, falou:
– E as crianças precisam da sua ajuda, nós sabemos que o Povo de Lá tem medo de você. Se não fizer nada, todas as crianças serão obrigadas a ler, escrever e falar apropriadamente.
– Isso seria o fim de tudo – acrescentou Horatio entrelaçando os dedos como se estivesse rezando.
Andrew viu a mulher rabiscar uma e outra coisa no livro de receitas. Ela coçava a cabeça e arrancava fios de cabelo distraidamente. Todos aguardaram até que ela olhasse para os dois pequenos e dissesse:
– Traga todas as crianças para a minha rua, os adultos não têm coragem de me enfrentar. Yorick Cabeça-de-Chiclete-Doido, eu preciso que você fique e leve os meus visitantes até a saída da cidade quando terminarmos de conversar.
Andrew notou que o garoto não estava contente em ter de ficar ali enquanto seus amigos estavam em perigo, mas sabia que dependia da ajuda da bruxa e por isso apenas fez um sinal para que Horatio fosse correndo avisar as outras pessoas sobre o combinado. O garoto leitor lançou um último olhar de soslaio aos presentes e saiu correndo em disparada pelas ruas cobertas de cataventos.
– Você vai nos ajudar? – perguntou Andrew.
– Ora, é claro que sim – respondeu Mirtza Sosostriz. – Que tipo de bruxa eu seria se não o fizesse. E acima de tudo, Ive é uma amiga que eu odiaria desapontar. Os nomes do gato. Isso não é uma coisa com a qual deveria se meter. Sua mãe seria a primeira pessoa a desaprovar esse tipo de coisa e sua irmã... Bem, você conhece Rayla melhor do que eu.
– Aleluia! – murmurou Prozy. – Alguém que tem o mesmo bom senso que eu.
– Minha mãe não imagina que nada disso está acontecendo. E minha irmã é a última pessoa em qualquer universo que pode desconfiar disso.
– Você tem tanto medo da sua irmã? – perguntou Andrew com assombro.
Foi Prozy quem respondeu:
– Rayla já condenou uma alma ao Inferno apenas porque o passaporte de assombração havia expirado um dia antes. Acredite em mim, moleque, ela faria a mesma coisa com a gente antes que você pudesse dizer tédio.
Andrew então se deu conta do tanto que ainda precisava aprender sobre Ive e mais ainda, sobre o que havia relacionado ao lugar de onde viera. Nunca fora obrigado a pensar tanto na pós-vida como vinha fazendo nos últimos tempos. Andrew, que sempre tivera tanto medo da morte que não teria coragem de entrar em um avião, mesmo que estatisticamente seja o meio de transporte mais seguro.
Mirtza Sosostriz convidou todos a se sentarem à mesa, onde ofereceu chá e um cesto cheio de madalenas. Andrew pegou uma delas e molhou no chá antes de comer. Yorick deu uma fungada irritada, foi até a janela e encostou a cabeça no vidro, estava inquieto e calado desde que seu amigo saíra.
– Bem, vocês vieram até aqui por causa do primeiro nome, acho que posso ajudar vocês. – Mirtza então olhou para Andrew e continuou: – o primeiro nome é o mais fácil. É um nome cotidiano e sensível. Fica escondido num cemitério.
– Dresbel tem mais de cinco cemitérios, como saberemos em qual deles vai estar? – perguntou Andrew exasperado.
A bruxa fechou o seu livro de receitas e respondeu:
– Não sei muito mais do que isso. O gato é um brincalhão, ele se diverte em ver as pessoas à procura dos nomes dele.
– Como você sabe de tudo isso?
Mirtza Sosostriz deu uma risada e ficando bem próxima dele, respondeu:
– Porque eu sou a única pessoa a ter reunido os nomes. Façam como eu digo e caso encontrem o primeiro, existe alguém que pode ajudá-los: Obie, o livreiro do Mercado Central. Ele era amigo do gato até que se desentenderam por causa de uma briga de bar.
Andrew viu Ive sorrir e falar:
– Fico muito feliz de poder contar com a sua ajuda, Mirtza. Eu gostaria de poder ficar mais um pouco e experimentar seu doce de quimera fúcsia, mas hoje não parece ser um bom dia para visitas. Prometo voltar com mais tempo da próxima vez.
– Você virá sozinha – disparou Prozy.
– Tempos loucos, realmente, loucos – disse a bruxa. – Yorick levará vocês até a Fonte do Pêssego. Basta pular na água e gritar o nome do lugar onde vocês querem estar e ela os levará até lá. Obrigada pela visita e fico feliz em poder ajudar.
Andrew estendia a mão para pegar mais uma madalena quando Mirtza franziu o cenho e pegou sua mão no ar. O garoto fez um gesto para fugir ao toque, mas o aperto dela era forte. Olhou para Ive em busca de algum auxílio, a garota apenas sorriu. A bruxa examinava a palma de sua mão meticulosamente, como se estivesse fascinada.
– Você tem linhas interessantes. Cuidado com o período de escândalo e sedução que se aproximam de você. Tenha paciência e aceite as mudanças que estão acontecendo – disse ela. – A parte ruim disso é que a sua linha do amor é catastrófica. Lamento te informar, a pessoa que você ama irá te desapontar e te destruir.
Andrew ficou sem reação. Levou um tempo para que as palavras começassem a reverberar dentro da mente. Elas iam se impregnando como perfume numa roupa, aos poucos. Respirou fundo e olhou para o teto. Estava sentado no ponto em que a respiração troca de lugar com suspiros curtos.
Estaria ela dizendo a verdade? Uma pessoa qualquer poderia sentir-se seduzida a acreditar naquilo, mas ele não era esse tipo de pessoa, afinal, era, sim, um garoto culto e moderno, sem tempo para superstições. Pessoas atrasadas acreditam em quiromancia, pensou ele. Contudo, Ive estava ali ao seu lado e ele estava no mundo das fadas. E se fosse verdade? E se Briony servisse apenas para desapontá-lo.
– Os primeiros camaradas estão chegando! – gritou Yorick – Vamos, irmão-médio e moça do cabelo estranho, vamos agora, tenho que leva-los e voltar para ajudar.
Andrew não sabia o que fazer. Era uma maré ascendente dentro do peito. Uma semidepressão, um passeio pelos subúrbios dos batimentos cardíacos. Como se cada pensamento traísse e condenasse. Queria poder chorar, mas tinha consciência de que nenhuma lágrima viria, estava seco. Eu já devia estar acostumado, pensou, eu não sei ganhar ou ser feliz. Eu sei perder e ser derrotado. Olhou para o chá que esfriava e para as madalenas no cesto. As memórias acertaram com a força de uma divisão panzer. Ficou ouvindo a si próprio durante um momento. A tristeza musical que as pessoas escutam quando o coração delas se parte e o era uma vez se torna apenas era. Música de câmara cheia de ambiências, ruídos, camadas e elementos. Lento desfazer. Cada imagem fraturada, evaporando. Cada sorriso, cheiro, som e sensação tátil. As recordações eram venenosas. Pensou em livros. As palavras escritas lhe forneciam imagens para ilustrar seus sentimentos. “Homem Invisível” de Ralph Ellison lhe veio à mente, uma cena em particular que lhe assombrara durante anos. Um jovem que após lutar boxe vendado é obrigado a pegar moedas espalhadas por um tapete eletrificado. A felicidade cumpria o papel de tapete na vida de Andrew: podia ver as moedas, mas caso ousasse toca-las, seria fulminado por 2300 volts de pura decepção.
Ive se levantou e colocando a mão em seu ombro, disse:
– Precisamos ir, Andy. Mesmo que isso esteja nas suas linhas, nada é absolutamente certo. E pense assim: talvez isso fosse realmente acontecer, mas agora eu estou ajudando você e sou bem teimosa.
Andrew retribuiu com um sorriso torto e se despediu de Mirtza Sosostriz sem dizer muitas palavras. Não estava com humor para nenhuma observação de etiqueta. Queria estar em casa, posição fetal debaixo de um cobertor, fones no ouvido e música alta. O grupo começou a caminhar em silêncio. Ive afagou seus cabelos e lançou um sorriso de suporte.
Era hora de partir. E ninguém estava inclinado a se incomodar com isso.