A Morte é Legal
Capítulo TRINTA E QUATRO
Misturar chocolate e café nem sempre funciona, vinho e ginástica
olímpica combinam melhor.
A casa estava silenciosa e coberta por uma neve fina quando Rayla e Shaitiri voltaram para lá. Haviam saído para desanuviar a cabeça dos acontecimentos das últimas horas. Esfregou as mãos para se esquentar. O clima inconsistente no mundo das fadas sempre fora um dos motivos que a mantivera afastada por longos períodos, no entanto, aquela visita não pudera ser adiada. Estava ali há dois dias e sem nenhum resultado concreto. Atravessou o pequeno jardim e entrou na casa, agradecida por ter deixado o frio do lado de fora e ter uma lareira acessa do lado de dentro. Pegou uma xícara e tomou um pouco de café que estava na garrafa sobre a mesa.
– Acho que nossa amiga está acordada – disse Shaitiri.
– Por favor, me solte. Eu sou amiga da sua família, eu já troquei suas fraldas.
Os olhos de Rayla se viraram para o meio da sala. Mirtza Sosostriz estava deitada e imobilizada numa tábua de madeira com a cabeça inclinada para trás, um balde com água e uma toalha estavam ao seu lado. Ficou surpresa por ver que ainda havia um resto de energia na bruxa. Estava começando a ficar irritada com toda aquela situação. Sentia um incômodo se agitar dentro do peito, mas não poderia dar atenção a isso agora, estava ali para fazer o seu trabalho, cumprindo seu juramento de usar suas melhores qualidades para proteger todos os mundos existentes.
– Mirtza, diga tudo o que você sabe. Acredite em mim, as coisas poderiam estar sendo bem piores. É justamente pela consideração que minha família tem por você que estou sendo razoável nos últimos dois dias.
A mulher no chão riu em escárnio e por entre lágrimas, respondeu:
– Não sei se razoável descreve bem a situação. É isso o que você se tornou, garota? Uma burocrata vazia de pensamento? Não é de surpreender que Ive não seja muito próxima de você.
– As suas palavras não me atingem em nada, essa é forma como as coisas são feitas. O que Ive deseja? Eu quero tudo.
– Eu não jogarei a menina em suas garras, Rayla, eu sei muito bem o que acontece quando alguma irmã se aproxima demais de você. A propósito, você a tem visitado no Inferno? Se bem que não acho que ela sinta sua falta.
Rayla deu alguns passos adiante e em completo silêncio, ajoelhou-se ao lado de Mirtza Sosostriz. Acho melhor você me dar alguma coisa, disse ela friamente, ou começarei a lhe tratar como uma criminosa comum. Você sabe exatamente o que vai acontecer a seguir, estamos nessa brincadeira há dois dias e isso é apenas o começo.
A bruxa cuspiu no rosto da capitã da D.I.E, que simplesmente balançou a cabeça negativamente e limpou o rosto com a manga do casaco. Pegou a toalha suja que estava ali perto e colocou sobre o rosto de Mirtza, abafando os gritos dela. Esticou o outro braço e pegou o balde d’água que foi sendo despejado sobre o rosto coberto. A prisioneira se debatia violentamente contra as amarras sem sucesso.
– Eu aprendi isso com os humanos, sabia? – disse Rayla, enquanto derramava mais água. – Os músculos da sua faringe se contraem involuntariamente, então, você experimenta sufocamento e inspiração de água ao mesmo tempo, daí, a dor intensa que está sentindo. Deve ser horrível, não é? A incerteza da continuidade da existência.
Sabia que a bruxa não conseguiria aguentar muito mais que aquilo. Já havia feito procedimento inúmeras vezes e em incontáveis pessoas, porém, não estava conseguindo se distanciar como sempre fazia. Sua única esperança era que Mirtza cedesse, já havia gastado tempo demais no interrogatório de apenas uma pessoa. Rayla retirou a toalha do rosto de Mirtza, que tentava buscar ar e tinha uma expressão de pânico em seus olhos. Shaitiri se aproximou e disse:
– As defesas mentais dela estão caindo, já tenho o que precisamos. Ela contou a Ive onde está o primeiro nome. O humano que está junto dela se chama Andrew e preenche todos os requisitos necessários. Mirtza a mandou procurar Oberon e acredita que sua irmã já tenha o segundo nome.
Rayla sorriu e respondeu:
– Obrigada, Shaitiri – e dirigindo-se à bruxa, continuou – Viu como tudo fica melhor quando você coopera com a Divisão? Eu não vou te punir como você merece por causa do passado compartilhado. Nunca mais fique no meu caminho. Adeus.
A capitã fez um movimento de mãos e as amarras que prendiam Mirtza Sosostriz se afrouxaram, deixando-a livre após dois dias de sofrimentos. Rayla e Shaitiri se dirigiram até a porta. Estava aliviada por ter conseguido o que precisava sem usar de métodos mais extremos, podia considerar aquela missão um sucesso. Já estava quase saindo quando uma lufada de vento cortou o recinto e Shaitiri foi atirada contra uma parede. Os instintos de defesa de Rayla gritaram e fizeram com que ela saltasse no exato instante em que uma segunda lâmina de vento explodiu a porta em milhares de pedaços.
Rayla se virou em posição de luta para encarar uma Mirtza fraca e cambaleante. Você não está me deixando nenhuma escolha, disse a mulher, você é má, Rayla. Um segundo ataque caiu contra a moça, vasos de flores e outros objetos pesados. Rayla não precisou de muito esforço para derrubar cada ameaça. Conhecida cada objeto espalhado por ali, um dos primeiros passos de seu treinamento foi aprender a se familiarizar com qualquer terreno, sabia o que fazer. Fez com que as lenhas da lareira se erguessem e investissem contra a bruxa como lanças.
Houve um grande barulho quando a bruxa partiu as toras de madeira no ar e as redirecionou contra Rayla, que se escondeu atrás do sofá.
– Está acontecendo de novo, não é, Rayla? Caçando mais uma irmã para condenar ao Inferno. Nem mesmo sua mãe te aceita, aberração. Acha que eu não ouço o que as pessoas comentam em voz baixa pelos corredores do mundo espiritual?
Rayla deixou sua mente livre. Não poderia deixar que ela desestabilizasse seu emocional. Subestimara os poderes de Mirtza Sosostriz, que mesmo enfraquecida era capaz de ser uma oponente mediana. Estava na hora de terminar com aquele jogo. Levantou-se num salto e fez chamas roxas varrerem a casa, incendiando desde as cortinas até as luminárias.
Mirtza soltou um grito tão dolorido ao ver sua casa em chamas que Rayla foi obrigada a cobrir as orelhas. A bruxa começou a lançar coisas aleatoriamente, sem mira que justificasse. Ela gargalhava e chorava ao mesmo tempo, num espetáculo que era assustador e digno de pena. Rayla estava com a vantagem emocional e bastava esperar por um deslize que não tardou. Mirtza fez com que todas as gavetas da cozinha se abrissem e garfos e facas se dirigissem contra a oponente. Rayla esperou o momento certo e fez com que todos os projéteis caíssem por terra.
– Sua... – Mirtza deixou a frase incompleta.
Não houve tempo para isso. Uma das facas cortara o ar e estava cravada em seu coração. Rayla observou enquanto ela desabava no chão e o brilho em seus olhos se extinguia num silêncio agonizante. Viu o fogo mágico engolir tudo ao seu redor e caminhou em direção a Shaitiri, tomando a raposa-do-pensamento em seus braços. Tinha que cuidar dela o mais rápido possível, uma das patas dianteiras estava quebrada.
Saiu dali com seus próximos passos em mente. O fogo subindo pela casa inteira e devorando o jardim. Podia sentir o cheiro da fumaça se prendendo aos seus cabelos e roupas. Lembrou-se de quando ajudou sua mãe a recolher almas quando Nero incinerou Roma, as coisas queimavam do mesmo jeito. Afastou aquelas memórias e tomou uma avenida de pedras coloridas. Rayla deu seu trabalho do dia por feito e foi embora com a raposa nos braços.
Um grupo de crianças chegou dali a pouco e outras foram se ajuntando em minutos.