A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 46 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo QUARENTA E UM

 

Se você olhar bem de perto, poderá ver flocos de madeira na cauda de

um arco-íris.

 

Rayla chegou ao mercado perto das onze horas da noite. Havia uma pequena movimentação de últimos clientes. Shaitiri caminhava silenciosamente ao seu lado, com todos os ferimentos curados e ambas estavam prontas para prosseguirem na missão. Vestia o uniforme da D.I.E naquela noite, a farda preta com o corvo branco no braço e o lema: Memento Mori. Ajeitou a boina e foi seguindo pelos corredores que levariam até a livraria de Oberon. Algumas pessoas se assustavam quando a viam passar e tratavam de sair do caminho o mais rápido que podia – ao contrário do que acontecia com humanos, permitia que as criaturas mágicas a enxergassem. Um duende fechou as portas de seu comércio e rezou para algum deus de seu povo. Ele contrabandeia ovos de ursos escamados, disse Shaitiri após ler a mente do duende. Rayla fez uma nota mental, mandaria um batalhão fazer vistoria em todas as lojas no dia seguinte. Seus passos iam soando pelos pisos de mármore. Era estranho ver o Mercado Central das Fadas tão quieto, sendo que durante o dia toda a movimentação do universo parecia se encontrar ali.

Pensou em tudo o que estava acontecendo ultimamente. Ive tinha um papel reservado a ela no outro mundo, tinha obrigações, deveres que assim como ela, deveria cumprir. Ela não teria pensado em quais poderiam ser as consequências? O mundo espiritual entraria em colapso se ela fizesse a escolha errada. Kivian estava presa, tudo bem, isso não lhe incomodava tanto, mas que Ive seguisse o mesmo caminho era um absurdo. Comandar a D.I.E já era mais trabalho do que qualquer um poderia sequer imaginar. Sua mãe somente a muito custo conseguia manter a organização e o transporte de almas em funcionamento, sendo obrigada a terceirizar a criação de mundos para um grupo de deuses indianos. Caso a irmã optasse por fazer o que Rayla imaginava que desejava, seria impossível prever os danos em todos os universos existentes.

– Acho que chegamos, Shaitiri.

A loja de Oberon estava se preparando para fechar, as lontras bibliotecárias recolhiam os cartazes e Puck colocava o lixo para fora. Rayla mostrou o distintivo e entrou na loja.

– Todos para fora ou serão despachados no primeiro comboio para o Inferno! Oberon, precisamos conversar com você.

Todos os funcionários largaram imediatamente o que estavam fazendo e saíram sem olhar para trás. Puck deixou a vassoura sobre o balcão e resmungou alguns xingamentos enquanto deixava o lugar, visto que era obrigado a sair de onde morava. Rayla procurou algum sinal da presença da irmã ou que a ajudasse na investigação. Algo sobre o balcão soou um alerta. Shaitiri viu sua linha de raciocínio através do pensamento compartilhado, e se aproximou. Havia poeira sobre várias coisas, o que era de se esperar, exceto sobre um pedaço do balcão, onde ficava evidente que um tipo de caixa havia sido retirado após muito tempo. Qual poderia ter sido a causa? Seus olhos continuaram a procurar algum vestígio, até que encontraram um pedaço de papel queimado. Uma das funcionárias tinha deixado escapar. Chamas dentro de uma livraria. Provavelmente sua irmã teria ameaçado o livreiro, fogo é uma das magias que Ive controlava melhor.

Imaginou o que faria caso descobrisse que Ive estava realmente buscando uma forma de repetir os passos de Kivian. Era uma pena que não pudesse contar a ela toda a verdade, talvez fosse o suficiente para fazer com que voltasse para casa sem causar maiores problemas. Tudo o que gostaria era de salvar Ive antes que fosse tarde demais. Dentro do seu coração havia uma parte que sentia falta de suas irmãs reunidas em casa, no entanto, era impossível perdoar Kivian pelo que ela fez. Chegou a pensar por um momento se não seria errado da parte de sua mãe designá-la para lidar com o caso atual.

O livreiro chegou dali a pouco, metido em seu pijama e com os olhos arregalados. Rayla o olhou da cabeça aos pés e isso confirmou o que estava pensando. Suas sobrancelhas estavam chamuscadas e a raposa comunicou ser capaz de sentir um leve cheiro de algo queimado escapando dele – não seria difícil lograr vitória sobre o antigo rei das fadas.

– Eu quero saber de tudo – disse a capitã sem se dar ao trabalho de cumprimentar.

Oberon gaguejou por um instante e respondeu:

– Como eu poderia saber do que a senhora está falando?

– Ele está tentando nos enganar – disse Shaitiri. – Está com medo do que você pode fazer com ele. Sua irmã esteve aqui ontem e em companhia de um humano. Foi realmente ela quem causou danos por aqui, usando seus poderes.

As cores fugiram da face do livreiro. Tudo o que Rayla precisava fazer era esperar que ele começasse a ceder informações. Poderia até mesmo dar um incentivo a ele.

– Vamos fazer o seguinte... – começou Rayla – eu te ajudo e você me ajuda. Diga tudo o que eu preciso saber e eu não te prendo e nem mesmo abrirei um inquérito sobre o seu tráfico de fadas para o mundo humano, cassinos ilegais, sonegação de impostos. Mamãe não gosta nem um pouco das pessoas que sonegam impostos, porque assim como ela, eles são uma das únicas certezas na vida, Obie.

Oberou passou a mão pela testa e respondeu:

– Eu disse que Josephine, a rainha dos ratos, tinha o segundo nome. Ela estava com um garoto da cidade. Eles já conseguiram o primeiro nome e... o garoto é o escolhido, os sinais são claros nele.

Rayla lamentou isso, estava atrasada. Essa visita não lhe acrescentara muitas informações úteis, mas a única que providenciara era o bastante para colocar o batalhão em alarme. Estava na hora de pedir reforços – tudo ficaria um pouco mais complicado. O primeiro de tudo seria conseguir uma quebra de sigilo da irmã, afinal, um dos benefícios em ser filha da morte era ser invisível aos rastreadores de aura. Descobriria o paradeiro de Ive e então faria uma visita.

– Lamento não poder ajudar mais – disse Oberon.

– Não se preocupe, sua ajuda foi valiosa. E o nosso acordo permanece.

– Agradeço muito a sua bondade, senhora.

– Não agradeça.

Fez um sinal para que Shaitiri a acompanhasse. Precisava colocar algumas medidas em ação. Saíram da loja e fizeram o mesmo trajeto pelo qual vieram. Shaitiri concordou com o plano proposto e sugeriu algumas opções caso algo saísse diferente do previsto.

Antes de alcançarem as ruas, porém, Rayla fez outra nota mental. Uma viatura seria enviada para prender Oberon e atirá-lo na prisão mais distante que poderia imaginar, onde nem mesmo um verme se arriscaria a se arrastar. Essa era a punição merecida por alguém que entrega um dos nomes do gato para uma garota. Era preferível que ele deixasse que cada livro de sua loja queimasse até as últimas páginas do que deixar que algo assim ocorresse. Chutou uma lixeira para aliviar a raiva e saiu do mercado. Tinha que afastar o garoto da irmã o mais rápido possível.

Afagou a cabeça de Shaitiri e saiu sem olhar para trás.