A Morte é Legal
Capítulo QUINZE
Como descobrir um bom lugar para comer sanduíches de pepino.
O olhar vagava. Não tomou atitude imediata. Os sentidos, ocupados com a experiência do choque, aquela erupção de novidade que vinha de encontro à pele. Estava num mundo novo –– literalmente. Paisagem que se abria diante do garoto e lhe provocava um amálgama de familiaridade e estranhamento.
– Seja bem-vindo à Cidade de Hoon, Andy. Bem-vindo ao mundo das fadas – disse Ive.
O vento soprava como se estivesse anunciando que o verão abandonara aquele lugar e o inverno estivesse apontando no horizonte. O céu estava cinza e fez com que o garoto se lembrasse de sua cidade natal. Silêncio.. As ruas, amplas e asfaltadas, tinham mais rachaduras do que deveriam e as árvores tinham mais galhos do que o esperado. Casas e prédios velhos em ruína, tinham cores em tom pastel e já estavam descascados em sua maioria, sendo que pichações ocupavam grandes partes de tudo. A arquitetura tinha muitos detalhes e grandes estátuas de animais estavam à vista.
– Eu corri por um túnel infestado daquelas... coisas – Prozy começou a dizer –, apenas para ver esse monte de entulho? Se eu quisesse observar o vácuo bastava uma trepanação em algum de vocês.
– Ive, eu mal posso acreditar – disse Andrew em voz baixa e ignorando a coelha. – Eu nunca pensei que isso pudesse existir.
A garota bagunçou os cabelos dele e sorriu enquanto começava a dar os primeiros passos. Andrew notou que ela ainda sentia o ataque do gubbinal e deixou que se apoiasse em seu braço. Pensou na garota e em como era fácil esquecer quem ela era de verdade. A contenda entre sua mente e seu coração: Tinha empatia por ela e talvez estivessem se tornando amigos, mas no fim ela continuava a ser a filha mais nova do maior medo humano.
Andavam com passos cautelosos. Andrew olhava ao redor em busca de algum movimento, mas nada surgia. Seus passos produziam os barulhos. Observou Ive levar os dedos até a boca e dar um assovio alto que correu pelas ruas.
– O que você está fazendo? – perguntou ele.
– Avisando que estamos aqui – disse ela olhando ao redor. – Não encontraremos a casa de Mirtza Sosostriz sem ajuda.
Sem resposta. Caminharam até uma estátua de girafa em tamanho real e sentaram-se aos pés dela. Prozy soltou um longo suspiro e comentou: ter vindo até aqui não vai levar a coisa alguma e vocês sabem que estou certa.
Andrew não respondeu o que ela disse, mas lá dentro de sua cabeça o mesmo pensamento começava a se formar. E se não houvesse mais ninguém na cidade? Como poderia voltar para a casa? A pequena euforia por estar no mundo das fadas sendo trocada por ondas de medo que chegavam cada vez mais fortes à praia. Tentou não dar voz a todos os pensamentos de insegurança que surgiam, falhava tragicamente. Crispou os punhos. Olhou para Ive e notou que ela estreitava os olhos e deixava que um pequeno sorriso se colasse ao canto dos lábios. Sim, pensou Andrew, talvez ela esteja perdendo a razão... Ou talvez nunca tivesse tido.
– Por que você está sorrindo desse jeito? – perguntou.
– Temos companhia.
Andrew prestou atenção e escutou o som de vozes e sininhos tocando cada vez mais próximos. O trio ficou olhando na direção do som e viu silhuetas ganhando forma ao longe. Um grupo de crianças em bicicletas vinha em alta velocidade e fazendo barulho. Contou cinco delas. Não sabia se aquilo era uma coisa boa ou ruim. E se fossem canibais ou coisa parecida? O grupo não levou mais do que dois minutos para se acercar deles e estacionar a alguns metros de distância.
– Fiquem onde estão, coisa estranha e moça bonita – disse o garoto ruivo que parecia ser o líder.
– Só para constar, ele se referiu a você, Andrew – murmurou Prozy.
O jovem olhou com desprezo para a coelha aos seus pés.
Um bando de crianças esfarrapadas e estranhas, todas na faixa dos dez anos de idade. Havia o garoto ruivo com sua jaqueta larga demais para o seu tamanho e óculos de aviador. Um outro de olhar perdido e que carregava livros na cesta da sua bicicleta. Duas garotas – uma loira e outra de cabelos castanhos, sendo a primeira tímida e a segunda de olhar feroz. E um garoto encorpado que apontava um estilingue para o trio.
– Você acha que eles vieram de... lá? – indagou a garotinha loira.
– É o que vou descobrir agora, camarada Nina – disse o líder e logo em seguida ergueu o braço e fez um gesto.
Fique calmo e não faça nada, disse Ive. Andrew fez esforço para obedecer e teve mais dificuldade ao ver dezenas de outras crianças saírem às janelas com arcos e flechas e estilingues apontados. Estiveram observando durante todo o tempo. Murmúrios se espalharam em todos os cantos. Latas sendo batidas e gritos e berros de todos os tipos, mais de duzentas crianças em algazarra. Nós somos as crianças de Hoon, disse o líder ruivo, e nós não gostamos de gente grande.
– Não queremos briga – começou Andrew – estamos apenas procurando uma pessoa. Mirtza Sosostriz, você a conhece?
– Sim, eu conheço a feiticeira... – virando-se então para o garoto dos livros, disse: – Horatio, eu quero que olhe bem para eles e me diga o que são... Hum, grandes, mas não parecem ter vindo do Outro Lado.
Viram o garoto dos livros pegar uma enciclopédia no seu cesto e folhear avidamente pelas páginas até se deter em uma e concentrar-se numa leitura qualquer. Andrew preferiu não comentar que estava de cabeça para baixo. Uma criança pediu a outra que fizesse silêncio até que todo o lugar ficou numa paz tensa enquanto aguardava as palavras do pequeno conselheiro Horatio. A resposta veio numa voz tremida e oscilante:
– Caro líder, Yorick Cabeça-de-Chiclete-Doido, eu pensei muito nisso e só posso afirmar uma coisa... Eles são, hum... kookies.
Houve uma lufada de ohs e ahs e comentários do tipo “eu sabia desde o início” ou “eu conheci uma pessoa que tinha um desses no porão” se espalharam de um para outro feito vírus. Andrew não sabia se deveria sentir-se embaraçado ou divertido.
– Kookies, meus bons camaradas – continuou o sábio Horatio –, são bichos estranhos, não são gente de verdade como nós, mas nem crescidos feito as coisas que moram do lado de lá. É um problema de má formação no sangue e nos miolos. Eles ficam no meio do caminho, e não sabem se sobem ou descem. Triste.
Ive largou o braço de Andrew e deu um passo adiante, se inclinou até que seus olhos pudessem encontrar os de Yorick, e com a mão estendida, disse:
– Não somos do outro lado. O meu amigo ali é de outro lado e eu sou de um terceiro ainda. Leve-nos até Mirtza Sosostriz, iremos embora logo em seguida. Juro por uma barra de chocolate.
As outras crianças continuavam observando cheias de curiosidade. Yorick coçou a cabeça e por fim aceitou a mão da garota, dizendo:
– Esse é um juramento sério, moça do cabelo engraçado. Eu levarei vocês até a bruxa. Se Horatio, o mais inteligente da tribo, disse que vocês não são de lá, está tudo certo. Sigam-me.
As crianças voltaram a berrar e a correr de um lado para o outro. Quando os intrusos deixaram de ser entretenimento, foram se dispersando e formando grupos para se perderem na cidade e continuarem a se comportar de forma malcriada. Era como se fossem incapazes de prestarem atenção por muito tempo numa mesma coisa.
– Obrigado – disse Andrew.
– Sem necessidade de agradecer, irmão-médio. Yorick Cabeça-de-Chiclete-Doido dispensa esse tipo de coisa.
Foram caminhando pelas ruas agora barulhentas. As crianças iam empurrando suas bicicletas e nesse intervalo Andrew descobriu o nome das crianças restantes. Pirrip era o garoto forte e braço direito do líder. Mary, a garota de cabelos castanhos, criara inúmeras máquinas estranhas, como um sistema de alarme feito de cata-ventos. Andrew também ficou sabendo que eles se mantinham através de furtos em cidades vizinhas e nas estradas usadas pelas fadas e pessoas grandes. Ive conversava com Horatio e Prozy era abraçada e apertada por Nina e Mary – que não ligavam muito para as reclamações desta.
– E o que tem do lado de lá? – perguntou quando passavam por uma velha ponte de madeira.
Yorick tinha uma expressão que misturava nojo e raiva. É uma cidade horrível chamada Yoknapatawphaa Jr., disse ele, é lá que vive o povo grande e eles não prestam, são lixeiras que andam. Querem nos ensinar a ler, escrever e a falar apropriadamente.
Andrew, que não conseguia aceitar que ler e escrever e falar corretamente fossem coisas ruins, tentou argumentar em tom apaziguador:
– Aprender ler e escrever não deve ser tão ruim assim, seu amigo Horatio é um bom leitor.
– Horatio é diferente. Você não pode deixar os homens grandes tomarem as coisas que são suas. O respeito e a tal educação que eles oferecem não passam de enrolação. Eles querem que sejamos obedientes e isso, senhor, não é direito. Não dormimos nas horas deles e comemos doces quando temos vontade, entende, irmão-médio? Não queremos expandir nossos traseiros em cadeiras duras para aprender a tal matemática.
Andrew foi seguindo o pequeno líder enquanto observava tudo o que havia ao seu redor. Tomava notas mentais e deixava que o ambiente impregnasse em seus poros. Olhou para Ive que lhe lançou um grande sorriso e mostrou as flores estranhas que nasciam numa árvore qualquer. As crianças faziam guerra com balões d’água e o jovem era obrigado a se desviar. Se alguém perguntasse a um professor ou a uma babá como seria o Inferno na concepção deles, provavelmente a resposta retrataria alguma coisa bem próxima da Cidade de Hoon e suas centenas de crianças hiperativas. Passavam por sobre uma ponte de tijolos amarelos quando uma garotinha chegou e entregou uma maçã a Andrew. Isso significa que ela gosta de você, comentou Yorick Cabeça-de-Chiclete-Doido. Talvez e apenas talvez, nem tudo fosse ruim, pensou Andrew e mordeu a maçã.