A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 50 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo QUARENTA E CINCO

Sr. Pym, uma bomba destruiu parte do navio, posso tentar usar um

chiclete para consertar?

 

O mundo começou a desmoronar quando batidas soaram na porta. E continuaram, fazendo com que um segundo fosse se esticando infinitamente, prestes a arrebentar a qualquer minuto. Andrew olhou para Ive e deixou que todo o medo que sentia fosse posto em evidência. O que faremos agora, perguntou, a beira de um colapso. Ela não soube dar nenhuma resposta. As batidas na porta continuaram.

– Abra a porta, Ive, eu sei que você está aí – disse Rayla por atrás da porta.

Andrew sentiu um calafrio ao escutar a voz da irmã de Ive pela primeira vez. Havia algo naquele timbre que fazia com que sua mente fervilhasse com múltiplos medos. Astrophel já havia feito um estrago grande para uma vida inteira, não gostaria de passar pela experiência mais uma vez. A garota mordia os lábios e passava a mãos pelos cabelos à procura de uma solução. Novas batidas na porta.

– Já estou indo, um segundo! – gritou a garota.

Ive levou Andrew até o sofá e fez com que se sentasse. Eu preciso que você preste muita atenção nas minhas palavras, Andy, disse ela, vou usar um feitiço de invisibilidade sobre você, mas ele só vai funcionar enquanto você ficar imóvel, por isso, enquanto Rayla estiver aqui, você não pode fazer nada, entendido?

Andrew assentiu com a cabeça, as ondas de medo ficando maiores. Não poderia aceitar que tudo desse errado agora, quando algo existia entre ele e Ive, deixando Briony em segundo plano pela primeira vez em anos. Ive colocou a mão em sua testa e, com uma série de palavras ininteligíveis, fez com que um frio súbito subisse dos seus pés até a ponta da cabeça. Estava desaparecendo!

– Não se mexa, por favor – disse Ive, e beijou sua bochecha.

A porta foi aberta e passos se fizeram ouvir. Forçou-se a permanecer quieto e até mesmo com a respiração tão leve quanto era capaz. Palavras foram trocadas, mas não conseguiu distingui-las. Escutou o rosnado do que pensou ser um cão ou animal parecido.

– Você demorou a atender – disse a voz calma da visitante.

– Eu e Prozy estávamos assistindo TV. Você deveria assistir esse desenho, tem um cachorro mágico e uma princesa vampira que canta.

– Não gosto de televisão, é uma ferramenta para deixar as pessoas burras.

– Você continua tão sem graça quanto sempre. Como está mamãe?

– Ela sente a sua falta, assim como eu. O mundo espiritual está agitado nos últimos dias. Nossa mãe decidiu privatizar parte da mineradora de ectoplasma para um grupo de investidores nórdicos – fez uma pausa. – Espero que esteja gostando do mundo humano, tive um período bem agradável em minha estadia aqui.

Foi somente nesse instante que as irmãs entraram no seu raio de visão. Rayla – vestida com a farda preta da D.I.E – tinha um pequeno sorriso no rosto e caminhava lentamente pela sala, parando aqui e ali para observar qualquer coisa que chamasse a sua atenção. Ela parecia desconfiada e Andrew tinha a impressão de que o olhar dela acabava sempre sobre o ponto onde ele estava. Seria ela capaz de enxergar além da magia de Ive? O mais difícil, contudo, foi não se mexer ao ver uma raposa de várias caudas farejando cada parte do apartamento, chegando cada vez mais próxima dele. Ive coçou a cabeça e, desajeitadamente, perguntou:

– O que você está fazendo aqui? As regras dizem que você não poderia se encontrar comigo durante este período.

Rayla se dirigiu ao sofá e Andrew sentiu como se a força da gravidade estivesse invertida. A mulher de cabelos vermelhos sentou-se calmamente, com a mão a menos de um centímetro da sua. Ela usava um perfume que fazia com que ficasse com vontade de espirrar. Tentou ignorar aquilo. O que não era uma missão fácil e nem agradável, feito uma aula de álgebra. Bukowski. Pensou em Charles Bukowski para tentar se distrair da vontade de espirrar e coçar o nariz – velho, encarquilhado e com a barba mais feia que um bêbado pode ter. Considerado um autor obsceno e de segunda linha para alguns, era, para Andrew, uma espécie de herói dos desajustados. Sua narrativa absurdamente real e direta era um de seus objetos de inveja como escritor. Deixou que os personagens do velho Buk passeassem pela sua cabeça, trechos de poemas e frases aleatórias.

– Estou investigando um caso – disse Rayla. – Houve uma pequena confusão num dos departamentos e isso acabou indo parar na minha mesa. Um passarinho que você ressuscita e todos os hamsters do além entram com petições para uma segunda vida. O Departamento de Animais de Pequeno Porte já enfrenta muitos problemas com os peixes de estimação, como você sabe. Por que você fez isso, irmãzinha?

Um alarme soou dentro de Andrew. A mulher finalmente estava começando a colocar suas cartas sobre a mesa. Viu os lábios de Ive se comprimirem num fio e uma expressão de raiva contida surgir em seu rosto. Porque eu gostei das cores, respondeu ela bruscamente. Rayla pareceu ignorar o tom da irmã e simplesmente sorriu.

– Apenas isso, Ive? Não existe mais nada que queira me contar ou alguém sobre quem deseja falar? Um garoto, talvez?

– Eu não tenho nada para contar. A raposa saberia caso eu estivesse escondendo algo. Não é isso o que ela faz, lê mentes?

Rayla riu como se houvesse acabado de escutar a piada mais engraçada do mundo.

– Pare com esse teatro, eu e você sabemos que Shaitiri não consegue enxergar nada com Prozy por perto. Admito que esse seja um lance inteligente para alguém que estivesse planejando fazer algo ilegal.

Andrew podia ver nos olhos de Ive que a garota estava sendo encurralada. Agradeceu mentalmente a coelha. Se não fosse por ela, o feitiço lançado por Ive não teria tido utilidade nenhuma. Prozy e a raposa se encaravam com antipatia. A capitã da D.I.E se levantou após alguns instantes, caminhou até a irmã e tomou-lhe a mão.

– Eu não tenho nada para lhe contar – repetiu Ive.

Existe a história de que durante o julgamento de Joana D’arc, um dos presentes fez a seguinte anotação acerca de uma das respostas da guerreira: péssima resposta. Andrew teria escrito a mesma coisa com relação a Ive naquele momento. Algumas palavras devem ser trancadas, dribladas e ocultadas, de forma que em hipótese alguma, sejam proferidas. Houve um som de algo que se partia. Também houve o grito incontrolável de Ive. Andrew sentiu-se da forma como Al Collins descrevera seus sentimentos com relação à morte de Charlie Parker: como se tivesse sido empurrado do topo de uma montanha e tentasse parar durante a queda. Rayla acabara de quebrar o indicador da irmã. Prozy tentou correr em direção à garota, mas foi impedida por Shaitiri, que a mordeu e atirou do outro lado da sala. Ive caiu de joelhos e seus gritos pareciam rasgar sua garganta.

Andrew sentia algumas lágrimas lutando para surgir. Nunca sentira tanta agonia em toda a sua vida, o sentimento de impotência diante da situação. Precisava lutar contra o impulso de saltar no pescoço de Rayla e atirá-la pela janela.

– Tão errado, tão errado – disse Rayla. – Você não deveria mentir para mim. Sua brincadeira já prejudicou muita gente. Conversei com algumas pessoas e elas já me disseram tudo o que eu precisava. Mirtza Sosostriz está morta por causa disso e Oberon foi atirado numa cela para apodrecer longe da vista de todos. Era isso o que você desejava?

Andrew lamentou pela bruxa e por Oberon. A culpa pelo que acontecera a eles também era sua e não havia nenhuma reparação para isso. Ive chorava e soluçava como rosto pálido e assustado. Gostaria de ser capaz de se levantar e fazer com que Rayla engolisse cada uma de suas palavras, mesmo que à força. O que ela estava fazendo era errado. Rayla balançou a cabeça em negativa e disse em voz baixa:

– Isso é uma coisa bem humana chamada dor, entenda como parte do aprendizado. Seu indicador está quebrado. Eu tomei seu poder de cura, essa é sua punição por mentir. É melhor procurar um médico logo.

Observou Ive se levantar e segurar Prozy com a mão boa, Shaitiri rosnou e foi completamente ignorada pela garota. O que você vai fazer comigo, perguntou Ive, me jogar no Inferno como fez com Kivian? Porque é só isso o que você sabe fazer, irmã, vigiar e punir, como você consegue se olhar no espelho? Era a primeira vez durante toda a conversa em que Andrew via uma rachadura no mar de calma da irmã mais velha. O semblante se transformou numa carranca de incômodo e ela cruzou os braços.

– Não fale sobre o que você não sabe. Kivian não é a sonhadora incompreendida que as pessoas pensam. Ela estava errada e está pagando por seus crimes. – Após uma pausa, acrescentou – Ive, eu sei que você está procurando os nomes do gato e que envolveu um humano nisso. Está seguindo os mesmos passos de nossa irmã e isso vai apenas fazer com que você tenha o mesmo destino... Não quero mandar outra irmã para o Inferno, mas acredite, eu vou fazê-lo se precisar.

Sentiu que as irmãs estavam a um passo de se agredirem num nível mais baixo e isso o fez se perguntar por quanto tempo seria capaz de permanecer quieto. Suas pernas começavam a ficar dormentes e a ponta de seu nariz continuava a coçar. Ive engoliu o choro, começou a rir e murmurou:

– Você deve odiar, não é? Que a mamãe tenha me escolhido para substituí-la e eu dê as costas para aquilo que você mais deseja – o tom de exasperação se impregnava mais fundo ao tom da garota. – Eu, a filha desengonçada e sem habilidades, sendo melhor que a maravilhosa Rayla, a capitã da D.I.E.

– Ive, sua idiota mimada. Lamento, mas nós temos deveres e responsabilidades das quais não podemos fugir. A minha é cuidar da D.I.E e a sua é se tornar a próxima Morte. Aceite isso e deixe de perder o meu tempo e o seu. Você pode não querer escutar, mas essa é a verdade.

Andrew viu a ruiva se aproximar da irmã. Colocou a mão sobre a cabeça dela e fez um leve carinho. Tire as patas de cima dela, pensou cheio de raiva. Ive permanecia em silêncio e as lágrimas desciam pelas faces como um rio. A irmã ajeitou sua boina e caminhou rumo à porta; seus sapatos faziam barulho e puderam ser ouvidos mesmo depois que ela fechou a porta atrás de si. Prozy afundou o rosto de encontro a Ive e as duas ficaram lá. O garoto não conseguia deixar de pensar em como havia um esvaziamento em Rayla que a permitia ser tão cruel apenas para “fazer a coisa certa”. Como ela poderia saber que não estava cometendo um deslize descomunal?

Num salto, foi do sofá até onde Ive estava e a abraçou o mais forte que podia. Todos os pensamentos do mundo estavam em seu encalço, embaralhados, sem lhe ensinar como agir ou o que dizer. A felicidade de instantes atrás havia dado lugar a uma coisa azulada, uma gota de orvalho que evaporou com a chegada de um sol negro. Ive continuava a chorar, soluços abafados contra seu peito. Ninguém disse nada, jovens não sabem o que dizer às vezes. Quando um sentimento novo se infiltra entre eles e não há um nome para isso. É como experimentar uma laranja pela primeira vez ou tentar explicar as cores para um cego. Estava além do que as palavras podem descrever. E assim, nessa intimidade muda que cerca os assustados, o trio ficou abraçado enquanto os acontecimentos ruins encontravam assento no anfiteatro das lembranças.