A Morte é Legal
Andrew
O garoto esperou que o mundo derretesse a qualquer segundo. Vinha pensando isso desde que a busca pelos nomes chegara ao fim, infelizmente, tudo continuava sólido – dentro e fora. Sendo assim, permanecia trancado em seu quarto tendo um exemplar de Jimmy Corrigan, um filme de Sofia Coppola e um disco do Sunny Day Real Estate como opiáceos. Permanecia mergulhado num limbo sentimental onde tentava se esquecer dos últimos meses e de cada visão que tivera, mas isso se provava difícil: o cheiro de Ive estava em sua cama, os livros que emprestara a ela ainda exibiam as marcas do manuseio errado e as fotos que tiraram juntos ainda estavam no mural de seu quarto. As memórias precisavam ser postas de lado até que pudesse lê-las com olhos distantes, assim era com as histórias que escrevia e os acontecimentos dos últimos dias. Finalmente era capaz de entender certa canção do Mineral sobre querer saborear uma vitória, mas ter a boca permanentemente seca.
Escutou a porta do quarto de Amber bater, mal havia conversado com a irmã nos últimos dois dias. As coisas deviam estar sendo difíceis para ela, além de ter passado por tudo aquilo, a perda do melhor amigo estava gravada em cada gesto seu. Gostaria de poder ajudá-la, mas sentia-se incapaz de fazer isso quando não conseguia apoiar a si mesmo. Mesmo se o mundo estivesse acabando, o máximo que poderia fazer era observar. Era inacreditável que Ive o tivesse usado desde o início e que não se importava com ele.
Levantou-se da cama e decidiu que precisava sair de casa, comprar um livro que não iria ler ou coisa parecida. Pegou um cachecol e calçou seus tênis vermelhos, estava chovendo lá fora, mas não se importava com isso. Colocou um casaco e saiu dali, atravessando a casa muda até ganhar a rua. Foi seguindo sem prestar muita atenção nos carros que buzinavam e nas pessoas que passavam com suas sacolas e vidas, sem nem imaginar que havia outro mundo se escondendo em cada parte de Dresbel. Então, isso é ter o coração partido, pensou, um ruído no canto da mente durante todo o tempo. Enxergava mechas verdes em qualquer garota, escutava a risada dela na televisão e nas esquinas, tinha a impressão de que todas as meninas tinham algum traço da filha mais nova da Morte. Seus pensamentos transformavam-na em uma paráfrase de Charles Dickens: Ive foi a melhor das garotas, foi a pior das garotas.
Às vezes com quem eu amo, eu me enraiveço, pois temo a indiferença:
Mas agora eu penso que não há amor sem resposta – o pagamento é certo de uma forma ou de outra;
(Eu amei ardentemente e meu amor não foi correspondido:
E mesmo assim, escrevi essas canções.) [1]
A livraria Shakespeare e Amigos – 221B ficava a quinze minutos de sua casa. Riu ao imaginar o que o bardo pensaria dessa homenagem. Era uma loja antiga, propriedade de um velho que passava seus dias ouvindo músicas antigas e falando sobre autores que ninguém lia. Andrew entrou e não conseguiu evitar pensar em como aquele lugar parecia pequeno e sem graça quando comparado com a livraria de Oberon: não haveria uma edição de Onde Vivem os Monstros comentada por Lewis Carroll em nenhuma das prateleiras, assim como o luxuoso exemplar de O Sol é Para Todos ilustrado por Sir John Tenniel nunca seria visto pelos frequentadores daquele estabelecimento.
Já estava saindo quando ouviu:
– Olá, Andy.
Reconheceu a voz já na primeira sílaba. Virou-se lentamente e sorriu para Briony, que carregava o estojo de seu violino numa mão e um livro de partituras na outra. Olá, respondeu forçando um sorriso, já está indo embora?
Briony balançou a cabeça negativamente. Era interessante notar como ela parecia menos atraente do que antes e seu sorriso não parecia fazer efeito sobre ele. Talvez, seu amor por ela seja como o mar que foi até a costa e depois voltou para onde veio – um fluxo e refluxo sentimental.
– Não, vim comprar um guia de viagens – respondeu ela. – Eu vou me mudar para os Estados Unidos em breve, estudar música na Juilliard.
– Bem, esse sempre foi o seu sonho, não é? Espero que dê tudo certo – olhou para o relógio e completou: – Eu estou atrasado para um compromisso, Bri, mas, prometo ligar para nos despedirmos direito, certo?
A garota sorriu e lhe abraçou. Conversaram um pouco mais e tomaram caminhos distintos após afirmações de que nunca perderiam contato ou de que seriam sempre amigos. Andrew não se lembrou de perguntar quando ela iria embora e o número de telefone da casa nova.
Tomou uma rua qualquer e seguiu direto até a Praça Benjamim W. Talvez o encontro com Briony o tivesse levado até aquele lugar, afinal, tudo começara ali no dia do aniversário dela. A chuva havia afastado a maior parte do público naquele fim de tarde. Os idosos que praticavam ioga não estavam em nenhum lugar para serem vistos, assim como as crianças que costumavam brincar com seus cães. Sentou-se num dos bancos cobertos e fez um esforço considerável para sobreviver à primeira página de O Longo Adeus. Sua mente simplesmente não se prendia à narrativa de Raymond Chandler e seu detetive Philip Marlowe. Avançava um parágrafo inteiro apenas para descobrir que não entendera nada. Os pombos gordos que faziam barulho ao seu redor também não serviam de ajuda. Ficou olhando para o lago e as estátuas. Talvez o pai estivesse certo e o seu caminho na vida fosse realmente encontrar um emprego e dedicar-se a ele pelo resto de seus dias. Não era nem mesmo um bom escritor, nunca terminara nada do que começara e A Violinista de Fevereiro era mais um fracasso para contar. Não escreveria nunca mais, nem uma palavra sequer. Por que insistir quando via claramente que não tinha a disciplina ou o talento requerido pela tarefa?
Ainda estava tomado por esses pensamentos quando viu uma figura atravessando a extensão da praça com passos curtos e cabeça baixa. Seu corpo foi tomado por uma febre súbita e todos os cacos de vidro se afundaram ainda mais dentro do peito. Ive caminhava por ali. Pensou em sair correndo e voltar para casa, mas não seria possível, ela o olhava diretamente agora.
Fechou o livro e aguardou até que a garota estivesse perto o bastante. O rosto dela parecia cansado e exibia olheiras escuras, estava vestida de forma menos elegante do que o normal, com jeans e uma jaqueta de vinil.
– Aí está você – disse ela.
– Aqui estou.
– Tenho vindo aqui na esperança de te encontrar, não queria ir até sua casa.
– Já encontrou. O que você quer, me sacrificar para o deus alienígena da semana?
– Não faça isso, por favor, não me afaste desse jeito. Andy, você precisa saber que eu realmente gosto de você. As coisas nem sempre são claras, mas isso pelo menos é. Eu deveria ter contado antes, mas eu simplesmente não queria perder você.
Andrew olhou para a garota em silêncio. Ainda estava bravo com ela, mais do que já estivera com qualquer pessoa em toda a sua vida. Apesar disso, o outro lado também era verdade: amava-a como nunca fizera antes e isso fazia com que os tijolos do muro que construíra ao seu redor caíssem. Gostaria de se levantar e gritar – mostrar a ela, de dentro de seu orgulho ferido – como se sentia; ao mesmo tempo, desejava abraçá-la e dizer que estava perdoada, pedir para que nunca fosse embora. O curso de sua vida seria decidido por suas próximas ações. Era como em Hamlet: o príncipe da Dinamarca perdia tudo justamente por não ter sido um homem de ação e pensar demais, ao contrário de Fortimbrás, o guerreiro que tomava as rédeas de sua própria fortuna.
– Ive, você sabe por que eu sempre uso um cachecol? – perguntou.
A garota não respondeu.
– Quando eu era criança minha mãe costumava dizer que fora de casa estava frio e que eu deveria me agasalhar, ficar protegido. Eu acho que desde então eu uso um cachecol para todas as coisas na minha vida, entende? Você é a única pessoa que já me viu sem um e foi terrível descobrir que eu poderia estar errado sobre uma pessoa em quem eu confiei tanto.
– Andy, eu... – ela começou a dizer.
– Não fale nada. O que eu quero dizer é... Eu acredito em você, Ive. Eu não quero usar um cachecol para sempre e espero que você esteja comigo para me esquentar quando estiver nevando. Eu não quero que você saia da minha vida. Se eu não conseguir perdoar a pessoa que eu amo, talvez a minha vida não faça mesmo muito sentido.
A garota o abraçou com força e ficou ali por um longo tempo. Ive segurou seu rosto e disse:
– Isso é tudo o que eu preciso, docinho de tinta. – Sua voz ficou embargada ao continuar – Andy, eu volto para o mundo espiritual essa noite, foi o prazo que Rayla deu para me despedir de você. Tudo o que eu precisava era saber que estava perdoada. Acho que agora eu entendo a razão desse intercâmbio.
– Não me abandone jamais.
– É como O Pequeno Príncipe, querido – eu parecerei estar morta, mas não será verdade. Esse corpo não estará com você, será uma casca vazia. Eu estarei com você durante cada minuto, em cada pensamento e lembrança. Durante todo o tempo em que você se lembrar que eu te amo, eu vou estar ao seu lado, estragando seus livros, arranhando discos e rindo do seu penteado.
Andrew abraçou a garota e deixou que as palavras dela entrassem em cada milímetro de sua pele. Não queria falar mais nada. Precisava ficar ali, naquele minuto que era o último e ao mesmo tempo era infinito. Quando pensasse nela futuramente, não seria ali, quando se despediam um do outro num abraço sem palavras, isso se tornaria irrelevante com o passar dos anos. Iria preservá-la de outra forma: a garota do sorriso diferente que gostava de sorvete e palavras engraçadas, o rosto que fazia caretas e as mechas verdes que pendiam de um lado para o outro quando caminhava.
Numa praça de Dresbel os dois jovens se conheceram e o garoto se tornou mais ridículo do que qualquer outro jamais fora.
Shanti.
FIM DO QUARTO E ÚLTIMO PERÍODO DAS ESPERANÇAS DE ANDREW
[1] Poema de Walt Whitman – “Sometimes with One I Love”.