A Morte é Legal
Capítulo QUARENTA E QUATRO
É isso o que vampiros trípliticos fazem em suas noites de folga,
brincam de nos costurar.
Andrew sentia como se uma baleia-azul houvesse acabado de rolar por cima de sua cabeça. Abriu os olhos com dificuldade. O lado de seu corpo doía e sua boca estava seca. Deixou que seus olhos se acostumassem à semiescuridão e tentou compreender onde estava. Um quarto pequeno de paredes roxas e estrelas fluorescentes no teto, também havia bichos de pelúcia espalhados, assim como livros e discos. As cortinas estavam parcialmente cerradas e tinham desenhos de dinossauros amarelos.
As lembranças da Cidade dos Ratos e o confronto com Astrophel vieram até sua mente em pequenos lampejos – tudo parecia enevoado, distante. Imaginou se tudo não havia passado de um sonho.
Durma, durma, bela luz,
Sonhando com as belezas da noite;
Durma, durma; em teus sonhos
Poucas tristezas sentam e choram.
Os versos de Blake passaram pela sua cabeça, uma das primeiras poesias que guardara em sua vida. Andrew levantou-se com dificuldade e notou que estava vestindo roupas diferentes. Foi em direção à porta, os pés se arrastando pelo chão. Não demorou em descobrir onde estava. A sala era espaçosa e parecia ter sido decorada por uma criança de cinco anos de idade. Vários pôsteres de filmes e desenhos, paredes rabiscadas de cima a baixo com giz de cera e potes de sorvete espalhados pelos sofás – onde num deles, Ive assistia Adventure Time repetindo as falas.
– Bom dia, Rip Van Winkle – disse ela sem tirar os olhos da TV. – Você dormiu bastante.
– Quanto tempo?
– Dois dias. Não se preocupe. Seu pai e sua irmã nem vão notar, lancei uma magia de esquecimento temporário neles.
– O que aconteceu? – perguntou.
– O de sempre, você dando trabalho – respondeu Prozy de boca cheia, vinha da cozinha arrastando uma cenoura.
Andrew sentou-se ao lado de Ive, que colocou seu cereal sobre uma mesinha de centro e olhou para ele, dizendo:
– Andy, você estava muito machucado, Astrophel fez um belo trabalho. Eu precisei usar grande parte dos meus poderes para te salvar – o suficiente para não lutar de igual para igual com ele da próxima vez.
– Obrigado por salvar a minha vida.
Prozy bufou:
– Não que ela vá fazer mais sentido agora, sua vidinha continuará sendo um tédio... Até você morrer de vez. E aí, sua não-vida vai ser tão chata que seus olhos explodirão pelas orelhas.
– É bom ver que você está de bom humor, sua coelha idiota – falou Andrew.
O garoto andou um pouco pelo apartamento, foi até a janela e ficou a observar. Dresbel havia adquirido novos significados nos últimos tempos. Agora sabia que ninguém estava sozinho de verdade – se até mesmo os esgotos serviam de abrigos para um povo, o que poderia existir em outros lugares? Tocou o lugar onde Astrophel o apunhalara. Ainda doía um pouco. Podia sentir uma cicatriz debaixo da camisa. Ive se aproximou dele.
– Como você está?
– Estou bem, acho. Apenas pensando que procurar os nomes está ficando mais complicado em todos os sentidos. Eu poderia ter morrido. E por quê?
Ive passou os dedos por entre seus cabelos e respondeu:
– Por Briony, não é isso o que você quer?
– É? – perguntou. –Não sei mais se eu quero isso, ou se vale a pena. Nem mesmo sei se eu a amo de verdade ou se me acostumei a amá-la. E acho que tem outra coisa me deixando em dúvida...
Ive sorriu e segurou sua mão.
– Não se preocupe com isso agora, você precisa comer alguma coisa. Venha, hora de encher a barriga com cereal.
Foram até a cozinha, um lugar onde as paredes estavam desenhadas a lápis de colorir e tinta guache, bonequinhos de papel podiam ser vistos espalhados e a porta da geladeira estava coberta com folhas desenhadas. Era um lugar aconchegante e engraçado. Podia escutar Prozy resmungando alguma coisa enquanto assistia TV.
– Eu sonhei com você essa noite – disse Ive.
– O que aconteceu nesse sonho?
– Você conhece uma garota – respondeu ela – mas ela mora longe, muito longe. E aí vocês trocam cartas...
– Ive, ninguém escreve cartas hoje em dia.
– Eu sei, mas é que são mais românticas – e sonhos não precisam ter uma lógica. Vocês fazem juras de amor eterno, ela faz o desenho do apartamento imaginário de vocês num guardanapo. Até o dia em que você compra uma passagem de avião, superando o seu medo de altura, só para ficar com ela, é Natal e há luzinhas coloridas em todos os cantos.
Andrew riu e perguntou:
– O que acontece depois?
– Nada. Ela chuta seu traseiro dias antes da viagem e você fica todo triste porque a companhia aérea não devolve o dinheiro – passa o resto da vida trancado no quarto, ouvindo música triste e lendo livros longos e chatos.
– Obrigado pela vida alegre e emocionante.
Os dois riram em alto som. A garota foi até a geladeira, pegou uma maçã e colocou um pouco de calda de chocolate antes de morder. O que seria de mim num sonho seu, perguntou ela. Uma pergunta difícil de responder. Nunca havia sequer pensando nesses termos acerca de ninguém. Andrew a observou durante um instante e respondeu:
– Acho que você abriria uma sorveteria numa praia distante, onde você poderia ter uma vista legal e sol – porque acho que isso combina com a sua personalidade. Obviamente, seu negócio iria à falência em menos de um mês porque todo o sorvete seria consumido por você mesma. Humn... Não, acho que isso não é o que eu sonharia. Você ficaria em Dresbel e eu poderia te incomodar todos os dias.
Ive forçou um pequeno sorriso e perguntou:
– Você gostaria disso?
– Minha vida seria menos entediante com você por aqui.
Andrew estava mexendo com um polvo monstro de papel quando ela chegou mais perto e se colocou ao seu lado. Ive olhava para os próprios pés e tamborilava os dedos sobre a pia de mármore. Posso te fazer uma pergunta, disse ela visivelmente constrangida. Andrew foi pego de surpresa pelo tom na voz dela. O fio de brincadeira havia desaparecido e dado espaço para um barulho pouco mais alto que um bater de asas.
– Andy, qual é a outra coisa que te deixa em dúvida com relação à Briony?
As palavras deixaram-no sem guarda. Não, não! Não havia uma resposta certa para aquilo. Em suma, qualquer coisa que dissesse lhe deixaria numa posição desconfortável. Mas tinha de responder. Pareceria tolice, estúpida tolice. O que lhe pedia era impossível. Aquela garota tão diferentemente constituída dele fizera uma pergunta simples e ainda assim, dificílima. Um nó górdio sentimental. Sim, pensou Andrew, erguendo levemente os olhos até ela – o jogo de olhos de pessoas incomodadas, eu não posso me desviar, não mais.
– Você – respondeu num sussurro. – Eu tenho sentido... coisas por você. Notei isso de verdade no show de Briony, quando toda aquela confusão começou e a única coisa com a qual eu me preocupei foi com você. Ou quando Astrophel me acertou e eu pensava em como lamentava não ter te levado na loja de chocolates.
O som do televisor chegava até eles. Os dois jovens ficaram em silêncio, um com os olhos pregados no outro. A face da garota estava rósea e suas pupilas estavam dilatadas. Andrew sentia como se o ar da cozinha estivesse se tornando grosso e respirar fosse uma batalha da qual nenhum dos dois poderia sair bem sucedido. Havia colocado para fora o que estivera por sua cabeça desde que se beijaram no cemitério, agora, sentia essa espécie de medo – ou misto de prazer e medo e indecisão. Ali estava o tipo de timidez que Elizabeth Jennings descreveu em um de seus poemas – que existe somente com aqueles dos quais mais gostamos. O tempo pairava em continuidade suspensa dentro de sua mente. Fragmentos de pensamentos se chocavam, a procura de uma reação. Andrew, pela primeira vez em anos, praticava a autoescuta, prestando atenção em cada palavra que acertava em sua mente, em cada uma daquelas que não tinha coragem de dizer a Ive naquele momento. Como ela podia trazer todos os seus pensamentos dessa forma?
Ive deu o passo adiante que Andrew parecia ser incapaz de dar naquele momento. Os lábios se encontraram lentamente. O ar quente que saía da boca dela alfinetou seu rosto. Suas línguas se tocaram levemente num beijo lento e desajeitado. Existe algo de misterioso num beijo pelo qual houve uma espera, como se ele criasse um novo mundo ou estado da mente onde pedras têm o peso de plumas – algo como eliminar qualquer barreira ou lei e sentido. Que extraordinário, que insensato era se entregar assim pela primeira vez, em guarda baixa, como um soldado que dorme em seu posto, permitindo que ondas leves fossem em jornada por sobre cada centímetro de pele. A sensação de lutar contra o dia. Um calor de febre em seus rostos e os olhos fechados, movimentos inexperientes e mãos trêmulas. O beijo que o nortearia quando desse algum passo, que velaria por ele quando dormisse e com quem conversaria quando acordasse. A lâmpada e a luz. Os dois se encararam e começaram a rir simultaneamente. Ive colocou a mão na face dele e beijou seus lábios mais uma vez. Trouxe-a para perto de si num abraço apertado e deslizou a mão por entre os cabelos dela.
Estavam tão distantes da realidade que só notaram a presença de Prozy quando a coelha mordeu a calça de Andrew em busca de atenção.
– Eu odeio atrapalhar essa cena grotesca... – a coelha começou a dizer. – Mas temos companhia, Rayla está na porta.
O clima foi estilhaçado em mil pedaços e um novo tipo de emoção tomou conta de todos. Andrew já havia ouvido histórias o suficiente sobre a irmã de Ive para saber que estavam encrencados. Segurou a mão da garota e se preparou para adentrar na avalanche.