A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 57 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo CINQUENTA E UM

Eu adoraria saltar de um prédio de oito andares se isso me curasse.

 

As pessoas gostam de listas. Melhores escritores, vinhos, queijos, lugares, hotéis, filmes e assim por diante. Contudo, se existisse uma lista que falasse sobre as melhores músicas para pessoas com agorafobia, Pinkerton, o segundo disco do Weezer, seria o primeiro colocado. O disco com uma das trajetórias mais complicadas da história, sendo massacrado na época de seu lançamento e se tornando um item obrigatório alguns anos depois. Andrew passou toda sua adolescência em dívida com aquele disco por ser a única coisa no mundo a falar exatamente aquilo que ele sentia em cada momento, fosse o fato de não conversar com uma garota por saber que não daria em nada, ou estar apaixonado e descobrir que ela gostava de outra garota. Todas as suas dores estavam descritas nos trinta e sete minutos de duração e na voz de Rivers Cuomo. Entretanto, dessa vez, era outra música do Weezer que melhor lhe representava naquela altura da vida. O nome da música era No One Else e falava sobre como um garoto inseguro desejava uma menina que não sorrisse para nenhum outro cara e que quando não estivesse com ele iria deixar a maquiagem de lado. Esse tipo de pensamento começou a surgir após as coisas com Ive começarem a se tornar mais sérias e passou a notar como os garotos a olhavam quando passava ou tentavam chamar a sua atenção. Andrew já havia lido livros demais para saber que aquilo que sentia se chamava ciúme e que estava sendo ridículo por tê-lo. Não conseguia controlar isso, mesmo que a razão lhe clamasse de joelhos. Tinha a sensação de que todos os garotos queriam roubá-la. Se ela quisesse, um mundo de caras mais interessantes estaria à disposição, bastava ela estalar os dedos. Sabia que Ive conheceria outras pessoas e algumas dessas outras pessoas seriam homens e que alguns deles realmente estariam tentando tomá-la, porém, tinha consciência de que ela o havia escolhido. E no fim, as peças em sua mente não se encaixavam.

Andrew seguia pela rua e tomava cuidado para evitar a chuva como podia. O dia começava a chegar ao fim e centenas de pessoas lotavam as calçadas. Parou um segundo para ajeitar o cachecol e continuou.

Teria sido assim caso estivesse com Briony? Qual era o Iago que abria a porta dos fundos para que esse sentimento entrasse? Passava os minutos em que não estava na companhia dela pensando que alguém estaria tentando seduzi-la naquele instante. E isso fazia com que seu estômago se revirasse. Também fazia com que sentisse vergonha de si mesmo. Um dos personagens de ficção favoritos de Andrew era o Professor Henry Higgins, criado por George Bernard Shaw na peça Pigmaleão. Em determinada altura da história o eminente professor conversa com outro personagem e diz que sempre que se permitia tornar-se amigo de uma mulher, tornava-se egoísta e tirânico. Estaria a mesma coisa acontecendo com ele? Sendo coagido ao ciúme através de sua insegurança? Ora, Ive não é como as outras garotas, pensou, mas, garotos são todos vira latas da mesma rua. Andrew colocou a forma como os outros agiriam da seguinte forma: seriam interessantes e engraçados, começariam a convidá-la para sair e fingiriam ser bons amigos apenas para falar coisas ruins acerca dele na tentativa de fazê-la abandoná-lo para que tivessem uma chance. Era dessa forma que via as coisas em sua mente: todos os homens do mundo apenas desejavam roubar sua namorada. Sabia dentro de si que seria capaz de tratar mal uma pessoa de cujas intenções suspeitasse. Tinha consciência de que era errado pensar dessa forma, mas, como evitar?

Passara tanto tempo absorto em seus pensamentos que mal notou que havia chegado ao seu destino. O Rei do Sorvete estava pouco movimentado e as atendentes caminhavam de um lado para o outro sem muito com que ocupar o tempo. Pareciam cansadas e entediadas. Andrew caminhou até uma delas. Preciso conversar com Tord, disse educadamente, fale que um amigo de Ive o procura. A moça deu de ombros e saiu para chamar o dono. O garoto decidiu sentar-se num canto qualquer e levou algum tempo até perceber que havia se sentado no mesmo lugar de quando Ive o trouxera ali pela primeira vez. Qual estranho era estar ali depois de tantas coisas e ainda mais quando pensava no segredo debaixo da sorveteria. Pediu um sorvete e ficou observando as pessoas que andavam de um lado para o outro. Não demorou muito tempo até que o dono da sorveteria se sentasse a mesa. Andrew podia ver que o homem estava visivelmente confuso por vê-lo sozinho.

– Bom dia, Andrew. Em que posso ajudá-lo? É bom ver que ainda está vivo. Onde está Ive?

– Ela está em casa, tentando cozinhar alguma coisa. Dessa vez eu preciso conversar apenas com você – respondeu o garoto.

Tord se recostou na cadeira, como se estivesse esperando por notícias ruins, cruzou os braços e ficou a esperar que o garoto começasse. Andrew sabia que seu palpite poderia ser completamente errado, contudo, valia a pena seguir aquele caminho. A semente para tudo isso havia surgido enquanto conversava com Amber e dissera que continuaria até entrar em colapso ou encontrasse alguém que lhe ensinasse a responder. E todos os seus pensamentos o levaram até Tord. Ele devia saber de alguma coisa. Era surpreendente que não houvesse pensado nisso antes.

– O que você quer? – perguntou ele.

– Eu preciso saber a verdade sobre Kivian, o que aconteceu. E eu acho que você pode me responder tudo. Sabe por quê? Porque você ainda está aqui. Rayla tirou Oberon e Mirtza do caminho, mas não você, que abriu a porta para nós.

Todos os músculos do rosto de Tord foram tensionados. Isso entregou a Andrew a certeza de que havia puxado a corda certa.

– Você está diferente – foi a única resposta dele por um momento. – Jovem, se você quer um conselho, o que tenho a dizer é: fique longe, corra, mude de país, de universo e nunca mais pense nela.

Andrew não aceitaria aquilo como resposta, passaria a noite ali se ele não lhe dissesse nada.

– Eu preciso saber sobre Kivian. Ela se relacionou com um humano... Assim como Ive.

Tord riu. O garoto não sabia se devia achar aquilo relaxante ou assustador.

– Eu conheço essa história melhor do que eu queria. Quem você acha que é o humano? Deixe-me responder, garoto: eu.

A verdade o atingiu sem nenhuma suavidade. As palavras saltaram da boca do homem como uma espécie de maldição. Andrew sentiu-se como o jovem Pi que, naufrago durante uma viagem até o Canadá, fica preso num bote junto a um tigre feroz. Não sabia o que dizer ou como reagir, simplesmente permaneceu quieto. Quando voltou a falar, Tord já havia voltado ao seu normal:

– Andrew, existe muita coisa em jogo. Eu e Kivian estamos pagando por tudo até hoje, ela está no Inferno e eu estou condenado a viver para todo o sempre. Quando este mundo for destruído eu estarei vivo, quando todo o universo for consumido eu estarei aqui. E isso não é a única punição que Rayla impôs. Eu não posso sentir o toque de coisa alguma, tudo o que eu colocar na boca terá gosto de cinzas, o cheiro do melhor perfume do mundo não faz a menor diferença. Tudo isso para que eu não encontre alívio algum nesse mundo.

Não sabia o que pensar acerca daquilo. Como Rayla podia ser tão sem coração? Seria isso o que o aguardava por se envolver com Ive? Uma tortura maior do que a morte, pensou Andrew, atravessar todos os dias suportando pessoas cada vez mais irritantes e estúpidas por toda a eternidade, sem a única que importava. Seria como morar num apartamento sujo e tendo como companhia uma trupe de mentirosos, ladrões e animais de estimação. O mundo se tornaria algo assim. A verdade é que agora, a essa altura dos eventos, não tinha nenhuma outra escolha, era preciso se ater ao plano, conseguir os nomes do gato – inclusive aquele roubado por Astrophel – e se livrar do mundo espiritual como pudesse. No entanto, estaria fazendo a coisa certa? Seus sentimentos por Ive eram assim tão fortes – não mera empolgação – para que se arriscasse a perder tudo? Já estivera disposto a ir tão longe por causa de Briony? Não, com certeza não. Ora, admitia consigo mesmo, já sofrera por amor outras vezes e sobrevivera. A mesma velha história. As palavras de Tord o haviam enchido de medo e seria estúpido de sua parte se não estivesse sentindo exatamente isso. Não deveria estar tentando racionalizar esse tipo de coisa, na verdade era bem simples: arriscaria tudo para ficar com Ive ou não? E também havia o outro lado da história. Ela também estava se arriscando para ficar com ele, deixando toda a sua família para trás, sua casa e tendo que começar uma vida a partir de rascunhos. Não tinha o direito de desistir, não mais.

Andrew levantou-se para sair. Espero que tenha entendido tudo o que falei, disse Tord. O garoto balançou afirmativamente a cabeça e respondeu:

– Sim. E isso não fará a menor diferença. Eu quero ficar com Ive e se acontecer alguma coisa, eu vou dar um jeito.

– Você é um idiota – disse o homem.

– Não tanto quanto você. O que você faz aqui ao invés de tentar salvar a pessoa que você ama? Eu não ficaria quieto se alguma coisa acontecesse à Ive, eu me esforçaria para fazer as coisas darem certo, mesmo que precisasse tentar mil vezes.

Tord sorriu, um movimento que servia para mostrar sua decepção, e respondeu:

– Eu já respondi o que você queria saber. Saia e não apareça na minha frente outra vez.

Andrew deu seus passos para fora da sorveteria. O homem do violão azul, que costumava ficar por ali, dedilhava alguma coisa. O garoto deixou uma nota no estojo dele e continuou a seguir pela calçada. Tudo o que ouviu dentro d’O Rei do Sorvete lhe assustara, mas lhe forneceu a certeza de que continuaria a lutar por Ive. Como não lutara por Briony. A garota que agora era uma pequena cicatriz no cantinho da mente. Um comboio de palavras atropelavam suas ideias. A primeira coisa que faria ao chegar em sua casa seria destruir A Violinista de Fevereiro – uma história que não o representava mais. Começaria algo novo, que falasse sobre coisas de verdade e sobre si mesmo. Contaria a sua história e a de Ive, algo sobre o qual somente ele poderia escrever. Pisou numa poça e continuou.