A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 32 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo VINTE E SETE

As piores pessoas do mundo são as velhas que derrubam geleia no

chão.

 

Coco Chanel fazia roupas bonitas e odiava domingos. Para sua tristeza, a alta costura não era capaz de desfazer alguns nós de ironia da existência. Acabou morrendo num domingo. Por outro lado, Andrew Webley era mais democrático: odiava todos os dias igualmente. Apenas ficava em dúvida para escolher o mais excruciante. Quando a campainha tocou na manhã daquela segunda-feira, tirando-o de um sono tão profundo quanto a Fossa das Marianas, houve um vencedor.

Andrew levantou-se e saiu da cama sem ânimo nenhum. Mais uma péssima noite de sono, assombrado pelas memórias do que houvera no cemitério. Vislumbrava os olhos de Adelpha Barrie em seus sonhos inquietos, assim como a expressão que Stella tinha no rosto. Tinha a sensação de que algo queimava dentro de si, irradiando do estômago até a garganta em ondas ácidas. Estava desnorteado pelo que sua vida havia se tornado.

Desceu as escadas de pijamas e arrastando os pés. Seu pai estava na sala terminando o café da manhã antes de ir para o trabalho. Trocaram um olhar e um leve aceno de cabeça. Sua irmã já havia saído para a escola. Abriu a porta e viu Ive lhe esperando com metade de uma barra de chocolate na boca e Prozy adormecida dentro de sua bolsa.

– Olá, Andy – disse ela, e foi entrando sem cerimônia. – Hoje nós iremos até uma livraria.

A filha da Morte era a última pessoa que desejava encontrar naquele momento, queria ficar na cama em posição fetal pelo resto do ano.

Andrew fechou a porta e esperou que todo o sono estampado em seu rosto servisse como uma negativa irrefutável. Não era apenas preguiça que lhe enchia de vontade de permanecer ali, Ive fazia com que se sentisse desconfortável. A garota cumprimentou seu pai com um aceno de mão. O garoto coçava a cabeça e andava encarando os próprios pés. Dirigiram-se para o quarto enquanto o Sr. Webley deixava o lar.

– Eu preciso de algum livro cheio de gravuras e cores, estou contente por termos o primeiro nome, docinho de tinta. Espere um pouco, vou até o banheiro e já volto.

Ela deixou a bolsa em cima da cama e saiu cuidando para não encostar nada com seus dedos sujos de chocolate. Andrew ligou o rádio e deixou que Rivers Cuomo desfiasse toda a tristeza do mundo em alguma música de Pinkerton. Prozy murmurou algum xingamento e voltou a dormir. Caminhou até a janela e ficou observando a chuva e a neblina. Ponderava se Briony valia todo aquele esforço. Várias pessoas estavam sofrendo para que ele conseguisse o que queria. Talvez não merecesse o desejo, usá-lo-ia apenas para conquistar um amor falso. O que significava isso comparado com Astrophel? Que buscava salvar a mulher que amava.

Ive voltou ao quarto com uma escova na mão e um tubo de pasta dental, dizendo:

– Eu peguei a sua escova de dente, OK? Não coloquei a minha na bolsa antes de sair de casa.

– Você está louca? – respondeu ele, sem conseguir controlar o volume da voz. – Não se usa a escova de outra pessoa, Ive!

– Ei, calma, Andy. Não é como se você fosse pegar uma Doença Mágica Lenta e Dolorosa. Eu tenho uma prima que trabalha nesse departamento, eu sei como essas coisas funcionam.

O tom casual de Ive fez com que sua raiva ficasse ainda maior. Nunca imaginou ser capaz de liberar tanta ira de uma só vez. Deixou que as palavras viessem num jorro incontrolável. Seu coração era uma orquestra sem ritmo. Por algum motivo, sentia vontade de magoá-la, como se aquele pugilismo verbal pudesse liberar todas as coisas selvagens. Um impulso que não podia ser estancado. Permaneceu de olhos fechados enquanto as pancadas eram desferidas na forma de sons.

– Se você quer ser humana, que tal começar a agir como uma? – sua voz saía alta, rouca e por entre dentes rangidos. – Você não pode sair beijando qualquer um, nem usar a escova de quem você bem entender. Ah, pendurar idosas em árvores também não é legal.

Ive o encarava sem reação, com os olhos grandes. Prozy estava alerta e olhando de um para o outro sem tomar atitude. A garota movimentou a boca e nenhum escapou. Tremia e balançava a cabeça. Numa voz quase inaudível, disse:

– O que deu em você?

Não respondeu. Weezer continuou a tocar até que Ive desligasse o aparelho com violência. Andrew queria poder gritar e quebrar tudo na sua frente. Sua raiva vinha de não ter nenhuma referência num mundo que compreendia cada vez menos. A sensação de entrar num metrô lotado e saber que ninguém ali é mais solitário que você. As lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. Não fez nenhum esforço para segurá-las, deixou que viessem.

– O que deu em mim? – parou em frente a ela. – Pergunte para Yorick ou para Stella. Estou cansado de me sentir sujo, Ive. Quão humanos seremos no fim dessa história se for preciso machucar todo mundo que aparecer na frente. E se alguma coisa acontecer com a minha irmã, por exemplo?

Ive o encarou durante algum tempo, certificando-se de que a explosão de raiva passara, e o envolveu em seus braços. Era um aperto forte, sentia a respiração dela e o calor do corpo através da roupa. Andrew tinha uma mistura de sentimentos estranhos ao rememorar o beijo no cemitério. Outra coisa da qual se lembrava também era a tendência da garota para a crueldade. O que tinha com relação a ela? Aquela coisa bela e terrível em carne viva. Sentiu todo seu corpo se arrepiar e congelar quando ela falou em seu ouvido.

– Nada vai acontecer com sua irmã, eu dou a minha palavra. Andy, eu poderia ter eliminado tanto Astrophel quanto Stella naquele dia. Ele estava te machucando e eu só queria fazer com que ele parasse com aquilo, você precisa entender.

Sua mente percorreu caminhos sinuosos até encontrar um ponto onde atracar. Queria que a paisagem conturbada dentro de si ficasse estável por um instante. Queria um sentido para aquele rádio sem sintonia. Ficaram abraçados por um longo tempo, em silêncio. Quando se viu ligeiramente mais calmo, soltou-se do abraço e disse:

– Me desculpe, Ive.

Andrew sentou-se na cama e de cabeça baixa, falou:

– Sendo quem eu sou... – começou ele – não é surpresa que ninguém se sinta atraído por mim, sem nem um pingo de interesse. É como se o meu destino fosse ficar sempre sozinho e buscar os nomes fosse a única chance de reverter isso. Eu não quero mais ser assim.

– Você não tem noção de quão especial você é. E Briony seria uma burra se não enxergasse isso. Agora, que tal irmos até a livraria e tomarmos um milk-shake no Tord depois?

– Você não se cansa de tomar sorvete?

– Nunca.

– E eu sinceramente já me cansei de vocês – comentou Prozy, ao notar que a tensão havia se dissipado. – Tudo o que eu queria: um dia de paz. É por isso que gosto do mundo espiritual é bem mais fácil lidar com gente morta.

Andrew sorriu e pediu um momento para trocar de roupa antes de saírem. O garoto escolheu roupas simples que consistiam em jeans, uma camisa do Radiohead e um cachecol vermelho que ganhara de Amber no último aniversário. Pegou um guarda-chuva e se encontrou com Ive no andar de baixo.

– Andy – disse Ive quando já iam saindo da casa. – Eu me esqueci de te mostrar uma coisa.

Ela abriu sua bolsa e entregou uma moeda a Andrew:

– Você tem que concordar que ele tem senso de humor.

Girou aquilo por entre os dedos. Ela tinha a gravura de um gato sorridente em uma das faces, enquanto exibia uma pequena mensagem do outro lado: Um nome bem sensível e diário. Ali estava o primeiro nome do gato, uma moeda de ouro tirada da boca de Adelpha Barrie. Tão pequena e desejada, pensou Andrew.

– Fique com ela – disse Ive. – É para que se lembre de que estamos no caminho certo.

Não respondeu. Estava com a cabeça muito longe, numa casca de pensamentos que não podia ser penetrada. Guardou o primeiro nome dentro da carteira e fechou a porta. Respirou. A besta, o anjo e louco que habitavam dentro de si estavam quietos por ora, mas ainda assim, Andrew não podia acreditar que estavam no caminho certo.

– Acho que o clima será horrível durante o resto da semana – disse ele e deu seus passos pela calçada.