O Código Da Vinci
Capítulo Noventa e Oito
Embora tivesse inicialmente esperado resolver sozinho o enigma do criptex e evitar mais complicações, sentia agora que a chegada de Langdon e de Sophie era, na realidade, uma boa coisa. Considerando a falta de êxito que estava tendo com a referência ao “globo”, talvez pudesse usar as capacidades daqueles dois.
Afinal, se Langdon decifrara o poema e encontrara o túmulo, parecia razoável pensar que também soubesse qualquer coisa a respeito do globo. E se Langdon conhecia a senha, então era só uma questão de aplicar a pressão correta.
Mas não aqui, evidentemente. Em algum lugar em privado.
Recordou uma pequena tabuleta indicativ a que vira a caminho dali. No mesmo instante, soube qual seria o lugar perfeito para atraí-los.
A única questão era... o que usar como isca.
C A P Í T U L O 98
Langdon e Sophie avançaram lentamente pela coxia norte, mantendo-se na sombra atrás dos grandes pilares que a separavam da nave. Apesar de já terem percorrido mais de metade do caminho, continuavam a não ter uma visão desimpedida do túmulo de Newton. O sarcófago estava recolhido num nicho, invisível daquele ângulo oblíquo.
— Pelo menos, não há ninguém lá — sussurrou Sophie.
Langdon assentiu, aliviado. Toda a seção da nave perto do túmulo de Newton estava deserta.
— Eu vou lá — sussurrou. — É melhor você ficar escondida, para o caso de ter alguém...
Sophie já tinha saído das sombras e avançava a descoberto.
— ...vigiando — suspirou Langdon, estugando o passo para alcançá-la.
Atravessando a gigantesca nave em perpendicular, Langdon e Sophie permaneceram silenciosos enquanto o elaborado sepulcro ia se revelando em tentadoras prestações... um sarcófago de mármore negro... uma estátua reclinada de Newton... dois meninos alados... uma gigantesca pirâmide... e... um enorme globo.
— Sabia disto? — perguntou Sophie, parecendo sobressaltada.
Langdon abanou a cabeça, tão surpreendido como ela.
— Aquelas coisas gravadas parecem constelações — observou Sophie.
À medida que se aproximavamdo nicho, Langdon sentiu-se invadir por uma crescente impressão de desânimo. O túmulo de Newton estava cheio de globos
— estrelas, cometas, planetas. Procura o globo que no seu túmulo devia estar?
Aquilo podia se tornar a tentativa de encontrar uma folha de erva perdida em um
campo de golfe.
— Corpos astronômicos — disse Sophie, com um ar preocupado. — Montes deles.
Langdon franziu a testa. A única ligação entre os planetas e o Graal que conseguia imaginar era o pentáculo de Vênus, e já tentara a senha “Vênus” a caminho de Temple Church.
Sophie avançou diretamente para o sarcófago, mas Langdon deixou-se ficar alguns passos atrás, observando a abadia à sua volta.
— Divinity — disse Sophie, inclinando a cabeça para ler os títulos dos livros a que Newton se apoiava. — Chronology. Opticks. Philosophiae Naturalis Principia Mathematicá!
— Voltou-se para ele. Faz soar alguma campainha?
Langdon aproximou-se mais, considerando a pergunta.
— Principia Mathematica, se bem me lembro, têm qualquer coisa a ver com a força gravidacional dos planetas... que são reconhecidamente globos, mas parece-me muito rebuscado.
— E os signos do Zodíaco? — sugeriu Sophie, apontando para as constelações gravadas no globo. — Há pouco falava de Peixes e de Aquário, não foi?
O Fim dos Dias, pensou Langdon.
— O fim da Era de Peixes e o início da de Aquário era alegadamente o momento histórico em que o Pr iorado tenc ionava apresentar ao mundo os documentos Sangreal. — A passagem do milênio chegou e passou sem incidentes, deixando os historiadores sem saber quando virá a verdade.
— Parece possível — disse Sophie — que os planos do Priorado para revelar a verdade estejam relacionados com o último verso do poema.
Fala de carne Rosada e de um útero a germinar. Langdon sentiu um arrepio de potencial. Não tinha considerado o verso daquela perspectiva.
— Disse-me — continuou Sophie — que o calendário do Priorado para revelar a verdade a respeito “da Rosa” e do seu útero fértil estava diretamente ligado à posição dos planetas... órbitas, globos.
Langdon assentiu, sentindo os primeiros frágeisfiapos de possibilidade materializarem-se. Mesmo assim, a intuição dizia-lhe que a Astronomia não era
a chave.
Todas as soluções anteriores do Grão-Mestre tinham tido um eloquente significado simbólico — a Mona Lisa, A Madonna dos Rochedos, SOFIA. Uma eloquência que estava definitivamente ausente do conceito de órbitas planetárias e do Zodíaco. Até o momento, Jacques Saunière provara ser um codificador meticuloso, e Langdon tinha de acreditar que a sua senha final — as cinco letras que descobririam o segredo do Priorado — provariam ser não só simbolicamente adequadas mas também cristalinamente claras. Se aquela solução estivesse na linha das outras, se revelaria dolorosamente óbvia, uma vez encontrada.
— Veja! — exclamou Sophie, sacudindo-lhe os pensamentos ao agarrar-lhe um braço. Pelo medo evidente no modo como o agarrou, Langdon pensou que alguém se aproximava, mas quando se voltou para ela, viu-a olhando. estupefata, para a superfície de mármore negro do sarcófago. – Alguém esteve aqui —
murmurou ela, apontando para um ponto perto do pé direito de Newton.
Langdon não compreendeu aquela agitação. Um turista distraído deixara um lápis de carvão, dos usados para esfregar as pedras tumulares, em cima do túmulo, junto ao pé de Newton. Não é nada. Estendeu a mão para pegar o lápis, mas, ao fazê-lo, a luz incidiu com um ângulo diferente na placa de mármore polido, e Langdon imobilizou-se.
Subitamente, percebeu o que assustara Sophie.
Escrita a carvão na tampa do sarcófago, junto ao pé de Newton, quase invisível, havia uma mensagem:
Tenho o Teabing.Passem pela Casa do Capítulo e s aiam pela porta sul para o jardim público.
Langdon leu as palavras duas vezes, com o coração martelando-lhe o peito.
Sophie voltou-se e perscrutou a nave. Apesar da excitação que o invadira ao ler as palavras, Langdon disse a si mesmo que aquilo eram boas notícias. Leigh está vivo. E havia ainda uma outra implicação.
— Eles também não sabem qual é senha — sussurrou.
Sophie assentiu. Caso contrário, para quê darem a conhecer a sua presença?
— Talvez queiram trocar o Leigh pela senha.
— Ou então é uma armadilha.
Langdon abanou a cabeça.
— Não me parece. O jardim fica fora da abadia. É um lugar muito público. —
Langdon visitara uma vez o famoso College Garden da abadia — um pequeno pomar e horta —, uma reminiscência dos tempos em que os monges ali cultivavam remédios naturais. Possuidor das mais velhas árvores de fruto de toda a Grã-Bretanha, o College Garden era muito popular entre os turistas, que podiam visitá-lo sem terem de entrar no templo. — Julgo que chamar-nos lá fora é uma prova de boa-fé. Para nos fazer sentir seguros.
Sophie fez um ar de dúvida.
— Quer dizer lá fora, onde não há detetores de metais?
Langdon franziu a testa. Ela tinha razão.
Ao olhar de novo para o túmulo cheio de globos, desejou ter qualquer ideia a respeito da senha do criptex... qualquer coisa com que negociar. Meti Leigh nisto, e farei o que for preciso se houver alguma chance de ajudá-lo.
— A nota diz atravessem a Casa do Capítulo até à saída sul — dis se Sophie.
— Talvez de lá se veja o jardim? Desse modo, poderíamos avaliar a situação antes de sairmos e nos expormos a qualquer perigo?
A ideia era boa. Langdon recor dava vagamente a Casa do Capítulo como uma enorme sala octogonal onde o antigo Parlamento britânico reunia antes da construção do moderno edifício. Havia anos que não ia lá, mas lembrava-se de ficar em algum lugar para lá dos claustros. Afastando-se vários passos do túmulo, olhou, da esquina da teia do coro, à sua direita, para o lado da nave oposto àquele que tinham descido.
A parede era rasgada por um amplo arco, junto ao qual um grande cartaz indicava:
POR AQUI PARA:
CLAUSTROS
REITORIA
COLLEGE HALL
MUSEU
CÂMARA DO CIBÓRIO
ST. FAITH’S CHAPEL
CASA DO CAPÍTULO
Langdon e Sophie iam correndo quando passaram por baixo do arco, muito depressa para repararem na pequena tabuleta onde se pedia desculpa por certas áreas estarem fechadas ao público, para restauração.
Emergiram imediatamente em um pátio aberto cercado por altas paredes e batido pela chuva matinal. Por cima deles, o vento uivava na abertura com um zumbido baixo, como alguém a soprar no gargalo de uma garrafa. Quando entraram na estreita passagem de teto baixo que rodeava o perímetro do pátio, Langdon teve a familiar sensação de mal-estar que experimentava sempre em locais fechados. Aquelas passagens chamavam-se claustros, e notou que aqueles claustros em particular faziam jus às suas ligações etimológicas às palavras claustrofobia.
Concentrando o espírito na extremidade do túnel, à frente, Langdon seguiu as indicações até à Casa do Capítulo. Chovia com força, e a passagem era fria e úmida, com rajadas de chuva que o v ento empurrava através dos arcos separados por pilares que eram a única fonte de iluminação do claustro. Um outro casal passou rapidamente por eles em sentido oposto, correndo para fugir ao mau tempo. Os claustros estavam desertos, e ninguém lhes negaria o título de lugar menos agradável da abadia, com aquele vento e aquela chuva.
Quarenta metros mais à frente, no tramo leste do claustro, do lado esquerdo, abria-se um outro arco que dava acesso a um novo corredor. Embora aquela fosse a entrada que procuravam, a passagem estava vedada por um cordão de ar muito oficial e por uma tabuleta que anunciava:
FECHADOS PARA RESTAURAÇÃO
CÂMARA DO CIBÓRIO
ST. FAITH’S CHAPEL
CASA DO CAPÍTULO
O comprido corredor deserto que se estendia além do cordão estava cheio de andaimes e de panos espalhados pelo chão. Em seguida ao corredor, Langdon viu as entradas para a Câmara do Cibório e para St. Faith’s Chapel, à direita e à esquerda. A entrada para a Casa do Capítulo ficava, porém, muito mais longe, no extremo oposto do corredor. Mesmo de onde estava, Langdon viu que a grande porta de carvalho estava aberta de par em par, e o espaçoso interior octogonal
banhado pela luz acinzentada que entrava pelas enormes janelas sobranceiras ao College Garden. Passem pela Casa do Capítulo e saiam pela porta sul para o jardim público.
— Acabamos de deixaro claustro leste — disse Langdon. — Portanto, a saída sul para o jardim deve ser por ali e à direita.
Sophie já estava passando por cima do cordão.
À medida que avançavam rapidamente pelo comprido e escuro corredor, os sons do vento e da chuva, no pátio lá atrás, iam esmorecendo. A Casa do Capítulo era uma espécie de estrutura satélite um anexo independente no extremo de um comprido corredor, para garantir a privacidade dos trabalhos do Parlamento que ali se reunia.
— Parece imenso — sussurrou Sophie, quando se aproximaram.
Langdon tinha esquecido como aquela sala era grande. Mesmo a alguns metros da porta, já conseguia alongar o olhar através da vasta extensão de soalho até às impressionantes janelas no lado oposto do octógono, janelas que se erguiam a uma altura de cinco andares até o teto abobadado. Dali teriam sem a mínima dúvida uma vista desimpedida para o jardim.
Quando atravessaram o umbral, Langdon e Sophie viram-se obrigados a semicerrar os olhos. Depois da penumbra dos claustros, a Casa do Capítulo era como um solário. Tinham avançado uns bons três metros pelo interior da sala, procurando a parede sul, quando perceberam que a porta prometida não estava lá.
Tinham chegado a um enorme beco sem saída.