O Código Da Vinci
Capítulo Trinta e Sete
— Você me quer no telefones ou no campo?
— No campo. Vá à estação ferroviária e coordene a equipe. Tem o comando, mas não faça nada sem falar comigo.
— Sim, senhor. — E Collet afastou-se correndo.
Fache sentia todo o corpo rígido. Do outro lado da janela, a pirâmide de vidro brilhava, o seu reflexo ondulando na água dos tanques que o vento encrespava.
Escaparam por entre meus dedos, disse a si mesmo para relaxar.
Até um agente com treinamento de campo precisaria de muita sorte para aguentar a pressão que a Interpol ia exercer. Uma criptóloga e um professor?
Não durariam até de manhã.
C A P Í T U L O 37
O parque densamente arborizado conhecido como Bois de Boulogne tinha muitos nomes, mas os cognoscenti parisienses chamavam-lhe
“Jardim das Delícias Terrenas”. A alcunha, parecendo embora lisonjeira, não o era, muito pelo contrário. Quem conhecesse o sombrio quadro de Bosch com o mesmo nome compreendia a ironia; o quadro, como o bosque, era escuro e tortuoso, um purgatório para tarados e fetichistas. À noite, os coleantes caminhos florestais enchiam-se de centenas de corpos de aluguel, delícias terrenas para satisfazer os desejos mais escondidos e inomináveis de todos e de cada um —
homens, mulheres e tudo o que houvesse pelo meio.
Enquanto Langdon organizava os pensamentos para falar a Sophie do Priorado de Sião, o táxi atravessou a entrada do parque e meteu-se pelas ruelas empedradas em direção a oeste. Estava tendo dificuldade em concentrar-se, porque uma amostra dos residentes noturnos do bosque começava já a emergir das sombras e a ostentar a respectiva mercadoria à luz dos faróis. Um pouco à frente, duas adolescentes de seios nus lançaram olhares escaldantes ao táxi que passava. Atrás delas, um musculoso negro de corpo oleado, vestindo apenas uma espécie de fio-dental, voltou-lhes as costas e flectiu as nádegas. Ao lado, uma belíssima mulher loura levantou a minissaia e mostrou que não era, na realidade, uma mulher.
Deus me ajude! Langdon voltou o olhar para dentro do táxi e inspirou fundo.
— Fale-me do Priorado — pediu Sophie.
Langdon assentiu, incapaz de imaginar um pano de fundo menos adequado à lenda que ia contar. Perguntou a si mesmo por onde começar. A história de irmandade estendia-se por mais de um milênio... uma espantosa crônica de segredos, chantagens, traições e até brutal tortura às mãos de um papa furioso.
— O Priorado de Sião — começou —, foi fundado em Jerusalém, em 1099, por um rei francês chamado Godofredo de Bulhão, imediatamente depois de ter conquistado a cidade.
Sophie assentiu, com os olhos cravados nele.
— Godofredo era alegadamente o detentor de um poderoso segredo... um segredo que a sua família guardava desde os tempos de Cristo. Receando que este segredo se perdesse com a sua morte, fundou uma irmandade secreta... o Priorado de Sião... que encarregou de mantê-lo defendê-lo, transmitindo-o sigilosamente de geração em geração. Durante os anos da sua presença em Jerusalém, o Priorado soube da existência de uma grande quantidade de documentos enterrados sob as ruínas do templo de Herodes, que fora construído sobre os escombros ainda mais antigos do Templo de Salomão. Acreditavam que esses documentos corroboravam o poderoso segredo de Godofredo e eram tão explosivos que a Igreja não pouparia meios para se apoderar deles.
Sophie parecia pouco convencida.
— Os membros do Priorado juraram que, levasse o tempo que levasse, aqueles documentos tinham de ser resgatados das ruínas do templo e salvaguardados para sempre, para que a verdade nunca morresse. com o objetivo de recuperar os documentos, o Priorado criou um braço militar, um grupo de nove cavaleiros chamados a Ordem dos Pobres Cavaleirosde Cristo e do Templo de Salomão. Langdon fez uma pausa. — Mais vulgarmente conhecidos como Cavaleiros do Templo, ou Templários.
Sophie ergueu os olhos, com uma surpreendida expressão de reconhec imento.
Langdon tinha dado conferências suficientes sobre os Cavaleiros do Templo para saber que não havia praticamente ninguém no mundo que não tiv esse ouvido falar deles, pelo menos no abstrato. Para os acadêmicos, a história dos Templários era um mundo precário em que os fatos, a lenda e a desinformação estavam de tal modo entrelaçados que se tornava quase impossível extrair dali um a verdade clara. Passara até a evitar se referir os Cavaleiros do Templo nas suas conferências, porque isso levava invariavelmente a uma barragem de retorcidas perguntas a respeito das mais variadas teorias de conspiração.
Até Sophie já parecia perturbada.
— Está me dizendo que os Templários foram criados pelo Priorado de Sião
com o objetivo de recuperar uma coleção de documentos secretos? Pensei que os Templários tinham sido criados para defender a Terra Santa.
— Um erro comum. A ideia de proteger os peregrinos era o disfarce que os Templários usavam para levar a cabo a sua missão. O seu verdadeiro objetivo na Terra Santa era recuperar os documentos sepultados sob as ruínas do templo.
— E os encontraram?
Langdon sorriu.
— Ninguém sabe com certeza, mas há um ponto em que todos os acadêmicos estão de acordo: os cavaleiros descobriram qualquer coisa sob as ruínas...
qualquer coisa que os tornou ricos e poderosos além de tudo o que alguém pudesse imaginar.
Expôs rapidamente a Sophie o esboço acadêmico padrão da história aceita dos Templários, explicando como os Cavaleiros estavam na Terra Santa durante a segunda cruzada e explicaram ao rei Balduíno II que se encontravam ali para proteger os peregrinos cristãos que percorriam as estradas. Apesar de não receberem qualquer pagamento e de terem feito voto de pobreza, disseram ao rei que precisavam de um abrigo mínimo, e pediram autorização para se instalarem nos estábulos sob as ruínas do templo. O rei concedeu-lhes o que pediam, e os Cavaleiros estabeleceram uma humilde residência no interior do devastado santuário.
A estranha escolha de alojamento, explicou Langdon, fora tudo menos casual.
Os Cavaleiros acreditavam que os documentos que o Priorado procurava estavam enterrados bem fundo por baixo das ruínas — sob o Santo dos Santos, uma câmara sagrada onde se acreditava que o próprio Deus residira.
Literalmente, o cerne mesmo da fé judaica. Durante quase dez anos, os nove cavaleiros viveram nas ruínas, escavando no mais absoluto segredo a rocha sólida.
Sophie lançou-lhe um olhar.
— E diz que descobriram qualquer coisa?
— Sem a mínima dúvida — respondeu Langdon, e explicou que tinham demorado nove anos, mas que finalmente tinham encontrado aquilo que procuravam. Retiraram o tesouro do templo e voltaram à Europa, onde a sua influência pareceu se solidificar da noite para o dia.
Ninguém sabia com certeza se os Cavaleiros tinham feito chantagem com o Vaticano ou se a Igreja tentara simplesmente comprar-lhes o silêncio, mas a verdade é que o Papa Inocêncio II emitiu de imediato uma bula sem precedentes que conferia aos Cavaleiros poderes ilimitados e os considerava “uma lei em si mesmos” — um exército autônomo, independente de quaisquer interferências de reis ou prelados, fosse ela religiosa ou política.
Com a carta-branca que lhes fora dada pelo Vaticano, os Cavaleiros do Templo cresceram a uma velocidade espantosa, tanto em números como em poder político, adquirindo vastas propriedades em uma dúzia de países.
Começaram a emprestar dinheiro a reis arruinados, cobrando juros, criando assim o moderno sistema bancário e aumentando ainda mais a sua riqueza e influência.
Por volta de 1300, a sanção do Vaticano ajudara os Templários a amassar tanto poder que o Papa Clemente V decidiu que era preciso fazer qualquer coisa.
Em conluio com Filipe IV de França, maquinou um engenhoso plano para esmagar os Templários e apoderar-se dos tesouros da ordem, assumindo deste modo o controle dos segredos com que ameaçavam o Vaticano. Em uma operação militar digna da CIA, o Papa Clemente emitiu ordens seladas que deviam ser simultaneamente abertas pelosseus soldados em toda a Europa na sexta-feira 13 de Outubro de 1307.
Na madrugada dessa sexta-feira, os selos foram quebrados e o espantoso conteúdo das ordens revelado. Na sua car ta, Clemente afirmava que Deus o visitara em uma visão e o avisara de que os Cavaleiros do Templo eram heréticos, culpados de prestar culto ao diabo, de homossexualidade, de profanar a cruz, de sodomia e de outros comportamentos blasfemos. E Deus pedira-lhe então que lavasse a face da Terra arrebanhando todos os Templários e torturando-os até que confessassem os seus pecados contra Ele. A maquiavélica operação de Clemente funcionou com a precisão de um relógio, nesse mesmo dia, inúmeros Cavaleiros foram presos, impiedosamente torturados e finalmente queimados na fogueira como heréticos. Os ecos da tragédia ressoavam ainda na cultura moderna: a sexta-feira 13 passou a ser para sempre considerado um dia de azar.
Sophie parecia confusa.
— Os Cavaleiros do Templo foram eliminados? Pensava que ainda hoje
existiam confrarias de Templários?
— E existem, sob uma grande variedade de nomes. A despeito das falsas acusações de Clemente e de todos os esforços para erradicá-los, os Templários tinham amigos poderosos, e alguns conseguiram escapar às purgas do Vaticano.
O poderoso tesouro documental da ordem, que fora a fonte aparente do seu poder e era o verdadeiro objetivo de Clemente, escapou-se por entre os dedos.
Os documentos tinham sido entregues há muito aos misteriosos arquitetos dos Templários, os membros do Priorado de Sião, que um véu de segredo mantivera a salvo longe do alcance do Vaticano. Ao sentir que o Papa apertava o cerco, o Priorado tinha retirado os documentos do preceptorado onde se encontravam, em Paris, e, de noite, levara-os para barcos dos Templários fundeados em La Rochelle.
— Para onde foram os documentos?
Langdon encolheu os ombros.
— A resposta a essa pergunta só o Priorado de Sião a conhece. Porque os documentos continuam a ser, ainda hoje, objeto de constante investigação e especulação, julga-se que têm sido transferidos de lugar para lugar e escondidos várias vezes. A especulação atual situa-os Em algum lugar no Reino Unido.
Sophie parecia pouco à vontade.
— Durante mil anos — prosseguiu Langdon —, as lendas sobre este segredo têm sido transmitidas de geração em geração. O conjunto dos documentos, o seu poder e o segredo que revelam acabaram por ser conhecidos por um único nome: Sangreal. Foram escritas centenas de livros sobre o tema, e poucos mistérios têm despertado tanto interesse entre os historiadores como o Sangreal.
— O Sangreal? A palavra tem alguma coisa vendo com o francês sang ou o espanhol sangre, que significam “sangue”?
Langdon assentiu. O sangue era a espinha dorsal do Sangreal, mas não do modo que Sophie imaginava.
— A lenda é complicada, mas o que importa recordar é que o Priorado guarda a prova, e está supostamente à espera do momento histórico certo para revelar a verdade.
— Que verdade? Que segredo poderia ser assim tão poderoso?
Langdon deixou escapar um fundo suspiro e olhou através da janela do táxi
para o ventre mole de Paris exposto no meio das sombras.
— A palavra Sangreal é muito antiga. Tem evoluído ao longo dos tempos, transformando-se em um outro termo... um nome mais moderno. — Fez uma pausa. — Quando eu lhe disser esse nome, perceberá que já sabe muito a respeito dele. Na realidade, praticamente toda as pessoas no mundo inteiro já ouviram a história do Sangreal.