O Código Da Vinci
Capítulo Sessenta e Sete
— Tenente? — O agente apontava para o fundo do estábulo.
As portas traseiras, de correr, estavam abertas de par em par, mostrando um pedaço do terreno lamacento e acidentado que descia em suave declive até se perder na escuridão.
Collet correu para as portas, tentando sondar o negrume. A única coisa que conseguiu ver foi a mancha de sombra um pouco mais densa de uma floresta, à distância. Nenhum farol. O vale era provavelmente atravess ado por dezenas de caminhos e trilhas de caça que não apareciam em qualquer mapa, mas Collet estava confiante que a sua presa não conseguiria chegar ao bosque.
— Mande alguns homens bater o terreno até lá abaixo. O mais certo é estarem atolados em um buraco qualquer aqui perto. Os carros de desporto não se dão bem com este tipo de terreno.
— Hum, tenente? — O agente estava apontando para um chaveiro do qual pendiam vários conjuntos de chaves. As etiquetas por cima das chaves ostentavam nomes familiares.
DAIMLER... ROLLS-ROYCE...
ASTON-MARTIN... PORSCHE...
O último gancho estava vazio.
Quando Collet leu a etiqueta por cima do prego vazio, soube que tinha um problema.
C A P Í T U L O 67
O Range Rover era Java Black Pearl, 4X4, transmissão normal, com faróis de alta potência de polipropileno, montes de luzes na traseira e volante à direita.
Langdon estava contente por não ter de ser ele a dirigir.
Seguindo as indicações do patrão, Rémy, o mordomo de Teabing, estava fazendo um impressionante trabalho de condução ao manobrar o veículo através dos campos iluminados pelo luar que se es tendiam para além dos fundos de Château Villette. Sem faróis, atravessara um descampado e descia agora um longo declive, afastando-se cada vez mais da propriedade. Parecia dirigir-se à recortada silhueta de uma zona de bosque, ao longe.
Langdon, segurando a Chave de Abóbada em cima dos joelhos, voltou-se no lugar do passageiro e olhou para Teabing e Sophie, instalados no banco de trás.
— Como está a sua cabeça, Robert? — perguntou Sophie, em tom preocupado.
Langdon forçou um sorriso dolorido.
— Melhor, obrigado. — Estava matando-o.
Ao lado dela, Teabing espiou por cima do ombro para o monge, amarrado e amordaçado, apertado no espaço destinado à bagagem situado atrás do banco.
Tinha a arma do homem no colo e parecia uma dessas velhas fotos de um caçador britânico posando junto da peça abatida no decurso de um safari.
— Estou muito contente por ter passado por aqui esta noite, Robert — disse Teabing, sorrindo como se estivesse divertindo-se pela primeira vez em anos.
— Lamento tê-lo envolvido nisto, Leigh.
— Oh, por favor, esperei a vida inteira ser envolvido. — Teabing olhou além de Langdon, através do para-brisas, para a sombra de uma longa sebe. Bateu no ombro de Rémy. — Lembre-se, nada de luzes de freios. Se for necessário, use o freio de mão. Quero internar-me um pouco no bosque. Não há qualquer razão para corrermos o risco de ser vistos da casa.
Rémy reduziu a veloc idade para marcha lenta e fez o Range Rover passar por uma abertura na sebe. No instante em que o veículo entrou, com um solavanco, em um caminho quase coberto de mato, as copas das árvores taparam completamente a luz da Lua.
Não vejo nada, pensou Langdon, esforçando-se por distinguir qualquer forma à frente deles. Estava escuro como breu. Rasparam ramos pelo lado esquerdo do jipe e Rémy corrigiu na direção oposta. Mantendo o volante mais ou menos reto, avançou, a passo de caracol, cerca de trinta metros.
— Está indo muito bem, Rémy — disse Teabing. — Já devemos estar suficientemente afastados. Robert, importa-se de apertar nesse botãozinho azul aí abaixo do ventilador? Está vendo-o?
Robert encontrou o botão e apertou-o.
Uma mortiça luz amarelada iluminou o trilho à frente deles, revelando uma densa parede de matagal de ambos os lados. Faróis de nevoeiro, percebeu Langdon. Davam apenas luz suficiente para mante-los no caminho, apesar de já estarem suficientemente embrenhados no bosque para que as luzes os não denunciassem.
— Muito bem, Rémy — declarou Teabing, alegremente. — Já temos luz. As nossas vidas estão nas suas mãos.
— Para onde vamos? — perguntou Sophie.
— Este caminho continua cerca de três quilômetros pelo interior da floresta — respondeu Teabing —, atravessando a propriedade e rumando depois para norte. Desde que não encontremos charcos muito profundos nem árvores caídas, iremos sair ilesos junto à autoestrada 5.
Ilesos. Langdon teve vontade de dizer que a sua cabeça pedia licença para discordar. Baixou os olhos para o colo, onde a Chav e de Abóbada continuava a salvo dentro da sua caixa de madeira. A rosa embutida voltara ao respectivo lugar e, apesar de sentir as ideias ainda um pouco embaralhadas, Langdon estava desejoso de voltar a retirar o embutido e examinar com mais atenção as palavras
gr avadas por baixo dele.
Abriu o fecho e começou a levantar a tampa da caixa quando Teabing lhe pousou a mão no ombro.
— Um pouco de paciência, Robert — pediu Teabing. — Está escuro e o caminho é cheio de buracos. Deus nos ajude se quebrarmos qualquer coisa. Se não reconheceu a língua à luz, não vai com certeza conseguir melhor no escuro.
Concentremo-nos em sair daqui inteiros, está bem? Haverá tempo para isso muito em breve.
Langdon sabia que Teabing tinha razão. com um aceno de cabeça, voltou a baixar a tampa. Lá atrás, o monge gemia, debatendo-se com a fita que lhe tolhia os movimentos. De repente, pôs-se a espernear furiosamente.
Teabing voltou-se e apontou-lhe a pistola por cima das costas do banco.
— Não percebo de que se queixa, caro senhor — disse. — Invadiu a minha casa e fez um enorme galo na cabeça de um querido amigo meu. Acho que teria todo o direito de dar-lhe um tiro agora mesmo e deixá-lo apodrecendo no meio do bosque.
O monge ficou imóvel e silencioso.
— Tem certeza de que fizemos bem em trazê-lo? — perguntou Langdon.
— Absoluta! — exclamou Teabing. — É procurado por assassinato, Robert.
Este biltre é o seu bilhete para a liberdade. Aparentemente, a Polícia deseja tanto deitar-lhe a mão que não hesitou em segui-lo até minha casa.
— A culpa foi minha — disse Sophie. — o furgão devia ter um transmissor.
— Não é essa a questão — respondeu Teabing. — Não me surpreende o fato da Polícia o ter encontrado, o que me surpreende é o fato de este fulano da Opus Dei ter feito o mesmo. Por aquilo que me disse, não imagino como conseguiu este homem segui-lo até minha casa, a menos que tenha um contato na Polícia Judiciária ou no Banco Depositário de Zurique.
Langdon considerou o assunto. Bezu Fache parecia sem a mínima dúvida decidido a arranjar um bode expiatório para os crimes daquela noite. E Vernet voltara-se contra eles de uma forma totalmente inesperada, ainda que, tendo em conta que ele, Langdon, era acusado de quatro mortes, a mudança de atitude do banqueiro talvez fosse compreensível.
— Este monge não trabalha sozinho, Robert — continuou Teabing —, e até
descobrirem quem está por trás de tudo isto, correm ambos perigo. A boa notícia, meu amigo, é que está agora em uma posição de força. Este monstro que aqui temos possui essa informação, e quem quer que esteja puxando os cordões deve estar muito nervoso neste preciso instante.
Rémy conduzia agora mais depressa, tendo-se habituado ao trilho.
Atravessaram alguns charcos, treparam uma pequena elevação e começaram a descer outra vez.
— Robert, importa-se de me passar esse telefone? — pediu Teabing, apontando para o telefone do jipe montado no painel de instrumentos. Langdon entregou-o e Teabing discou um número. Esperou bastante tempo antes que alguém respondesse. — Richard?
Acordei-o? Claro que acordei. Pergunta tola. Tenho um pequeno problema.
Sinto-me um pouco em baixo. Eu e Rémy temos de dar um pulo às Ilhas por causa dos meus tratamentos... Bem, imediatamente. Desculpe não o ter avisado mais cedo. Pode ter o Elizabeth pronto dentro de cerca de vinte minutos?... Eu sei, o melhor que puder fazer. Até já. — E desligou.
— O Elizabetht — estranhou Langdon.
— O meu avião. Custou-me o resgate de uma rainha.
Langdon voltou-se completamente no banco para olhar para ele.
— O que foi? — perguntou Teabing. — Vocês dois não podem esperar continuar na França com a Polícia Judiciária em peso procurando-os. Londres será muito mais seguro.
Também Sophie tinha se voltado para Teabing.
— Acha que devemos abandonar o país?
— Meus amigos, tenho muito mais influência no mundo civilizado do que aqui na França. Além disso, diz-se que o Graal está na Grã-Bretanha. Se conseguirmos abrir essa Chave de Abóbada, estou certo de que encontraremos um mapa que nos dirá que avançamos na direção correta.
— Está correndo um grande risco ao nos ajudar — observou Sophie. — Não vai granjear-lhe muitos amigos entre a Polícia francesa.
Teabing agitou a mão num gesto de desdém.
— Já fiz o que tinha de fazer na França. Mudei-me para cá para encontrar a Chave de Abóbada. Esse trabalho está feito. Pode crer que não ficarei nem um
pouco triste se não voltar a ver Château Villette.
Sophie parecia insegura.
— Como é que vamos passar pela segurança no aeroporto?
Teabing riu.
— Partimos de Le Bourget... um aeródromo executivo não muito longe daqui.
Os médicos franceses põem-me nervoso, de modo que, a cada quinze dias, vou a Inglaterra fazer os meus tratamentos. Pago para ter certos privilégios especiais de um lado e do outro. Quando estivermos no ar, podem decidir se querem ou não que alguém da embaixada dos Estados Unidos vá encontrá-los.
Subitamente, Langdon não queria ter nada a ver com a embaixada. Só conseguia pensar na Chave de Abóbada, na inscrição e em se ela os conduziria ou não ao Santo Graal. Perguntou a si mesmo se Teabing teria razão a respeito da Grã-Bretanha. Era certo que a maior parte das lendas modernas situav a o Graal Em algum lugar no Reino Unido. Pensava-se inclusive que a mítica ilha de Avalon do rei Artur, tão cheia do Graal, não era outra senão Glastonbury, na Inglaterra. Fosse onde fosse que o Graal estivesse, nunca Langdon imaginara que andaria um dia à procura dele. Os documentos Sangreal.
A verdadeira história de Jesus Cristo. O túmulo de Maria Madalena. De súbito, sentiu como se naquela noite estivesse vivendo em uma espécie de limbo... uma bolha onde o mundo real não podia alcançá-lo.
— Senhor? — disse Rémy. — Está na verdade pensando em regressar definitivamente a Inglaterra?
— Não tem motivos para preocupações, Rémy — tranquilizou-o Langdon. —
Só porque vou regressar ao reino de Sua Majestade a Rainha, não quer dizer tencione sujeitar o meu palato a salsichas e purê pelo resto dosmeus dias. Espero que fique comigo. Estou planejando comprar uma esplêndida villa no Devonshire, e mandaremos vir todas as suas coisas imediatamente. Uma aventura, Rémy. Uma aventura, digo eu!
Langdon teve de sorrir. Ao ouvir Teabing falar dos seus planos para um triunfante regresso à Grã-Bretanha, sentiu-se apanhado pelo contagiante entusiasmo do homem.
Ficou olhando distraidamente pela janela, as árvores passando, fantasmas pálidos iluminados pela luz amarelada dos faróis de nevoeiro. O retrovisor
lateral estava metido para dentro, empurrado pelos ramos, e Langdon viu o reflexo de Sophie silenciosamente sentada no banco de trás. Observou-a por um longo momento e sentiu uma inesperada vaga de contentamento. Apesar de tudo o que lhe acontecera naquela noite, estava satisfeito por ter encontrado uma companhia tão agradável.
Ao cabo de vários minutos, como se de repente sentisse os olhos de Langdon postos nela, Sophie inclinou-se para frente e pousou as mãos nos ombros dele, fazendo-lhe uma rápida massagem.
— Está bem?
— Estou — respondeu Langdon. — Nem sei como.
Sophie voltou a recostar-se no banco, e Langdon viu um sorriso tranquilo distender-lhe os lábios. Percebeu então que também ele estava sorrindo.
Entalado na traseira do Range Rover, Silas mal conseguia respirar. Tinha os braços dobrados para trás das costas e fortemente amarrados aos tornozelos com fio de cozinha e fita isolante. A cada buraco do caminho, uma lançada de dorverrumava-lhe os ombros torcidos. Pelo menos, os seus captores tinham-lhe tirado o cilício. Impedido de inspirar através do pedaço de fita que lhe tapava a boca, só podia respirar pelas narinas, que estavam ficando pouco a pouco entupidas devido ao pó que enchia o espaço de carga para onde o tinham atirado.
Começou a tossir.
— Acho que ele está sufocando — disse o motorista francês, parecendo preocupado.
O inglês que lhe batera com a muleta voltou-se e espreitou por cima das costas do banco, franzindo friamente a testa.
— Felizmente para você, nós, os Britânicos, julgamos a civilidade de um homem não pela sua compaixão para com os amigos, mas pela sua compaixão para com os inimigos.
O homem estendeu a mão, pegou uma ponta da fita que lhe tapava a boca e, com um rápido movimento, arrancou-a. Silas teve a sensação de que os lábios tinham se incendiado, mas o ar que lhe enc heu os pulmões foi uma dádiva dos céus.
— Para quem trabalha? — perguntou o inglês.
— Faço o trabalho de Deus — replicou Silas, apesar da dor no queixo, onde a
mulher lhe acertara com o pé.
— Pertence à Opus Dei — disse o homem. Não era uma pergunta.
— Não sabe nada de quem eu sou.
— Porque é que a Opus Dei quer a Chave de Abóbada?
Silas não tinha a mínima intenção de responder. A Chave de Abóbada era a ligação ao Santo Graal, e o Santo Graal era a chave para a protecção da fé. Faço o trabalho de Deus. O Caminho está em perigo.
Agora, na traseira do Range Rover, debatendo-se com as suas amarras, Silas receou ter desiludido para todo o sempre o Professor e o bispo. Não tinha sequer maneira de contatá-los e avisá-los daquela terrível reviravolta dos acontecimentos. Os meus captores têm a Chave de Abóbada. Vão chegar ao Graal antes de nós! Envolto na sufocante escuridão, Silas rezou. Deixou que a dor que lhe atormentava o corpo desse força às suas preces.
Um milagre, Senhor. Preciso de um milagre. Silas não tinha modo de saber que, poucas horas mais tarde, lhe seria dado o que pedia.
— Robert? — Sophie continuava a observá-la. — Está com uma expressão estranha.
Langdon voltou-se para olhar para ela, percebendo que tinha os dentes cerrados e o coração batendo mais depressa. Acabava de lhe ocorrer uma ideia incrível. Será possível que seja uma explicação tão simples?
— Preciso usar o seu celular, Sophie.
— Agora?
— Acho que descobri uma coisa.
— O que foi?