O Código Da Vinci
Capítulo Oitenta
Ponderou as implicações daquele bizarro desenvolvimento. Vernet está envolvido.
Instintivamente, sabia que devia telefonar ao capitão Fache. Emocionalmente, sabia que aquele golpe de sorte ia ser a sua oportunidade de brilhar.
Ligou de imediato para a Interpol e pediu-lhes tudo o que tivessem a respeito do Banco Depositário de Zurique e do respectivo presidente, André Vernet.
C A P Í T U L O 80
— Cintos de segurança, por favor — anunciou o piloto de Teabing, enquanto o Hawker 731 começava a descer no meio de um chuvisco matinal. —
Aterrissamos dentro de cinco minutos.
O espetáculo das enevoadas colinas de Kent espraiando-se por baixo do avião despertou em Teabing uma agradável sensação de “regresso a casa”. A Inglaterra ficava a menos de uma hora de voo de Par is, e todavia a um mundo de distância.
Naquela manhã, o úmido verde primaveril da terra natal pareceu-lhe particularmente acolhedor. O meu tempo na França acabou. Regresso a Inglaterra como vencedor. A Chave de Abóbada foi encontrada. Restava, claro, a questão de saber aonde os conduziria. Em algum lugar no Reino Unido. Onde, exatamente, Teabing não fazia a mínima ideia, mas já saboreava a glória.
Sob os olhares de Langdon e de Sophie, Teabing levantou-se e dirigiu-se ao outro lado da cabina, onde, fazendo deslizar um painel, pôs a descoberto um discretamente escondido cofre de parede. Marcou a combinação, abriu o cofre e tirou de lá dois passaportes.
— A minha documentação e de Rémy — explicou. Tirou em seguida um grosso maço de notas de cinquenta libras e acrescentou:
— E a sua documentação também.
Sophie ergueu a cabeça.
— Um suborno?
— Diplomacia criativa. Os aeródromos executivos dão direito a certas mordomias.
Um funcionário da alfândega nos receberá no meu hangar e pedirá autorizaç ão para subir a bordo. Em vez de deixá-lo entrar, vou dizer-lhe que viajo com
uma celebridade francesa que prefere que não se saiba que está na Inglaterra...
por causa dos jornais, compreende?... e ofereço-lhe esta generosa gratificação como expressão dos meus agradecimentos.
Langdon parecia espantado.
— E o funcionário vai aceitar?
— De qualquer outra pessoa, não. Mas esta gente me conhece. Não sou nenhum traficante de armas, pelo amor de Deus. Fui constituido cavaleiro. —
Teabing sorriu. — Um clube que tem os seus privilégios.
Rémy aproximou-se pela coxia, com a Heckler and Koch suspensa do braço caído ao longo do corpo.
— As suas ordens, Sir Leigh?
Teabing olhou para o mordomo.
— Vou ter de pedir que fique a bordo com o nosso convidado até nós regressarmos.
Não podemos andar por Londres arrastando-o de um lado para o outro.
Sophie estava com uma expressão preocupada.
— Leigh, a Polícia francesa vai encontrar o seu avião antes de nós voltarmos.
Teabing riu.
— Sim, imagine a surpresa deles se viessem a bordo e encontrassem o Rémy.
Esta atitude displicente surpreendeu-a.
— Leigh, transportou um refém amarrado através de uma fronteira internacional. Isto é muito sério.
— Também os meus advogados. — Teabing franziu o sobrolho, olhando para o monge amarrado na cauda do avião. — Aquele animal entrou à força em minha casa e quase me matou. É um fato, que o Rémy confirmará.
— Mas você amarrou-o e trouxe-o para Londres.
Teabing levantou a mão direita, numa paródia de um juramento em tribunal.
— Peço-lhe, Meritíssimo, que perdoe a um velho e excêntrico cavaleiro o seu tolo preconceito a favor do sistema judicial inglês. Compreendo que devia ter chamado as autoridades francesas, mas sou um snob e não acreditei que os desleixados franceses resolvessem este caso como deve ser. Este homem quase me assassinou. Sim, tomei uma decisão precipitada ao forçar o meu mordomo a ajudar-me a trazê-lo para Inglaterra, mas encontrava-me sob uma grande
pressão. Mea culpa. Mea culpa.
Langdon fez um ar de incredulidade.
— Vinda de si, Leigh, essa é bem capaz de pegar.
— Sir Leigh — chamou o piloto. — A torre acaba de entrar em contato. Tem um problema qualquer de manutenção junto ao seu hangar e estão me pedindo para levar o avião diretamente para junto do terminal.
Havia mais de uma década que Teabing voava para Biggin Hill, e era a primeira vez que aquilo acontecia.
— Disseram qual era o problema?
— O controlador foi muito vago. Qualquer coisa a respeito de uma fuga de combustível no sistema de bombeamento? Pediu-me que estacionasse em frente do terminal e mantivesse todos a bordo até nova ordem . Por uma questão de segurança.
Não podemos desembarcar sem autorização das autoridades do aeroporto.
Teabing estava cético. Deve ser uma fuga e tanto. O depósito de combustível ficava a uns bons oitocentos metros do hangar. Também Rémy parecia preocupado.
— Tudo isto me parece muito estranho, senhor — comentou.
Teabing voltou-se para Sophie e para Langdon.
— Meus amigos, tenho o desagradável pressentimento de que há uma comissão de recepção à nossa espera.
Langdon deixou escapar um suspiro cansado.
— Suponho que Fache continua convencido de que eu sou culpado — disse.
— Ou isso — respondeu Sophie —, ou está muito envolvido nisto para admitir o erro.
Teabing não os ouvia. Pensasse Fache o que pensasse, era preciso tomar medidas, e depressa. Não perca de vista o nosso objetivo. O Graal. Estamos tão perto!
Por baixo deles, o trem de aterrissagem desceu com um ruído mecânico.
— Leigh — disse Langdon, em tom profundamente pesaroso —, vou entregar-me e resolver isto pelos meios legais. Não quero envolvê-los nisto.
— Oh, pelo amor de Deus, Robert! — exclamou Teabing. — Acredita verdadeiramente que nos deixarão ir a algum lugar? Acabo de transportá-lo
ilegalm ente. A menina Neveu ajudou-o a fugir do Louvre e temos um homem amarrado na cauda do avião. Palavra!
Estamos todos metidos nisto.
— Talvez tentar outro aeroporto? — sugeriu Sophie.
Teabing abanou a cabeça.
— Se fugimos agora, da próxima vez que nos derem autorização para aterrissar, a comissão de recepção incluirá tanques do Exército.
Sophie deixou cair os ombros. Teabing sentiu que se quisessem ter alguma chance de adiar a confrontação com as autoridades o tempo suficiente para encontrarem o Graal, ia ter de tomar medidas drásticas.
— Deem-me um minuto — pediu, afastando-se em direção ao cockpit.