O Código Da Vinci
Capítulo Onze
— Você o tratará com respeito?
— Um homem de fé merece-o ao mais alto grau.
— Muito bem. Compreendo. Eu e Silas não voltaremos a falar até isto estar resolvido.
— Faço isto para proteger a sua identidade, a identidade de Silas e o meu investimento.
— O seu investimento?
— Bispo, se a sua ânsia de manter-se a par dos progressos o atirar para uma prisão, não poderá pagar os meus honorários.
O bispo sorrira.
— Tem razão. Os nossos desejos são coincidentes. Fique com Deus.
Vinte milhões de euros, pensou o bispo, olhando pela janela do avião.
Aproximadamente o mesmo em dólares amer icanos. Uma ninharia por uma coisa tão formidável. Sentiu uma renovada confiança em que o Professor e Silas não falhariam. O dinheiro e a fé eram motivações muito poderosas.
C A P Í T U L O 11
— Une plaisanterie numérique? — Bezu Fache estava lívido, olhando, incrédulo e furioso, para Sophie Neveu. Uma brincadeira numérica? —
A sua opinião profissional sobre o código do conservador Saunière é que se trata de uma brincadeira matemática?
Fache não conseguia compreender a ousadia daquela mulher. Não só acabava de aparecer ali sem autorização, como estava agora tentando convencê-lo de que Saunière, nos momentos finais da sua vida, se lembrara de deixar-lhes uma charada numérica.
— Este código — explicou rapidamente Sophie, em francês é simplista ao ponto da absurdidade. Monsieur Saunière deve ter sabido que o decifraríamos imediatamente. — Tirou um pedaço de papel do bolso do camisolão e estendeu-o a Fache. — Aqui tem a solução.
Fache olhou para o papel.
1-1-2-3-5-8-13-21
— Só isto? — ladrou. — Tudo o que fez foi pôr os números por ordem crescente.
Sophie teve o descaramento de esboçar um sorriso satisfeito.
— Exatamente
O tom de Fache desceu para um rosnado gutural.
— Agente Neveu, não faço ideia de para onde diabo vai com isto, mas sugiro que chegue lá depressa. — Lançou um olhar ansioso a Langdon, que estava ali perto com o celular encostado ao ouvido, aparentemente ainda escutando a
mensagem da embaixada americana.
Pela lividez que lhe cobria o rosto, deduziu que eram más notícias.
— Capitão — disse Sophie, com um tom perigosamente desafiador —, a sequência de números que tem na mão é uma das mais famosas progressões matemáticas da História.
Fache não imaginava que existisse sequer uma progressão matemática que merecesse o epíteto de famosa, e com toda certeza não gostou do tom deslocado de Sophie. — É a sequência Fibonacci — continuou ela, apontando para o pedaço de papel que Fache continuava a segurar. — Uma progressão em que cada termo é igual à soma dos dois que o antecedem.
Fache estudou os números. Cada termo era de fato igual à soma dos dois anteriores, mas continuava a não ver que relevância poderia tudo aquilo ter no caso da morte de Jacques Saunière.
— O matemático Leonardo Fibonacci criou essa sucessão de números no século XIII. Obviamente, não pode ser coincidência o fato de todos os números que o conservador Saunière escreveu no chão pertencerem à famosa sequência Fibonacci.
Fache ficou olhando para ela durante vários instantes.
— Muito bem, se não é coincidência, fará o favor de me explicar por que razão decidiu Jacques Saunière fazer esta coisa? Que está ele dizendo? O que é que isto significa?
Sophie encolheu os ombros.
— Absolutamente nada. É essa a questão. Trata-se de uma brincadeira criptográfica extremamente simplista. Como pegar as palavras de um poema famoso e dispô-las de uma forma aleatória para ver se alguém consegue perceber o que todas elas têm em comum.
Fache deu um ameaçador passo em frente, colocando o rosto a poucos centímetros do de Sophie.
— Espero com toda a franqueza que tenha uma explicação muito mais satisfatória do que essa.
As feições de Sophie tornaram-se surpreendentemente duras quando replicou:
— Capitão, considerando o que tem aqui em jogo esta noite, julguei que gostaria de saber que há a possibilidade do conservador Saunière estar brincando consigo. Parece não ser o caso. vou informar o diretor da Criptologia de que já não precisa dos nossos serviços.
E com esta ameaça, fez meia volta e afastou-se pelo caminho por onde tinha vindo.
Aturdido, Fache viu-a desaparecer na escuridão. Terá enlouquecido? Sophie Neveu acabava de redefinir o conceito de suicídio profissional.
Voltou-se para Langdon, que continuava ao telefone com um ar ainda mais preocupado do que antes, ouvindo atentamente a sua mensagem, da embaixada americana. Bezu Fache desprezava muitas coisas... mas poucas lhe mereciam tanta raiva como a embaixada americana.
Fache e o embaixador entravam em conflito numa base regular por causa de assuntos de Estado comuns — sendo o campo de batalha mais frequente a aplicação da lei aos cidadãos americanos em visita a França. Quase todos os dias, a DCPJ prendia estudantes americanos dos pr ogramas de intercâmbio por posse de drogas , homens de negócios americanos por solicitarem os serviços de pr ostitutas menores de idade, turistas americanos por furtos em lojas e destruição de propriedade. Legalmente, a embaixada podia intervir e extraditar os cidadãos culpados de volta para os Estados Unidos, onde se safavam com uma simples reprimenda.
E era o que a embaixada invariavelmente fazia.
L’émasculation de la Police Judiciaire, chamava-lhe Fache. A Paris Match publicara recentemente um car toon em que Fache aparecia c omo um cão-polícia tentando morder um criminoso americano, mas sendo impedido de fazê-lo por estar acorrentado à embaixada dos Estados Unidos.
Mas não esta noite, pensou Fache. Há muito em jogo.
Quando desligou o telefone, Robert Langdon parecia doente.
— Tudo bem? — perguntou Fache. Langdon abanou debilmente a cabeça.
Más notícias de casa, calculou Fache, notando que Langdon transpirava ligeiramente ao devolver-lhe o celular.
— Um acidente — murmurou Langdon, olhando para o capitão com uma expressão estranha. — Um amigo... — Fez uma pausa. — Tenho de regressar logo de manhã.
Fache não tinha a mínima dúvida de que o choque refletido na expressão de
Langdon era genuíno, mas sentiu que havia ali uma outra emoção, como se um medo distante estivesse de repente tremeluzindo nos olhos do americano.
— Lamento muito — disse, observando Langdon com atenção. — Quer sentar-se? — perguntou, apontando para um dos bancos da galeria.
Langdon assentiu com um ar ausente e deu alguns passos na direção do banco.
Então deteve-se, parecendo cada vez mais confuso.
— Na realidade, acho que preciso utilizar os lavabos.
Fache franziu mentalmente o sobrolho, irritado pelo atraso.
— Os lavabos. Com certeza. Façamos uma pausa de alguns minutos. —
Apontou na direção de onde tinham vindo. — Os lavados ficam perto do gabinete do conservador.
Langdon hesitou, apontando por sua vez na direção oposta, para o outro extremo da galeria.
— Se bem me lembro, há lavabos bem mais perto, ali no fundo.
Fache percebeu que Langdon tinha razão. Estavam a cerca de dois terços do comprimento da Galeria, que terminava daquele lado em um par de lavabos.
— Quer que vá com você?
Langdon abanou a cabeça, já afastando-se.
— Não é necessário. Acho que gostaria de ficar sozinho por alguns minutos.
Fache não ficou muito entusiasmado com a ideia de ter Langdon perambulando sozinho por ali, mas consolou-se ao pensar que a Grande Galeria era um beco cuja única saída se situava precisamente no extremo oposto: a grade porbaixo da qual tinham entrado. Embora os regulamentos do Departamento de Incêndios exigissem várias saídas de emergência em um espaço tão vasto como aquele, essas saídas tinham sido automaticamente seladas quando Saunière acionara o sistema de segurança. Claro que o sistema fora entretanto restabelecido, mas não importava: as portas exteriores, se abertas, fariam disparar o alarme, e, além disso, estavam vigiadas Por agentes da DCPJ.
Langdon não tinha como sair dali sem que ele o visse.
— Tenho de regressar por um instante ao gabinete do conservador Saunière
— disse.
— Por favor, vá diretamente ter comigo, senhor Langdon. Há outras coisas
que precisamos discutir.
Langdon fez-lhe um lento aceno com a mão antes de desaparecer nas sombras.
Fazendo meia volta, Fache caminhou irritado na direção oposta. Chegado à grade, passou por baixo dela, seguiu o corredor e entrou de rompante no posto de comando instalado no gabinete de Saunière.
— Quem autorizou Sophie Neveu a entrar neste edifício? berrou.
Collet foi o primeiro a responder:
— Ela disse aos guardas do exterior que tinha decifrado o código.
Fache olhou em redor.
— Foi embora?
— Não está consigo?
— Foi embora. — Fache lançou um olhar ao corredor mergulhado em escuridão.
Aparentemente, Sophie não se sentira com disposição para conversas com os colegas a caminho da saída.
Por um instante, considerou a possibilidade de contatar os guardas colocados no átrio subterrâneo e ordenar-lhes que detivessem Sophie e a arrastassem de volta ao gabinete antes que pudesse abandonar o local. Mas então pensou melhor. Percebeu que aquilo era apenas o seu orgulho falando... querer ter a última palavra. Já tivera distrações mais do que suficientes naquela noite.
Cuide da agente Neveu mais tarde, disse a si mesmo, já antecipando o prazer de colocá-la na rua. Expulsando Sophie dos seus pensamentos, ficou por instantes olhando para o cavaleiro miniatura de pé em cima da mesa de Saunière.
Voltou-se então para Collet.
— Ele está no visor?