O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 41 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo Trinta e Oito

Sophie fez um ar cético.

— Nunca ouvi falar.

— Claro que ouviu. — Langdon sorriu. — Só que está habituada a dar-lhe outro nome: Santo Graal.

C A P Í T U L O 38

Sophie perscrutou o rosto de Langdon no banco traseiro do táxi. Estará brincando?

— Santo Graal?

Langdon assentiu, muito sério.

— Santo Graal é o significado literal de Sangreal. A palavra deriva do francês Sangraal, que evoluiu para Sangreal e acabou por dividir-se em duas, San Greal.

Santo Graal. Sophie ficou surpresa por não ter visto imediatamente a ligação linguística.

Mesmo assim, a afirmação de Langdon continuava a não fazer sentido para ela.

— Pensava que o Santo Graal era uma taça. Acaba de me dizer que o Sangreal é uma coleção de documentos que revelam um temível segredo.

— Sim, mas os documentos do Sangreal são apenas metade do tesouro do Santo Graal. Estão enterrados com o próprio Graal... e revelam o seu verdadeiro significado.

Por isso, por revelarem a verdadeira natureza do Graal, davam tanto poder aos Templários.

A verdadeira natureza do Graal? Sophie sentia-se cada vez mais perdida. O

Santo Graal, sempre pensara, era a taça por onde Jesus bebera durante a Ultima Ceia e onde José de Arimateia posteriormente recolhera o Seu sangue durante a crucifixão.

— O Santo Graal é a Taça de Cristo — disse. — O que é que pode ser mais simples do que isto?

— Sophie — sussurrou Langdon, inclinando-se para ela —, segundo o

Priorado de Sião, o Santo Graal não é uma taça. Afirmam que a lenda do Graal...

de um cálice... é na realidade uma alegoria engenhosamente elaborada. Ou seja, a história do Graal usa o cálice como metáfora para outra coisa, uma coisa muito mais poderosa. — Fez uma pausa.

— Algo que encaixa perfeitamente com tudo o que o seu avô tentou nos dizer esta noite, incluindo todas as suas referências simbológicas ao sagrado feminino.

Ainda insegura, Sophie sentiu no sorriso paciente de Langdon que ele compreendia a sua confusão, embora mantivesse uma expressão grave.

— Mas se o Santo Graal não é uma taça — perguntou —, então o que é?

Langdon já contava com a pergunta, mas nem mesmo assim sabia muito bem como dizer aquilo. Se não apresentasse a resposta no devido contexto histórico, Sophie ficaria com um ar vazio de espanto e confusão... exatamente a mesma expressão que vira no rosto do seu editor quando, meses antes, lhe mostrara o manuscrito em que estava trabalhando.

— Este manuscrito afirma o quê? — engasgou-se o editor, pousando o copo de vinho e olhando para Langdon por cima do almoço meio comido. — Não pode estar falando sério!

— Suficientemente sério para ter passado um ano a investigá-lo.

John Faukman, um conhecido editor de Nova Iorque, puxou nervosamente pela barbicha. Ouvira sem a mínima dúvida algumas ideias loucas ao longo da sua eminente carreira, mas aquela parecia tê-lo deixado estupefato.

— Robert — disse, finalmente —, não me interprete mal. Gosto muito do seu trabalho e percorremos juntos um longo caminho. Mas se aceito publicar uma ideia como esta, vou ter pessoas fazendo manifestações à porta do meu escritório durante meses. Além disso, dará cabo da minha reputação. Você é um Historiador de Harvard, pelo amor de Deus, não um trapaceiro de esquina à procura de dinheiro fácil. Onde é que vai encontrar provas credíveis em quantidade suficiente para apoiar uma teoria destas?

Com um sorriso tranquilo, Langdon tirou uma folha de papel do bolso do casaco de tweed e entregou-o a Faukman. Continha uma bibliografia com mais de cinquenta títulos — obras de historiadores conhecidos, uns contemporâneos, outros com centenas de anos —, muitos deles bestsellers acadêmicos. Todos os títulos daqueles livros sugeriam a mesma premissa que Langdon acabava de

propor. À medida que lia a lista, Faukman ia adquirindo o ar de alguém que acabasse de descobrir que a Terra era efetivamente plana.

— Conheço alguns destes autores. São... historiadores de verdade!

Langdon sorriu.

— Como vê, Jonas, não é só a minha teoria. Anda por aí há muito tempo.

Estou apenas elaborando com base nela. Nenhum livro, até hoje, explorou a lenda do Santo Graal de um ponto de vista simbológico. As provas iconográficas que tenho descoberto para apoiar a teoria são... bem, espantosamente convincentes.

Faukman continuava olhando para a lista.

— Meu Deus, um destes livros foi escrito por Sir Leigh Teabing... um historiador da British Royal Academy.

— Teabing passou a maior parte da vida estudando o Santo Graal. Falei com ele.

Na realidade, foi em grande parte o meu inspirador. É um crente, Jonas, como todos os outros que fazem parte dessa lista.

—

Está

me

dizendo

que

todos

estes

historiadores

acreditam

verdadeiramente... — Faukman engoliu em seco, aparentemente incapaz de pronunciar as palavras.

Langdon voltou a sorrir.

— O Santo Graal é talvez o tesouro mais procurado de toda a história da humanidade. Engendrou lendas, guerras, buscas que duraram vidas inteiras. Fará sentido que se trate de uma simples taça? Se sim, então com toda certeza outras relíquias deveriam despertar um interesse igual ou ainda maior... a Coroa de Espinhos, a Verdadeira Cruz da Crucifixão, o Titulus..., mas isso não aconteceu.

Ao longo da História, o Santo Graal foi sempre especial. — Langdon sorriu. —

Agora já sabe porquê.

Faukman ainda estava abanando a cabeça.

— Mas com todos estes livros escritos a respeito dela, porque é que a teoria não é mais geralmente conhecida?

— Estes livros não podem competir com séculos de História estabelecida, especialmente quando essa História tem o aval do maior bestseller de todos os tempos.

Faukman abriu muito os olhos.

— Não me diga que o Harry Potter é a respeito do Santo Graal!

— Estava me referindo à Bíblia.

— Eu sei — disse Faukman, fazendo uma careta.

— Lassaste! — O grito de Sophie rasgou o ar dentro do táxi. Largue-o!

Langdon deu um salto quando Sophie se debruçou sobre o banco da frente, gritando com o motorista, que tinha o microfone do rádio na mão.

Sophie voltou-se e meteu a mão no bolso do casaco de Langdon. Antes que ele percebesse o que estava acontecendo, ela já tinha tirado de lá a pistola do guarda do museu e apertava a ponta do cano contra a nuca do taxista. O homem largou imediatamente o rádio e ergueu a mão livre acima da cabeça.

— Sophie! — exclamou Langdon, chocado. — Que diabo...

— Arrêtez! — ordenou Sophie.

Tremendo, o taxista obedeceu, parando o carro e colocando-o em ponto morto. Foi então que Langdon ouviu a voz metálica da despachante da central da companhia saindo do autofalante:

— ...qui s’apelle agent Sophie Neveu, et un américain, Robert Langdon...

Os músculos de Langdon se enrígeceram. Já nos descobriram?

— Descendez — exigiu Sophie.

O trêmulo taxista manteve os braços erguidos acima da cabeça enquanto descia do táxi e recuava vários passos . Sophie tinha baixado o vidro da janela e continuava apontando a arma ao assustado motorista.

— Robert — disse, calmamente. — Passe para o volante. Você dirige.

Langdon não ia discutir com uma mulher que empunhava uma arma. Desceu do carro e sentou-se ao volante. O taxista gritava pragas, com as mãos erguidas acima da cabeça.

— Robert — disse Sophie, do banco traseiro, — suponho que já viu o suficiente da nossa floresta mágica?

Mais ao que o suficiente, pensou ele, assentindo.

— Ótimo. Leve-nos daqui para fora.