O Código Da Vinci
Capítulo Vinte e Oito
— Não, mas...
— Também nenhum dos homens que vigiavam o perímetro a viu sair. Só a viram entrar.
Collet estava estupefato com a ousadia de Sophie. Ainda está no edifício?
— Trate disso — continuou Fache. — Quero Langdon e a Neveu detidos quando chegar aí.
Enquanto o caminhão TIR se afastava, o capitão Fache reuniu os seus homens.
Robert Langdon provara ser uma presa escorregadia, e com a agente Neveu a ajudá-lo, podia tornar-se mais difícil de encurralar do que tinham esperado.
Decidiu não correr riscos.
Por uma questão de segurança, mandou metade dos agentes regressar ao Louvre, enquanto os restantes iam vigiar o único outro lugar de Paris onde Robert Langdon poderia encontrar refúgio.
C A P Í T U L O 28
Na Salle des États, Langdon olhava espantado para as seis palavras que brilhavam na placa de Plexiglas. O texto parecia pairar no espaço, lançando uma sombra recortada sobre o enigmático sorriso da Mona Lisa.
— O Priorado! — murmurou. — Isto prova que o seu avô era membro!
Sophie olhou para ele, confusa.
— Compreende o que está escrito ali?
— Claro — assentiu Langdon, com o cérebro funcionando a todo o vapor. —
É a proclamação de uma das filosofias mais fundamentais do Priorado.
Sophie voltou a olhar para a mensagem escrita sobre o rosto da Mona Lisa.
Em inglês, como a que Jacques Saunière escrevera no chão junto do lugar onde tinha morrido.
SO DARK THE CON OF MAN
— “Tão negra a mentira do homem”? — murmurou Sophie, tentando uma tradução que fizesse sentido.
— A tradição do Priorado de perpetuar o culto da deusa baseia-se — explicou Langdon — na convicção de que homens poderosos pertencentes à primitiva Igreja cristã enganaram o mundo propagando mentiras que desvalorizavam o feminino e faziam pender a balança para o lado do masculino.
Sophie permaneceu silenciosa, olhando para as palavras.
— O Priorado acredita que Constantino e os seus sucessores masculinos conseguiram converter o mundo do paganismo matriarcal ao cristianismo patriarcal montando uma campanha de propaganda que demonizou o sagrado
feminino, obliterando para sempre a deusa da nova religião.
A expressão de Sophie continuava a revelar incerteza.
— O meu avô mandou-me a este lugar para encontrar isto. Devia estar tentando me dizer mais qualquer coisa.
Langdon percebeu o que ela queria dizer. Pensa que isto é outro código. Se havia ou não ali um significado escondido, era coisa que não podia dizer naquele instante. O seu espírito estava ainda lidando com a ousada clareza da mensagem de Saunière.
Tão negra a mentira do homem, pensou. Negra, sem dúvida. Ninguém podia negar o bem enorme que a Igreja moderna fazia no conturbado mundo atual, e, no entanto, essa mesma Igreja tinha uma história de falsidade e violência. A brutal cruzada para “reeducar” as religiões pagãs e os cultos femininos prolongara-se por três séculos, com o recurso a métodos tão inspirados como horríveis.
A Inquisição católica publicara o livro que podia sem exagero ser considerado o texto mais ensopado em sangue de toda a história humana. Malleus Maleficarum — ou O Martelo das Bruxas — alertava o mundo para os perigos das “mulheres livres-pensadoras” e ensinava o clero a descobri-las, torturá-las e destruí-las. Pertenciam ao grupo das que a Igreja considerava “bruxas” todas as eruditas, sacerdotisas, as ciganas, as místicas, as amantes da natureza, as coletoras de ervas e qualquer mulher “suspeitosamente sintonizada com o mundo natural”. Também as parteiras eram mortas por usarem os seus conhecimentos de medicina para aliviar as dores do parto — um sofrimento, afirmava a Igreja, que Deus muito justamente impusera às mulheres como castigo por Eva ter partilhado o Fruto do Conhecim ento, dando assim origem à ideia do Pecado Original.
Durante trezentos anos de caça às bruxas, a Igreja queimara na fogueira uns estarrecedores cinco milhões de mulheres.
A propaganda e a orgia de sangue tinham resultado.
O mundo atual era uma prova viva disso mesmo.
As mulheres, outrora celebradas como a metade essencial da iluminação espiritual, tinham sido banidas dos templos de todo o mundo. Não havia mulheres que fossem rabis ortodoxos, nem padres católicos, nem clérigos islâmicos. O outrora sagrado ato de Hieros Gamos — a natural união sexual entre homem e mulher através da qual ambos se tornavam espiritualm ente completos — passara a ser apresentado como uma coisa vergonhosa. Homens santos que em outros tempos precisavam da união sexual com os respectivos equivalentes femininos para comungar com Deus temiam agora os seus impulsos sexuais normais, considerando-os obra do diabo de conluio com o seu cúmplice preferido: a mulher.
Nem sequer a associação feminina ao lado esquerdo tinha escapado à difamação da Igreja. Na França e na Itália, as palavras para “esquerda” —
gaúche e sinistra — acabaram por adquirir conotações profundamente negativas, enquanto o lado direito era sinônimo de retidão, habilidade, correção. Ainda na atualidade, o pensamento radical era considerado ala esquerda, o mau humor era acordar para a esquerda, e tudo o que fosse mau era sinistro.
Os dias da deusa tinham chegado ao fim. O pêndulo balançara. A Mãe-Terra tornara-se um mundo do homem, e os deuses da destruição e da guerra cobravam o seu tributo. Durante dois mil anos, o ego masculino correra à solta sem o freio do seu par feminino. O Priorado de Sião acreditava que fora esta obliteração do sagrado feminino que causara aquilo a que os índios Hopi da América chamavam koyanisquatsi – “vida sem equilíbrio” —, uma situação instável marcada por guerras inspiradas pela testosterona, uma plétora de sociedades misóginas e um crescente desrespeito pela Terra-Mãe.
— Robert! — O sussurro de Sophie trouxe-o de volta à realidade. — Vem alguém!
Ele também ouviu os passos que se aproximavam, lá fora na galeria.
— Aqui! — Sophie apagou a lanterna de luz negra e pareceu evaporar-se de repente.