O Código Da Vinci
Capítulo Cento e Três
Sou um fantasma.
Uma brisa passou por ele, transportando consigo o cheiro úmido e terroso de uma nova vida. com todas as célulasdo seu corpo alquebrado, Silas rezou. Rezou pedindo perdão. Rezou pedindo misericórdia. E, acima de tudo, rezou pelo seu mentor... o bispo Aringarosa... para que Deus não o levasse antes de tempo. Tem ainda tanto que fazer.
O nevoeiro revoluteava agora à volta dele, e Silas sentia-se tão leve que teve certeza de que os fiapos o levariam para longe. Fechando os olhos, rezou uma última oração.
Em algum lugar do meio da névoa, a voz de Manuel Aringarosa sussurrou-lhe:
“O nosso Deus é um Deus bom e misericordioso”.
A dor de Silas começou finalmente a desvanecer-se, e ele soube que o bispo tinha razão.
C A P Í T U L O 103
A tarde chegava ao fim quando o Sol rompeu por entre as nuvens e a cidade começou a secar. Bezu Fache sentia-se esgotado, quando saiu da sala de interrogatórios e fez sinal a um táxi. Sir Leigh Teabing proclamara vociferantemente a sua inocência, e no entanto, pelas suas incoerentes divagações a respeito do Santo Graal, documentos secretos e irmandades misteriosas, Fache suspeitava de que o astuto historiador estava preparando o palco para uma alegação de insanidade mental.
Pois, pensou Fache. Louco. Teabing dera provas de uma engenhosa precisão na forma como formulara um plano que protegia passo-a-passo a sua inocência.
Explorara o Vaticano e a Opus Dei, duas entidades que tinham acabado por revelar-se completamente inocentes. O trabalho sujo fora feito por um monge fanático e um bispo desesperado, que não sabiam para quem trabalhavam nem o que estava acontecendo na verdade. Mais inteligentemente ainda, situara o seu posto de escuta eletrônica no único lugar da casa onde um homem que tinha sofrido de poliomielite nunca poderia chegar. A vigilância fora levada a cabo pelo mordomo, Rémy o único que conhec ia a verdadeira identidade de Teabing e que agora aparecera convenientemente morto em consequência de uma reação alérgica.
A informação transmitida por Collet a partir de Château Villette sugeria que Teabing era tão refinadamente astuto que o próprio Fache teria alguma cois a a aprender com ele. Para instalar aparelhos de escuta em alguns dos mais poderosos gabinetes de Paris, o historiador britânico imitara os Gregos. Cavalos de Troia. Alguns dos seus alvos recebiam como oferta magníficas obras de arte, outros licitavam, sem saberem o que estavam comprando, em leilões onde ele colocara lotes específicos. No caso de Saunière, o conservador fora convidado
para jantar em Château Villette a fim de discutir a possibilidade de financiamento uma nova Ala da Vinci no Louvre. O convite incluía um inócuo pós-escrito em que o inglês manifestava o seu fascínio por um cavaleiro medieval francês robotizado que, segundo se dizia, Saunière teria construído.
Traga para o jantar, sugeria Teabing. Aparentemente, Saunière fizera isso mesmo e deixara o cavaleiro sozinho tempo suficiente para que Rémy Legaludec lhe fizesse uma inconspícua adição.
Agora, sentado no banco traseiro do táxi, Fache fechou os olhos. Mais uma coisa a tratar antes de regressar a Paris.
A sala de recobro do St. Mary’s Hospital estava cheia de sol.
— Impressionou a todos nós — disse a enfermeira, sorrindo-lhe. — Foi um autêntico milagre.
O bispo Aringarosa esboçou um débil sorriso.
— Sempre fui abençoado.
A enfermeira saiu, deixando-o sozinho. A tépida luz do Sol era como uma agradável carícia no rosto de Aringarosa. A noite anterior fora a mais negra da sua vida.
Pensou tristemente em Silas, cujo corpo fora encontrado no parque.
Por favor, perdoe-me, meu filho.
Aringarosa desejara ardentemente que Silas fizesse parte do seu glorioso plano.
Na noite anterior, porém, recebera um telefonema de Bezu Fache, questionando-o a respeito da sua aparente ligação com uma monja que fora assassinada em Saint-Sulpice.
Compreendera então que tudo correra horrivelmente mal. E a notícia dos quatro outros assassínios transformara o seu horror em angústia. Silas, o que foi que fez! Incapaz de contatar o Professor, soubera que fora posto de lado. Usado.
A única maneira de travar a horrível sequência de acontecimentos que ajudara a desencadear era confessar tudo a Fache e, a partir desse momento, o capitão e o bispo tinham tentado encontrar Silas antes que o Professor o convencesse a voltar a matar.
Exausto até à medula, Aringarosa fechou os olhos e ouviu na televisão a notícia da detenção de um proeminente cavaleiro britânico, Sir Leigh Teabing. O
Professor exposto a nu aos olhos de todos. Teabing soubera da intenção do Vaticano de desligar-se da Opus Dei. E escolhera Aringarosa como o peão perfeito para a execução do seu plano.
Afinal, quem mais provavelmente correria às cegas atrás do Santo Graal do que um homem como eu, com tudo a perder? O Graal conferiria um poder enorme a quem o possuísse.
Leigh Teabing escondera matreiramente a sua identidade — fingindo um sotaque francês e um coração piedoso e pedindo como pagamento a única coisa que não precisava: dinheiro. Em Aringarosa, a ambição não deixara lugar para a desconfiança. O preço, vinte milhões de euros , parecera uma ninharia em comparação ao prêmio — o Santo Graal —, e o pagamento da dívida do Vaticano à Opus Dei facilitara o acordo financeiro. Os cegos veem o que querem ver. O derradeiro insulto de Teabing fora, claro, a exigência de que o pagamento fosse feito em títulos do Vaticano, de modo que se alguma coisa corresse mal, a investigação conduzisse a Roma.
— Alegra-me ver que está bem, monsenhor.
Aringarosa reconheceu a voz áspera que soou à porta, mas o rosto foi uma surpresa — feições duras, poderosas, cabelos lustrosos penteados para trás, um pescoço de touro que parecia revoltar-se contra o aperto do terno escuro.
— Capitão Fache? — perguntou. A compaixão e cuidado que o capitão demonstrara em relação à situação dele na noite anterior tinham conjurado imagens de um exterior bem mais gentil.
O capitão aproximou-se da cama e pousou em cima de uma cadeira uma maleta preta, que parecia pesada.
— Creio que isto lhe pertence.
Aringarosa olhou para a maleta, cheia de títulos do Vaticano, e desviou imediatamente o olhar, sentindo apenas vergonha.
— Sim... obrigado. — Fez uma pausa, enquanto passava os dedos pela costura do lençol, e então continuou — Capitão, pensei muito nisto, e preciso pedir-lhe um favor.
— Com certeza.
— As famílias daqueles que Silas... — Voltou a calar-se, engolindo a emoção.
— Sei que dinheiro nenhum poderia ser compensação suficiente, e no entanto, se
me fizesse o favor de distribuir o conteúdo dessa mala por eles... os familiares dos que foram mortos.
Os olhos escuros de Fache estudaram-no por um longo momento.
— Um gesto virtuoso, monsenhor. Me certificarei que se fará conforme deseja.
Um silêncio pesado instalou-se entre eles. Na televisão, um agente da polícia francesa estava sendo entrevistado diante de uma luxuosa mansão.
— Tenente Collet — perguntava um jornalista da BBC, em tom acusador —, a noite passada, o seu capitão acusou publicamente dois inocentes de assassinato. Pensa que Robert Langdon e Sophie Neveu vão exigir reparações do seu Departamento? Julga que este caso significou o fim da carreira do capitão Fache?
O sorriso do tenente Collet foi cansado mas calmo.
— A experiência me diz que o capitão Bezu Fache só muito raramente comete erros. Ainda não falei com ele a respeito deste assunto, mas, sabendo como funciona, suspeito que a acusação pública contra a agente Neveu e o senhor Langdon fez parte de uma tática para chegar ao verdadeiro assassino.
Os jornalistas trocaram olhares surpresos.
— Se o senhor Langdon e a agente Neveu foram ou não participantes voluntários da armadilha, é algo que ignoro — continuou o tenente Collet. — O
capitão Fache tem uma marcada tendência para não divulgar os seus métodos mais criativos. Tudo o que posso confirmar, neste momento, é que o capitão deteve o verdadeiro responsável e que o senhor Langdon e a agente Neveu estão inocentes e em segurança.
Fache tinha um ligeiro sorriso nos lábios quando se voltou para Aringarosa.
— Um bom elemento, aquele Collet.
Decorreram vários segundos. Finalmente, Fache passou a mão pela testa, alisando os cabelos e olhou para Aringarosa.
— Monsenhor, antes de regressar a Paris, há uma última questão que gostaria de discutir... A sua imprevista visita a Londres. Subornou o piloto para alterar o rumo. Ao fazê-lo, violou várias leis internacionais.
Aringarosa afundou na cama.
— Estava desesperado.
— Sim. Tal como o piloto, quando os meus homens o interrogaram. — Fache meteu a mão no bolso e tirou de lá um anel de ouro com uma ametista púrpura e uma aplicação em forma de mitra e báculo.
Aringarosa sentiu as lágrimas correrem-lhe pelas facesenquanto aceitava o anel e o enfiava no dedo.
— É uma grande generosidade. — Agarrou a mão de Fache e apertou-a. —
Obrigado.
Fache agitou a mão, como que minimizando o gesto, e, aproximando-se da janela, ficou olhando para a cidade, com os pensamentos claramente muito longe dali.
Quando se voltou, havia nele um ar de incerteza.