O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 6 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo Três

Ansiando os efeitos depuradores da sua própria agonia, murmurou uma rápida oração. Então, pegando uma ponta da corda, fechou os olhos e a fez rodopiar com força por cima do ombro, sentindo os nós baterem-lhe nas costas.

Continuou a flagelar-se, golpeando a pele, uma e outra vez.

Castigo corpus meum.

Finalmente, sentiu o sangue começar a correr.

C A P Í T U L O 3

O ar agreste de Abril entrava pela janela aberta do Citroen ZX que seguia para sul, passando diante da Ópera e atravessando a Place Vendôme. Sentado ao lado do condutor, Robert Langdon sentia a cidade passar por ele enquanto tentava aclarar as ideias. Um banho rápido e uma escanhoada com a máquina de barbear tinham-no deixado mais ou menos apresentável, mas contribuído muito pouco para lhe diminuir a ansiedade. A imagem assustadora do corpo do conservador Saunière não lhe saía da cabeça.

Jacques Saunière está morto.

Aquela morte causava-lhe uma irreprimível e profunda sensação de perda.

Apesar da sua reputação de pessoa reservada, a dedicação às artes de que sempre dera provas fazia do conservador do Louvre um homem geralmente querido e respeitado. Os livros que escrevera sobre os códigos secretos escondidos nos quadros de Poussin e Teniers contavam-se entre os manuais de estudo que Langdon mais usava nas suas próprias aulas. Aguardara com intensa expectativa o encontro daquela noite, e sentira-se desapontado quando Saunière não aparecera.

Mais uma vez, a visão do cadáver atravessou-lhe o espírito. Jacques Saunière tinha feito aquilo a si mesmo? Langdon voltou-se e olhou pela janela, expulsando a imagem do pensamento.

Lá fora, a cidade mantinha a mesma azáfama das horas diurnas: vendedores ambulantes empurravam carrinhos carregados de amandes caramelizadas, empregados de restaurantes carregavam sacos de lixo para o passeio, um casal de namorados procurava no calor das carícias uma defesa contra a brisa perfumada pelo aroma dos jasmins.

O Citroen atravessava autoritariamente todo este caos, com a sua dissonante sereia de dois tons cortando o trânsito como uma faca.

— O capitaine ficou contente por saber que ainda estava em Paris — disse o policial, falando pela primeira vez desde que tinham saído do hotel. — Uma coincidência feliz.

Langdon s entia-se tudo menos feliz, e coincidência era um conceito em que não acreditava. Como alguém que passara a vida explorando as interligações escondidas de emblemas e ideologias díspares, tinha tendência para ver o mundo como uma trama de histórias e acontecimentos profundamente entretecidos. As ligações podem não ser visíveis, costumava dizer aos seus alunos de Simbologia em Harvard, mas estão sempre lá, escondidas logo abaixo da superfície.

— Deduzo — disse — que a Universidade Americana de Paris lhes disse onde eu estava hospedado?

O tenente abanou a cabeça.

— A Interpol.

A Interpol, pensou Langdon. Claro. Esquecera que o aparentemente inócuo costume que os hotéis europeus tinham de exigir a apresentação de um passaporte no ato de registrro não era uma curiosa formalidade, era a Lei. Em qualquer noite, por toda a Europa, os agentes da Interpol podiam saber exatamente quem estava dormindo onde.

Encontrá-lo no Ritz não demorara provavelmente mais do que cinco segundos.

Enquanto o Citroen acelerava para sul através da cidade, a silhueta iluminada da torre Eiffel surgiu ao longe, do lado direito, apontando para o céu. Ao vê-la, Langdon pensou em Vittoria, recordando a promessa que, um ano antes e meio de brincadeira, tinham feito de, todos os seis meses, voltarem a encontrar-se em um local romântico diferente. A torre Eiffel teria com toda certeza feito parte da lista. Infelizmente, beijara

Vittoria pela última vez em um barulhento aeroporto de Roma, havia mais de um ano.

— Já foi lá? — perguntou o policial, olhando para ele.

— Perdão? — sobressaltou-se Langdon, apanhado de surpresa.

— É maravilhosa, não é? — O tenente apontou para a torre através do para-

brisas. — Já a subiu?

— Não, ainda não — respondeu Langdon.

— É o símbolo da França. Para mim, é perfeita.

Langdon assentiu distraidamente. Os simbologistas faziam com frequência notar que a França — um país afamado pelo seu machismo, costumes dissolutos e líderes diminutos e inseguros como Napoleão e Pepino, o Breve — não poderia ter escolhido como emblema nacional nada mais apropriado do que um falo com trezentos metros.

No cruzamento com a Rue de Rivoli, o semáforo estava vermelho, mas o Citroen nem sequer abrandou. O tenente passou como uma tromba e continuou a acelerar, descendo um trecho ladeado de árvores da Rue Castiglione, que servia de entrada norte aos famosos Jardinsdas Tulherias, a versão parisiense de Central Park. A maior parte dos turistas traduzia erradamente a designação de Jardins dês Tuileries como tendo qualquer coisa a ver com os milhares de tulipas que floresciam ali, mas Tuileries era na realidade uma referência literal a algo muito menos romântico. Aquele parque fora em tempos uma enorme e feia cova de onde os parisienses extraíam o barro com que manufaturavam as famosas telhas

— ou tuiles — vermelhas dos seus telhados.

Quando entraram no parque deserto, o tenente meteu a mão debaixo do tablier e desligou a incômoda sirene. Langdon deixou escapar um suspiro, saboreando o súbito silêncio. À frente do carro, os feixes pálidos dos faróis de halogênio varriam o saibro compactado do caminho, no qual os pneus zuniam entoando um ritmo hipnótico. Langdon sempre considerara as Tulherias solo sagrado. Fora naqueles jardins que Claude Monet experimentara formas e cores e literalmente inspirara o nascimento do movimento impressionista. Naquela noite, porém, pesava sobre o local uma estranha atmosfera de sombria premonição.

O Citroen virou à esquerda, seguindo para oeste ao longo da alameda principal do parque. Contornando um lago circular, o tenente atravessou uma silenciosa avenida e entrou no vasto espaço quadrangular que ficava a seguir.

Langdon avistou o fim do Jardim, assinalado por um gigantesco arco de pedra.

O Arc du Carrousel.

Não obstante os rituais orgiásticos que em tempos tinham decorrido junto ao Arc du Carrousel, os aficcionados da arte reverenciavam aquele lugar por uma razão completamente diferente. Da esplanada onde terminavam as Tulherias avistava-se quatro dos mais fabulosos museus de arte do mundo, um em cada ponto cardeal.

À sua direita, na direção sul e do outro lado do Sena e do Quai Voltaire, Langdon viu a fachada espectacularmente iluminada da velha estação ferroviária, agora o célebre Musée d’Orsay. Olhando para a esquerda, distinguia a parte superior do ultramoderno Centro Pompidou, que albergava o Museu de Arte Moderna. Atrás dele, para oeste, o antigo obelisco de Ramsés espreitava por cima das copas das árvores, assinalando a localização do Musée du Jeu de Paume.

Bem à sua frente, a leste, do outro lado do arco, erguia-se o monolítico palácio renascentista que se tornara o mais famoso museu de arte do mundo.

O Louvre.

Langdon sentiu o já familiar arrepio de espanto maravilhado enquanto os seus olhos tentavam inutilmente abarcar toda a massa do edifício. Ao fundo da enorme praça-fronteira, o Louvre er a como uma cidadela recortada contra o céu de Paris. Com a forma de uma grande ferradura, era o edifício mais comprido da Europa, maior do que três torres Eiffel deitadas umas a seguir às outras. Nem sequer os cem mil metros quadrados da praça que se estendia entre as duas alas do museu conseguia ofuscar a magnificência da fachada. Certa vez, Langdon percorrera a pé todo o perímetro do Louvre, uma espantosa caminhada de quatro quilômetros e meio.

Calculava-se que seriam necessárias cinco semanas para que um visitante contemplasse devidamente as 65 300 obras de arte conservadas no museu, embora a maior parte dos turistas preferisse uma experiência abreviada a que Langdon costumava chamar “Louvre Light” — uma espécie de sprint para ver os três objetos mais famosos: a Mona Lisa, a Vênus de Milo e a Vitória Alada. Art Buchwald gabara-se certa vez de ter visto as três obras-primas em cinco minutos e cinquenta e seis segundos.

O tenente pegou num pequeno rádio e falou rapidamente em francês:

— Monsieur Langdon est arrivé. Deux minutes.

Do outro lado veio uma confirmação indecifrável. O tenente devolveu o aparelho ao bolso do casaco e voltou-se para Langdon.

— O capitaine espera-o na entrada principal — disse.

E, ignorando os sinais que proibiam o tráfego automóvel na praça acelerou e galgou o passeio. A entrada principal do museu era agora visível, erguendo-se ousadamente à distância, rodeada por sete tanques triangulares de onde jorravam fontes iluminadas.

La Pyramide.

A nova entrada do Louvre de Paris tornara-se quase tão famosa como o próprio museu. A controversa e neomoderna pirâmide de vidro concebida pelo arquiteto americano de origem chinesa I. M. Pei continuava a atrair o escárnio dos tradicionalistas, na opinião dos quais destruía a dignidade da praça renascentista. Goethe descrevera a arquitetura como música petrificada, e os detratores de Pei descreviam a sua pirâmide como unhas raspando em uma ardósia. Os admiradores progressistas, em contrapartida, exaltavam a construção de vidro transparente com vinte e um metros e sessenta e cinco centímetros de altura como uma espectacular sinergia de estrutura antiga e método moderno —

um elo simbólico entre o antigo e o novo — que abria ao Louvre a porta do próximo milênio.

— Gosta da nossa pirâmide? — perguntou o tenente. Langdon franziu o sobrolho. Os franceses adoravam, segundo parecia, fazer esta pergunta aos americanos. Era, claro, uma armadilhada. Admitir que gostava da pirâmide transformava a vítima num tosco americano sem o menor bom gosto, manifestar desagrado era tomado como um insulto.

— Mitterrand era um homem ousado — respondeu, dividindo a diferença.

Dizia-se que o falecido presidente francês, que encom endara a pirâmide a Pei, sofria de um “complexo faraônico”. Responsável por ter enchido Paris de obeliscos, obras de arte e artefatos egípcios, François Mitterrand tivera tal afinidade com a cultura nilótica que os Franceses continuavam a chamar-lhe a Esfinge. — Como se chama o seu capitão? — perguntou, mudando de assunto.

— Bezu Fache — respondeu o tenente, aproximando-se da entrada principal da pirâmide. — Chamamos-lhe lê Taureau.

Langdon olhou para ele, perguntando a si mesmo se todos os franceses teriam uma misteriosa alcunha animal.

— Chamam o Touro ao seu capitão? O homem arqueou as sobrancelhas.

— O seu francês é melhor do que quer admitir, monsieur Langdon.

O meu francês é uma porcaria, pensou Langdon, mas a minha iconografia zodiacal é bastante boa, muito obrigado. Taurus era sempre o touro. A astrologia era uma constante simbólic a em todo o mundo. O tenente parou o carro e apontou, por entre duas fontes, para uma grande porta na face da pirâmide.

— Ali tem a entrada. Boa sorte, monsieur.

— Não vem?

— As minhas ordens eram para trazê-lo até aqui. Tenho outros assuntos a tratar.

Langdon deixou escapar um suspiro e desceu. O circo é seu, pensou.

O tenente engatou a primeira, acelerou e afastou-se a grande velocidade.

Ali de pé vendo as lanternas traseiras do carro desaparecerem na noite, Langdon percebeu que podia muito facilmente reconsiderar, atravessar a praça, apanhar um táxi e voltar para a cama. Alguma coisa lhe disse que era provavelmente uma péssima ideia.

Enquanto avançava por entre a bruma de água das fontes, teve a perturbadora sensação de estar transpondo um limiar invisível para um outro mundo. A sensação onírica daquela noite estava uma vez mais a envolvê-lo. Vinte minutos antes, dormia no seu quarto de hotel. Agora, encontrava-se de pé diante da pirâmide de vidro mandada construir pela Esfinge, à espera de ser recebido por um polícia a que chamavam o Touro.

Estou preso num quadro do Dali, pensou.

Dirigiu-se à entrada principal — uma enorme porta giratória. O átrio que ficava para lá dela, escassamente iluminado, estava deserto.

Bato à porta?

Perguntou a si mesmo se alguma vez algum respeitado Egitologista de Harvard teria batido à porta de uma pirâmide esperando que lhe respondessem.

Ergueu a mão para bater no vidro, mas das sombras lá embaixo surgiu uma figura, subindo a escadaria encurvada. O homem, atarracado e escuro, quase Neanderthal, vestia um casaco assertoado que a largura dos ombros repuxava, como se estivesse apertado. Caminhava com um ar de inconfundível autoridade sobre pernas curtas e fortes. Vinha falando pelo celular, mas terminou a chamada antes de chegar. Fez sinal a Langdon para que entrasse.

— Chamo-me Bezu Fache — anunciou, enquanto Langdon passava pela

porta giratória. — Capitão da Direção Central da Polícia Judiciária. — O tom combinava: um ribombar gutural, como um prenúncio de tempestade.