O Código Da Vinci
Capítulo Setenta e Quatro
— Não sei — respondeu o controlador, sinceramente. — O avião seguiu o rumo habitual e o último contato por radar indica o Reino Unido. Biggin Hill é uma hipótese extremamente provável.
— Ia mais alguém com ele?
— Juro que não tenho como saber. Os nossos clientes podem seguir diretamente para os respectivos hangares e embarcar quem quiserem. Quem segue a bordo é responsabilidade dos funcionários da alfândega no aeroporto de destino.
Fache consultou o relógio e lançou um olhar aos vários jatos estacionados em frente do terminal.
— Se foram para Biggin Hill, dentro de quanto tempo aterrissarão?
O controlador remexeu nervosamente na papelada.
— É um voo curto. O avião poderá estar no chão às... por volta das seis e meia.
Dentro de quinze minutos.
Fache franziu o sobrolho e voltou-se para um dos seus homens.
— Arranje-me um transporte. Vou a Londres. E entre em contato com a Polícia local de Kent. Não o MI5. Quero manter esta história o mais discreta possível. APolícia local. Diga-lhes que eu quero que o avião de Teabing seja autorizado a aterrissar. Depois quero-o cercado na pista. Ninguém desembarca antes de eu chegar.
C A P Í T U L O 74
— Está muito calada — observou Langdon, olhando para Sophie, sentada do outro lado da cabina.
— Apenas cansada — respondeu ela. — E o poema. Não sei. Langdon sentia o mesmo. O barulho dos motores e o suave balouçar do avião eram hipnóticos, e ainda lhe doía a cabeça no lugar onde o monge lhe batera.
Teabing continuava lá atrás e Langdon resolveu aproveitar o fato de estar sozinho com Sophie para lhe falar de uma coisa que tinha estado pensando.
— Julgo saber parte da razão por que o seu avô conspirou para nos juntar.
Penso que há qualquer coisa que ele queria que eu lhe explicasse.
— A história do Santo Graal e de Maria Madalena não é o bastante?
Langdon não sabia muito bem como fazer aquilo.
— A mágoa entre os dois. A razão por que não falou com ele durante dez anos.
Penso que talvez tivesse a esperança de que eu pudesse resolver essa parte explicando-lhe o que os afastou.
Sophie agitou-se no assento.
— Não lhe contei o que foi que nos afastou.
Langdon estava observando-a atentamente.
— Assistiu a um rito sexual, não foi?
Sophie encolheu-se.
— Como sabe?
— Sophie, disse-me que assistiu a qualquer coisa que a convenceu de que o seu avô pertencia a uma sociedade secreta. E aquilo que viu perturbou-a tanto que não voltou a falar com ele desde então. Tenho um conhecimento razoável a respeito de sociedades secretas. Não é preciso ter o cérebro de um da Vinci para adivinhar o que viu.
Sophie ficou olhando para ele, sem dizer nada.
— Foi na Primavera? — perguntou Langdon. — Mais ou menos no equinócio? Meados de Março?
Sophie voltou a cabeça para olhar pela janela.
— Foi nas férias da Páscoa. Cheguei a casa uns dias mais cedo.
— Quer contar-me o que se passou?
— Preferia não o fazer. — Voltou-se subitamente para Langdon, com os olhos cheios de emoção. — Não sei o que foi que vi.
— Havia homens e mulheres presentes?
Sophie assentiu, depois de uma brevíssima hesitação.
— Vestidos de branco e de preto?
Ela limpou os olhos e voltou a assentir com a cabeça, parecendo abrir-se um pouco.
— As mulheres tinham vestidos de tule branco... com sapatos dourados.
Seguravam nas mãos esferas douradas. Os homens usavam túnicas pretas e sapatos pretos.
Langdon esforçou-se por esconder a emoção, e no entanto mal podia acreditar no que estava ouvindo. Sophie Neveu testemunhara involuntariamente uma cerimônia sagrada com dois mil anos de idade.
— Máscaras? — perguntou, mantendo a voz calma. — Máscaras andróginas?
— Sim. Todos eles. Máscaras iguais. Brancas para as mulheres. Pretas para os homens.
Langdon lera descrições da cerimônia e compreendia as suas raízes místicas.
— Chama-se Hieros Gamos — disse, gentilmente. — Data de mais de dois mil anos.
Os sacerdotes e sacerdotisas egípcios celebravam-na frequentemente para honraro poder reprodutivo da fêmea. — Fez uma pausa, inclinando-se para ela.
— E se testemunhou um Hieros Gamos sem ter sido devidamente preparada para compreender o seu significado, imagino que tenha sido um grande choque.
Sophie não disse nada.
— Hieros Gamos é grego — continuou ele. — Significa casamento sagrado.
— O rito a que assisti não era um casamento.
— Casamento no sentido de união, Sophie.
— No sentido de sexo, quer dizer.
— Não.
— Não? — Os olhos verde-azeitona dela estavam sondando-o.
Langdon voltou atrás.
— Bem... sim, de certa maneira, mas não como o entendemos hoje. —
Explicou-lhe que embora o que ela tinha testemunhado pudesse parecer um rito sexual, o Hieros Gamos não tinha nada a ver com erotismo. Era um ato espiritual. Historicamente, a relação sexual era o ato através do qual o macho e a fêmea experimentavam Deus. Os Antigos acreditavam que o homem era espiritualmente incompleto até conhecer carnalmente o sagrado feminino. A união física com a mulher recordava o único meio através do qual o homem podia tornar-se espiritualmente completo e, em última análise, chegar à gnosis o conhecimento do divino. Desde os tempos de Ísis que os ritos sexuais eram considerados a única ponte da humanidade entre a terra e o céu. — Ao comungar com a mulher — continuou Langdon —, o homem conseguiu atingir um instante climático em que a sua mente ficava totalmente vazia e ele conseguia ver Deus.
Sophie parecia pouco convencida.
— O orgasmo como oração?
Langdon encolheu os ombros, apesar de, no fundo, Sophie ter razão. Em termos fisiológicos, o clímax masculino era acompanhado por uma fração de segundo inteiramente vazia de pensamento. Um brevíssimo vácuo mental. Um momento de clareza durante o qual era possível vislumbrar Deus. Os gurus da meditação atingiam estados similares de ausência de pensamento sem a ajuda do sexo e descreviam frequentemente o Nirvana como um interminável orgasmo espiritual.
— Sophie — disse, em tom calmo —, é importante ter presente que o modo como os Antigos encaravam o sexo era diametralmente oposto ao nosso. O sexo gerava nova vida... o milagre absoluto... e os milagres só podiam ser realizados por um deus. A capacidade da mulher de produzir vida a partir do útero tornava-a sagrada. Um deus. A relação sexual era a venerada união das duas metades do espírito humano, o masculino e o feminino, através da qual o macho podia
chegar à plenitude espiritual e à comunhão com Deus. Aquilo que viu não tinha nada a ver com sexo, tinha a ver com espiritualidade. O rito do Hieros Gamos não é uma perversão. É uma cerimônia profundamente sacrossanta.
As palavras dele tinham aparentemente tocado um nervo. Sophie mostrara-se muito controlada durante toda a noite, mas agora, pela primeira vez, Langdon via a aura de compostura começar a estalar. Os olhos encheram-se uma vez mais de lágrimas, que ela limpou com a manga do camisolão.
Langdon deu-lhe um momento para se recompor. O conceito do sexo como caminho para Deus podia, de fato, ser inicialmente bastante confuso. Os seus estudantes judeus ficavam sempre com um ar muito espantado quando ele lhes dizia que a primitiva tradição judaica envolvia sexo ritual. No Templo, nada menos. Os antigos Judeus acreditavam que o Santo dos Santos no Templo de Salomão albergava não apenas Deus, mas também a sua poderosa igual feminina, Shekinah. Os homens em busca de plenitude espiritual iam ao Templo visitar sacerdotisas — as hierodules — com as quais faziam amor e experimentavam o divino através da união física. O tetragrama hebraico YHWH
— o nome sagrado de Deus — derivava na realidade de Jehovah, uma união física andrógina entre o masculino Jah e o nome pré-hebraico de Eva, Havah.
— Para a Igreja primitiva — continuou Langdon, no mesmo tom suave —, o fato da humanidade usar o sexo para comungar diretamente com Deus representava uma séria ameaça para a base de poder católica. Deixava a Igreja fora do circuito, minando a sua autoproclamada condição de único canal para Deus. Por razões óbvias, os padres fizeram tudo o que puderam para demonizar o sexo e apresentá-lo como um ato nojento e pecaminoso. Várias outras grandes religiões fizeram o mesmo.
Sophie manteve-se silenciosa, mas Langdon sentia que começava a compreender melhor o avô. Ironicamente, expusera aquele mesmo ponto em uma aula, no início do semestre.
— Será surpreendente que nos sintamos confusos no que respeita ao sexo? —
perguntou Langdon aos seus alunos. — A nossa herança psíquica, e até a nossa própria fisiologia, dizem-nos que o sexo é natural... um caminho para a realização espiritual... e no entanto, as religiões modernas declaram-no vergonhoso e nos ensinam a temer o nosso desejo sexual como a mão do diabo.
Decidiu não chocá-los com o fato de mais de uma dúzia de sociedades
secretas espalhadas por todo o mundo, algumas delas muito influentes, continuarem praticando ritos sexuais e manterem vivas as antigas tradições. A personagem de Tom Cruise no filme De Olhos Bem Fechados descobria isto da maneira mais difícil quando se infiltrava em uma reunião privada da ultraelite de Manhattan e assistia a um Hieros Gamos.
Infelizmente, os autores do filme tinham interpretado mal a maior parte dos pormenores específicos, mas a parte essencial estava lá: uma sociedade secreta comungando para celebrar a magia da união sexual.
— Professor Langdon? — Um aluno sentado em uma das últimas filas levantou a mão, com uma nota de feliz expectativa na voz. — Está dizendo que em vez de irmos à igreja, devíamos ter mais sexo?
Langdon riu, nada disposto a engolir a isca. Pelo que ouvia contar das festas de Harvard, aqueles garotos estavam tendo sexo mais do que suficiente.
— Meus senhores — disse, sabendo que pisava terreno perigoso —, posso fazer uma sugestão a todos? Sem querer ser ousado a ponto de aprovar o sexo pré-marital nem ingênuo ao ponto de acreditar que são todos uns castos anjinhos, vou lhes dar-lhes um conselho relativo à sua vida sexual.
Todos os rapazes da turma se inclinaram para a frente, escutando atentamente.
— Da próxima vez que estiverem com uma mulher, procurem no seu coração e vejam se não conseguem abordar o sexo como um ato espiritual e místico.
Façam a vocês mesmos o desafio de encontrar essa centelha de divindade que o homem só pode alcançar através da união com o sagrado feminino.
As garotas sorriram com o ar de quem sabe, assentindo com a cabeça. Os rapazes trocaram risinhos ambíguos e piadas de mau gosto. Langdon suspirou.
Mesmo universitários, os rapazes continuavam a ser rapazes.
Sophie sentiu o frio do vidro na testa que apertava contra a janela do avião enquanto voltava um olhar ausente para o vazio e tentava processar o que Langdon acabava de lhe dizer. Tinha um novo remorso bem no fundo de si mesma. Dez anos.
Recordou os montes de cartas por abrir que o avô tinha lhe enviado. Vou contar tudo ao Robert. Sem se voltar, começou falando. Em voz baixa, com medo.
À medida que relatava o que acontecera naquela noite, sentiu-se recuar no
tempo... voltar ao bosque fora da casa de férias do avô na Normandia... passar em revista, confusa, as salas desertas, ouvir as vozes vindas do chão... e então encontrar a porta escondida. Voltou a descer, degrau a degrau, a escada de pedra, até à gruta subterrânea. Voltou a sentir o cheiro de terra no ar. Leve e frio. Era o mês de Março. Da escuridão do seu esconderijo na escada, viu os desconhecidos balançarem-se e cantarem à luz bruxuleante e alaranjada dos archotes.
Estou sonhando, disse Sophie para si mesma. Isto é um sonho. Que outra coisa pode ser?
Os homens e as mulheres balançavam-se, preto, branco, preto, branco. As belas túnicas de tule das mulheres ondeavam cada vez que elas erguiam na mão direita os globos de ouro e entoavam em uníssono: “Eu estava contigo no começo, na aurora de tudo o que é sagrado, trouxe-te no ventre antes do início do dia” . As mulheres baixavam os globos, e todos balançavam para a frente e para trás, como que em transe.
Reverenciavam qualquer coisa que estava no centro do círculo. Para que estão eles olhando?
As vozes aceleraram. Mais altas. Mais rápidas.
“A mulher que está vendo é amor!”, cantaram as mulheres, erguendo de novo os globos. “Tem a sua morada na eternidade!”, responderam os homens.
O cântico voltou a acelerar. Era agora atroador. Ainda mais rápido. Os participantes avançaram um passo e ajoelharam.
Nesse instante, Sophie pôde finalmente ver aquilo para que todos eles estavam olhando. Em cima de um altar baixo e ricamente decorado, no meio do círculo, estava um homem. Nu, deitado de costas, com uma máscara preta.
Sophie reconheceu instantaneamente o corpo e o sinal de nascença no ombro.
Quase gr itou. Grand-père! Só aquela imagem teria bastado para chocá-la além do imaginável, mas havia mais.
Montada no avô estava uma mulher, com o rosto coberto por uma máscara branca, os compridos cabelosprateados caídos para as costas. O corpo dela era cheio, longe de ser perfeito, e movia-se ao ritmo do cântico... fazendo amor com o avô de Sophie.
Sophie quis fazer meia volta e fugir, mas não foi capaz. As paredes de rocha da gruta prendiam-na como uma pr isão enquanto o cântico atingia um ritmo