O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 90 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo Oitenta e Sete

Liberte Sir Leigh.

Rémy soltou uma gargalhada.

— Não me agrada a ideia. Eu e ele temos uma história tão bonita. Além disso, ainda pode vir a revelar-se útil.

Silas estava também recuando, sem desviar os olhos e a arma de Langdon e Sophie, enquanto Rémy puxava Leigh para a porta, com as muletas arrastando pelo chão.

— Para quem trabalha? — perguntou Sophie, numa voz que não tremeu.

A pergunta pôs um sorriso no rosto de Rémy.

— Ficaria surpresa se soubesse, mademoiselle Neveu.

C A P Í T U L O 87

A lareira da sala de estar de Château Villette estava apagada e fria, mas apesar disso o tenente Collet andava de um lado para o outro diante dela enquanto lia os faxes da Interpol.

Nada do que tinha esperado.

André Vernet, de acordo com os registros oficiais, era um cidadão exemplar.

Nenhuma espécie de cadastro policial — nem sequer uma multa de estacionamento.

Educado numa escola particular e na Sorbonne, tinha um doutoramento cum laude em Finanças Internacionais. A Interpol dizia que Vernet aparecia ocasionalmente nos noticiários, mas sempre a uma luz muito favorável. Segundo parecia, o homem ajudara a estabelecer os parâmetros que faziam do Banco Depos itário de Zurique um líder no mundo ultramoderno da segurança eletrônica. Os registros dos cartões de crédito mostravam uma preferência por livros de arte, vinhos caros e CDs de música clássica — sobretudo Brahms —

que ouvia um sofisticadíssimo sistema de alta-fidelidade que comprara anos antes.

Zero, suspirou Collet.

A única bandeira vermelha vinda da Interpol era um conjunto de impressões digitais que aparentemente pertenciam ao mordomo de Teabing. O perito-chefe da PTC estava naquele instante estudando o fax, instalado em um dos confortáveis cadeirões da sala.

— Alguma coisa? — perguntou Collet.

O homem encolheu os ombros.

— As impressões pertencem a Rémy Legaludec. Procurado por pequenos

crimes.

Nada de grave. Parece que foi expulso da universidade por ter “arranjado” a central de modo a poder telefonar de graça....

Mais tarde, praticou alguns pequenos furtos. Assaltos por arrombamento.

Fugiu de um hospital sem pagar a conta depois de uma traqueotomia de urgência. — Ergueu os olhos, com uma pequena gargalhada. — Alergia a amendoins.

Collet assentiu, recordando o caso de um restaurante que se esquecera de fazer constar do cardápio que a receita do chili da casa incluía óleo de amendoim. Um cliente incauto morrera à mesa, de choque anafilático, logo à primeira garfada.

— Provavelmente, vive aqui, para evitar ser apanhado. — O perito parecia divertido. — Hoje foi a sua noite de sorte.

Collet voltou a suspirar.

— Muito bem. O melhor é remeter essa informação para o capitão Fache.

O perito acabava de sair quando um outro agente entrou correndo.

— Tenente! Encontramos qualquer coisa nas cavalariças!

Pela expressão ansiosa no rosto do homem, Collet tentou adivinhar.

— Um corpo.

— Não. Qualquer coisa mais... — o agente hesitou. — Inesperada.

Esfregando os olhos, Collet seguiu-o até às cavalariças. Quando entraram no úmido e cavernoso espaço, o homem apontou para uma escada de madeira que se erguia até às traves do teto, encostada à beira de um palheiro suspenso bem lá em cima.

— Aquela escada não estava ali — observou Collet.

— Não, tenente. Fui eu que a coloquei ali. Estávamos recolhendo impressões digitais junto do Rolls quando reparei na escada no chão. Não teria olhado para ela duas vezes se os degraus não estivessem gastos e cheios de lama. O que signific a que a escada é regularmente usada. A altura do palheiro corresponde à da escada, de modo que a levantei e fui lá em cima dar uma olhada.

Collet seguiu com o olhar a inclinação da escada até ao alto palheiro. Alguém vai lá acima r egularmente? Dali de baixo, o palheiro parecia uma plataforma deserta, mas, claro, a sua maior parte não era visível do chão. Um agente

superior da PTC apareceu no topo da escada, olhando para baixo.

— Vai querer ver isto, tenente — disse, indicando a Collet, com um gesto da mão enluvada em borracha, que subisse.

Collet assentiu cansadamente. Dirigiu-se à base da velha escada e agarrou um dos primeiros degraus. A escada era de um modelo antigo, que ia estreitando à medida que subia. Já perto do topo, o tenente quase falhou um estreito degrau. O

chão lá em baixo pareceu rodopiar. Agora mais atento, Collet continuou a subir, até que finalmente chegou ao topo. O agente que estava lá emcima estendeu-lhe prestimosamente uma mão. Collet agarrou-a e fez a desajeitada passagem da escada para a plataforma.

— Está ali — disse o homem da PTC, apontando para um canto do impecavelmente limpo palheiro. — Só encontramos um conjunto de impressões digitais aqui em cima.

Teremos a identificação daqui a um momento.

De pálpebras semicerradas para ver melhor na penumbra que ali reinava, Collet olhou para o extremo oposto do palheiro. Que diabo? Junto à par ede, havia um elaborado posto de trabalho informático: duas CPU, um grande monitor de tela plana com microfones, vários drives para discos rígidos, um console de áudio multicanais que parecia dispor da sua própria fonte de energia.

Porque diabo alguém haveria de vir trabalhar aqui? Collet aproximou-se do equipamento.

— Examinou o sistema?

— É um posto de escuta.

Collet rodou sobre os calcanhares.

— Vigilância?

O agente assentiu.

— Vigilância muito avançada. — Apontou para uma comprida mesa de trabalho coberta de peças, manuais, ferramentas, fios, ferros de soldar e componentes eletrônicos. — Alguém que sabe muito claramente o que está fazendo. Muito do que aqui está é tão sofisticado como o nosso próprio equipamento. Microfones miniaturizados, células fotoelétricas recarregáveis, chips RAM de alta capacidade. Até tem alguns dos novos nanodrives.

Collet estava impressionado.

— Aqui tem um sistema completo — disse o agente, entregando-lhe uma montagem não muito maior do que uma calculadora de bolso. Do aparelho pendia um fio com trinta centímetros de comprimento e um fino pedaço de folha metálica, do tamanho de um selo, preso na ponta. — A base é um disco rígido de gravação áudio de alta capacidade com baterias recarregáveis. Essa peça de metal na ponta do fio é uma combinação de microfone e célula fotoelétrica recarregável.

Collet conhecia-os bem. Aqueles microfones fotocelulares tinham sido uma grande invenção, alguns anos antes. Passara a ser possível fixar um gravador de disco rígido atrás de uma luminária, por exemplo, com o microfone de folha moldado e pintado de modo a tornar-se invisível. Desde que o microfone ficasse posicionado para receber algumas horas de luz solar por dia, as células fotoelétricas continuavam a recarregar o sistema. Aparelhos como aquele podiam manter uma escuta indefinidamente.

— Método de recepção? — perguntou.

O agente apontou para um fio isolado que saía da parte de trás do computador, subia pela parede e saía por um orifício aberto no teto.

— Uma simples onda de rádio. Pequena antena no telhado. Collet sabia que aqueles sistemas de gravação eram geralmente colocados em gabinetes, ativados pela voz para poupar espaço no disco rígido, e gravavam as conversas durante o dia, transmitindo os arquivos de áudio comprimidos durante a noite, para evitar a detecção.