O Código Da Vinci
Capítulo Vinte e Três
Nesse mesmo momento, no Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci, em Roma, a sacudidela dos pneus do avião ao tocarem na pista despertou o bis po Aringarosa da sua sonolência. Cochilei, pensou, espantado por estar suficientemente descontraído para adormecer.
— Benvenuto a Roma — disse uma voz nos altofalantes.
Endireitando-se no banco, Aringarosa alisou a sotaina preta e permitiu-se um raro sorriso. Aquela fora uma viagem que tivera prazer em fazer. Estou na defensiva há muito tempo. Naquela noite, porém, as regras tinham mudado.
Havia apenas cinco meses, Aringarosa temera pelo futuro da Fé. Agora, como que por vontade de Deus, a solução surgira por si mesma.
Intervenção divina.
Se em Paris, tudo corresse como planejado, Aringarosa estaria em breve na
posse de algo que faria dele o homem mais poderoso da cristandade.
C A P Í T U L O 23
Sophie chegou ofegante diante das portas de madeira da Salle des États, a sala onde estava exposta a Mona Lisa. Antes de entrar, olhou relutantemente mais para o fundo da Grande Galeria, onde, a uma distância de cerca de vinte metros, o corpo do avô continuava caído no chão, iluminado pela luz do projetor.
O remorso que lhe apertou o coração foi súbito e poderoso, uma profunda tristeza a que se misturava um pouco de culpa. O avô estendera-lhe tantas vezes a mão ao longo daqueles últimos dez anos, e ela permanecera inflexível, deixando as cartas e as encomendas que ele lhe enviava por abrir na última gaveta da cômoda e frustrando todas as tentativas de contato. Mentiu! Guardou segredos terríveis! Que havia eu de fazer? E por isso pusera-o fora da sua vida.
Completamente.
Agora, o avô estava morto, e mesmo do além continuava tentando falar com ela.
A Mona Lisa.
Estendeu as mãos para as grandes portas de madeira e empurrou. As portas abriram-se. Sophie deteve-se por um instante no umbral, perscrutando a vasta sala retangular. Ela também estava banhada em uma suave luz avermelhada. A Salle des États era um dos raros culs-de-sac do museu: um beco sem saída e a única sala que abria para a Grande Galeria. Aquelas portas, única entrada e saída da câmara, ficavam em frente de um imponente Botticelli com quatro metros e meio, exposto na parede oposta. Entre os dois, no meio da galeria, um grande sofá octogonal oferecia um ponto de pausa onde os milhares de visitantes podiam repousar as pernas enquanto admiravam a mais valiosa das joias do museu.
Antes mesmo de entrar, porém, Sophie soube que lhe faltava qualquer coisa.
Uma fonte de luz negra. Olhou uma vez mais para o corpo estendido do avô, rodeado de aparelhagem electrônica. Se escrevera ali alguma coisa, usara quase com certeza uma caneta de marca de água.
Inspirando fundo, dirigiu-se apressadamente ao bem iluminado local do crime.
Incapaz de olhar para o corpo, concentrou-se no material deixado pela equipe pericial.
Encontrou uma pequena lanterna de luz negra, enfiou-a no bolso do camisolão e regressou o mais depressa que pôde às portas abertas da Salle des États.
Dobrou a esquina e passou o umbral. A sua entrada foi, no entanto, acolhida pelo som inesperado de passos abafados vindos do interior da câmara. Tem alguém aqui!
Uma figura fantasmagórica emergiu repentinamente da sombra avermelhada.
Sophie saltou para trás.
— Ah, finalmente! — o sussurro rouco de Langdon quebrou o silêncio enquanto a silhueta dela se detinha a poucos passos. O alívio de Sophie foi apenas momentâneo.
— Robert, eu lhe disse para sair daqui. Se Fache...
— Onde esteve?
— Precisava de uma fonte de luz negra — murmurou ela, mostrando-lhe a lanterna. — Se o meu avô deixou uma mensagem...
— Sophie, ouça — interrompeu-a Langdon, cravando nos dela os olhos azuis.
— As letras P.S... significam qualquer outra coisa para você? Seja o que for?
Receosa de que as vozes deles ecoassem na galeria deserta, Sophie puxou-o para dentro da Salle des États e fechou silenciosamente as portas.
— Já lhe disse, as iniciais signific am Princesa Sophie.
— Eu sei, mas alguma vez as v iu em outro lugar qualquer? O seu avô usava as letras P.S. de qualquer outra maneira? Como monograma ou talvez em papel de carta ou em um artigo pessoal?
A pergunta sobressaltou-a. Como é que ele sabe? Era verdade, tinha visto as iniciais em uma outra ocasião, uma espécie de monograma. Fora na véspera do
dia em que fazia nove anos, quando estava passando secretamente revista à casa, à procura de presentes de aniversário.
Já nessa época, detestava segredos. O que foi que o avô me comprou este ano?
Revirou armários e gavetas. Será a boneca que eu queria? Onde a terá escondido? Nada encontrando no resto da casa, Sophie reuniu coragem suficiente para entrar no quarto do avô. Estava expressamente proibida de fazê-lo, mas o avô dormia lá em baixo, sentado no sofá.
Vou só dar uma espiadela!
Avançou em pontas de pés sobre as tábuas rangentes do soalho até ao guarda-roupa e olhou para as prateleiras atrás das roupas penduradas. Nada. Depois, procurou debaixo da cama. Nada. Passou à mesa e, abrindo as gavetas uma a uma, revistou-as cautelosamente. Tem de haver qualquer coisa para mim!
Quando chegou à última, não encontrara ainda vestígios de qualquer boneca.
Desanimada, abriu-a e empurrou para o lado umas roupas pretas que nunca vira o avô usar. Preparava-se para desistir quando vislumbrou o brilho do ouro no fundo da gaveta. O coração começou a bater-lhe mais depressa quando percebeu o que devia ser.
Um colar!
Com todo o cuidado, tirou a corrente da gaveta. Para sua surpresa, tinha suspensa na ponta uma refulgente chave de ouro. Pesada e brilhante.
Hipnotizada, ergueu-a nas mãos. Era diferente de qualquer outra chave que já tivesse visto. A maior parte das chaves era achatada, com dentes recortados, mas aquela tinha uma haste triangular coberta de pequenas marcas. A pega tinha a forma de uma cruz, mas não de uma cruz normal. Era uma cruz de braços iguais, como um sinal de mais. Gravado no meio da cruz, viu um estranho símbolo: duas letras entrelaçadas com uma espécie de motivo floral.
— P.S. — murmurou, franzindo a testa enquanto lia as letras. Que quererá isto dizer?
— Sophie? — chamou o avô, da porta.
Assustada, voltou-se bruscamente, deixando cair a chave, que bateu no chão com um ruído surdo.
— Estava... à procura do meu presente de aniversário — disse, baixando a
cabeça, sabendo que tinha traído a confiança dele.
Pelo que lhe pareceu uma eternidade, o avô permaneceu silencioso e imóvel, à porta do quarto. Finalmente, deixou escapar um longo suspiro.
— Pegue a chave, Sophie.
Sophie pegou a chave.
O avô entrou no quarto.
— Sophie, você tem de respeitar a privacidade das outras pessoas. —
Gentilmente, ajoelhou-se junto dela e tirou-lhe a chave das mãos. — Esta chave é muito especial. Se a perdesse...
A voz calma do avô a fez se sentir ainda pior.
— Peço desculpas, grand-père, palavra... Pensei que fosse um colar para o meu aniversário.
O avô ficou olhando para ela pelo espaço de vários segundos.
— Vou lhe dizer isto mais uma vez, Sophie, porque é importante. Tem de aprender a respeitar a privacidade das outras pessoas.
— Sim, grand-père.
— Voltamos a falar nisso em outra ocasião. No momento, o jardim tem ervas daninhas que é preciso arrancar.
Sophie apressou-se a sair, para ir tratar dos seus deveres.
Na manhã seguinte, não recebeu qualquer presente de aniversário do av ô.
Nem estava à espera de receber, depois do que tinha feito. Mas ele nem sequer lhe deu os parabéns durante todo o dia. Nessa noite, foi triste para a cama.
Quando se preparava para se deitar, no entanto, viu um cartão em cima da almofada. No cartão, estava escrito um enigma. Ainda antes de resolve-lo, já estava sorrindo. Já sei o que é! O avô tinha feito o mesmo no último Natal.
Uma caça ao tesouro!
Alvoroçada, estudou o enigma até descobrir a solução. Que a encaminhou para outra parte da casa, onde encontrou outro cartão e outro enigma. Resolveu também este e correu para o seguinte, com o coração em festa, correu de um lado para o outro, de pista em pista, até que, finalmente, encontrou uma que a fez voltar ao quarto. Subiu os a escada saltando dois degraus de cada vez, entrou de rompante no quarto e deteve-se, paralisada. À sua frente, brilhante maravilhosa, estava uma bicicleta vermelha, com uma fita amarrada. Sophie gritou de pura
delícia.
— Eu sei que tinha pedido uma boneca — disse o avô, a sorrir-lhe do canto.
— Mas achei que ia gostar ainda mais disto.
No dia seguinte, o avô a ensinou a andar de bic icleta, correndo ao lado dela no caminho empedrado do jardim. Quando Sophie se desviou para a relva e perdeu o equilíbrio, caíram os dois, rebolando e rindo.
— Grand-père — disse Sophie, abraçando-o —, peço desculpas por aquilo da chave.
— Tudo bem, querida. Estás perdoada. Não consigo ficar zangado com você.
Os avôs e as netas perdoam sempre uns aos outros.
Sophie sabia que não devia perguntar, mas não conseguiu evitá-lo.
— O que é que ela abre? Nunca vi uma chave assim. É muito bonita.
O avô ficou calado por um longo instante, e Sophie percebeu que não sabia muito bem como responder-lhe. O grand-père nunca mente.
— Abre um cofre — disse, finalmente. — Onde guardo muitos segredos.
Sophie amuou.
— Odeio segredos!
— Eu sei, mas estes são segredos importantes. E, um dia, aprenderá a dar-lhes tanto valor como eu dou.
— Vi letras na chave, e uma flor.
— Sim, é a minha flor preferida. Chama-se flor-de-lis. Nós as temos no jardim. São as brancas. Também pode chamá-las de lírios.
— Já sei! Também são as minhas preferidas!
— Então, vou fazer um acordo contigo. — O avô arqueou as sobrancelhas, como costumava fazer sempre que lhe propunha um desafio. — Se conseguir guardar segredo a respeito da minha chave, e nunca mais voltar a falar dela, a mim ou seja a quem for, um dia eu a darei para você.
Sophie nem queria acreditar no que ouvia.
— Palavra?
— Prometo. Quando chegar o momento, a chave será sua. Até tem o seu nome escrito.
Sophie franziu a testa.
— Não, não tem. Diz P.S. Eu não me chamo P.S.!
O avô baixou a voz e olhou em redor, como que a certificar-se de que ninguém os ouvia.
— Muito bem, Sophie, se quer saber, P.S. é um código. São suas iniciais secretas.
Ela abriu muito os olhos.
— Tenho iniciais secretas?
— Claro. Todas as netas têm iniciais secretas que só os avôs conhecem.
— P.S.?
Ele lhe fez cócegas.
— Princesse Sophie.
— Não sou nenhuma princesa! — disse ela, rindo. O avô piscou-lhe um olho.
— É. Para mim.
A partir desse dia, nunca mais voltaram a falar da chave. E ela passara a ser a Princesa Sophie.
Fechada na Salle des États, Sophie permanecia em silêncio, suportando a dor da perda.
— As iniciais — insistiu Langdon, olhando para ela de um modo estranho. —
Já as tinha visto?
Sophie sentiu a voz do avô sussurrando nos corredores do museu. Nunca fale desta chave, Sophie. a mim ou seja a quem for. Sabia que já lhe falhara não lhe perdoando, e perguntou a si mesma se seria capaz de voltar a trair a confiança dele. P.S.
Encontra Robert Langdon. O avô queria que Langdon a ajudasse. Assentiu com a cabeça.
— Sim, vi estas iniciais uma vez. Quando era muito nova.
— Onde?
Sophie hesitou.
— Em uma coisa muito importante para ele.
Langdon prendeu o olhar ao dela.
— Sophie, isto é crucial. Pode me dizer se as iniciais apareciam juntamente com um símbolo? Uma flor-de-lis?
Sophie sentiu-se recuar um cambaleante passo, espantada.
— Mas... mas como é que sabe?
Langdon deixou escapar o ar que retinha nos pulmões e baixou a voz:
— Tenho quase certeza de que o seu avô era membro de uma Sociedade secreta.
Uma irmandade secreta muito antiga.
Sophie sentiu um nó no estômago. Também ela estava certa disso. Durante dez anos, tentara esquecer o incidente que lhe confirmara a terrível verdade.
Testemunhara algo impensável. Imperdoável.
— A flor-de-lis — continuou Langdon — e as iniciais P.S. são o emblema oficial da irmandade. O brasão. O logotipo, por assim dizer.
— Como é que sabe tudo isso? — Sophie estava pedindo a Deus que Langdon não lhe dissesse que também ele era membro.
— Escrevi a respeito desse grupo — respondeu Langdon, com a voz trêmula de excitação. — Pesquisar os símbolos das sociedades secretas é uma das minhas especialidades. Chamam a si mesmos le Prieuré de Sion... o Priorado de Sião. Têm a sua base aqui na França e atraem membros importantes de toda a Europa. Na realidade, são uma das sociedades secretas mais antigas ainda existentes.
Sophie nunca ouvira falar deles.
Langdon falava agora apressadamente, como se temesse não ter tempo para dizer tudo:
— O Priorado tem contado entre os seus membros alguns dos indivíduos mais cultos da História: homens como Botticelli, Sir Isaac Newton, Victor Hugo. —
Fez uma pausa, com a voz a ressumar zelo acadêmico. — E Leonardo da Vinci.
Sophie sobressaltou-se.
— Da Vinci fazia parte de uma sociedade secreta?
— Chefiou o Priorado entre 1510 e 1519, como Grão-Mestre da irmandade, o que talvez ajude a explicar a paixão do seu avô pelas obras dele. Havia entre os dois um laço de fraternidade histórica. E tudo isto encaixa perfeitamente com o fascínio de ambos pela iconologia da deusa, o paganismo, as divindades femininas, e também com o desprezo pela Igreja. O Priorado tem uma história bem documentada de reverência pelo sagrado feminino.
— Está me dizendo que esse grupo é um culto pagão da deusa?
— Diria antes que é o culto pagão da deusa. Mas, mais importante do que isso, são conhecidos como os guardiães de um segredo muito antigo. Um segredo que os torna incomensuravelmente poderosos.
A despeito da convicção absoluta que brilhava nos olhos de Langdon, a reação visceral de Sophie era de total incredulidade. Um culto pagão secreto?
Em tempos encabeçado por Leonardo da Vinci? Tudo aquilo parecia completamente absurdo. E no entanto, ao mesmo tempo que recusava acreditar, sentia a mente recuar dez anos... até à noite em que surpreendera involuntariamente o avô e testemunhara aquilo que continuava a não poder aceitar. Poderá isto explicar...?