O Código Da Vinci
Capítulo Cinco
— Esta área continua interditada à segur ança do museu — continuou Fache.
— A minha equipe de Police Techique e Scientifique acaba de completar a sua investigação. — Voltou a apontar para a Parte inferior da grade. — Por favor.
Langdon olhou para a estreita abertura a seus pés e depois para a maciça grade de ferro. Deve estar brincando, com certeza. A grade parecia uma guilhotina preparada para esmagar qualquer intruso.
Fache resmungou qualquer coisa em francês e consultou o relógio. Pôs-se então de joelhos e fez deslizar o volumoso corpo por baixo da grade. Do outro lado, ergueu-se e olhou para Langdon através das barras.
Langdon suspirou, apoiou as palmas das mãos no parquet encerado, estendeu-se de bruços e empurrou-se para a frente. Ao deslizar, prendeu a gola do casaco na borda inferior da grade e bateu com a nuca no ferro.
Muito suave, Robert, pensou, rastejando desajeitadamente até finalmente conseguir passar. Quando se pôs de pé, começou a suspeitar de que ia ser uma noite muito, muito longa.
C A P Í T U L O 5
Murray Hill Place — a nova sede nacional e centro de conferências da Opus Dei — situa-se no nº 243 da Lexington Avenue, em Nova Iorque. Tendo custado um pouco mais de quarenta e sete milhões de dólares, a torre, com doze mil trezentos e cinquenta metros quadrados de área coberta total, é toda forrada de tijolo vermelho e calcário de Indiana. Desenhado por May Pinska, o edifício comporta mais de cem quartos, seis salões de jantar, bibliotecas, salas de estar e gabinetes. Nos segundo, oito e décimo sexto pisos há capelas decoradas com trabalhos de marcenaria e mármore. O décimo sétimo piso é totalmente residencial. Os homens entram no edifício pela porta principal, na Lexington Avenue. As mulheres entram por uma porta lateral e estão, em todas as ocasiões,
“acústica e visualmente separadas” dos homens.
No começo dessa mesma noite, no santuário do seu apartamento de cobertura, o bispo Manuel Aringarosa preparou um pequeno s aco de viagem e envergou uma tradicional sotaina preta. Normalmente, ataria uma faixa púrpura à volta da cintura, mas, uma vez que se preparava para viajar entre o público, não quis atrair a atenção para o seu alto cargo. Só os mais atentos reparariam no anel episcopal de ouro de catorze quilates com a ametista púrpura, os grandes diamantes e a aplicação de ouro com a forma de uma mitra um báculo trabalhada à mão. Pôs o saco de viagem ao ombro, rezou uma oração silenciosa e saiu do apartamento, descendo no elevador até ao vestíbulo onde o motorista esperava para levá-lo ao aeroporto.
Pouco depois, instalado a bordo de um voo comercial com destino a Roma, contemplava, através da janela, o escuro Atlântico. O Sol já tinha se posto, mas Aringarosa sabia que a sua própria estrela estava em ascensão. Esta noite, a batalha será ganha, pensou, espantado pelo fato de, apenas meses antes, ter se
sentido impotente contra as mãos que ameaçavam destruir o seu império.
Como presidente-geral da Opus Dei, o bispo Aringarosa passara a última década da sua vida a divulgar a mensagem da Obra de Deus — literalmente, Opus Dei. A congregação, fundada, em 1928, pelo padre espanhol Josemaría Escrivá, promovia o regresso aos valores católicos tradicionais e encorajava os seus membros a fazer grandes sacrifícios pessoais para poderem levar a cabo a Obra de Deus.
A filosofia tradicionalista da Opus Dei começara por lançar raízes na Espanha anterior ao regime de Franco, mas, com a publicação, em 1934, do livro espiritual de Escrivá, Caminho — 999 pontos de meditação para fazer na vida a Obra de Deus —, a mensagem se alastrara pelo mundo. Agora, com mais de quatro milhões de exemplares de O Caminho publicados em quarenta e duas línguas, a Opus Dei era uma força global.
Tinha residências, centros de ensino e até universidades em todas as principais metrópoles da Terra. A Opus Dei era, a nível mundial, a organização católica que apresentava a mais elevada taxa de crescimento e a situação financeira mais firme.
Infelizmente, como Aringarosa depressa descobrira, em uma era de cinismo religioso, cultos e tele-evangelis tas, o poder e a riqueza de que dispunha eram também um ímã que atraía suspeitas.
— Muitos os consideram um culto alienante. Outros os chamam uma sociedade secreta cristã ultraconservadora. Qual destas coisas é a Opus Dei? —, perguntavam com frequência os jornalistas, em tom de provocação.
— Nem uma, nem outra —, respondia pacientemente o bispo. — Somos uma Igreja Católica. Somos uma congregação de católicos que escolheram como sua prioridade seguir a doutrina católica nas nossas vidas quotidianas o mais rigorosamente que pudermos.
— A Obra de Deus incluirá necessariamente votos de castidade, o pagamento do dízimo e a penitência pelos pecados através da autoflagelação e do uso de cilícios?
— Está descrevendo apenas uma pequena parte da população da Opus Dei —, dizia o bispo. — Há muitos níveis de envolvimento. Milhares de membros da Opus Dei são casados, têm família e fazem Obra de Deus no seio das suas próprias comunidades.
Outros preferem viver em ascetismo na clausura das nossas residências. Estas escolhas são pessoais, mas todos na Opus Dei partilhamos o objetivo de tornar o mundo melhor fazendo a Obra de Deus. É certamente um propósito admirável.
Ah, mas a razão raramente convencia. A mídia gravitava para o escândalo, e a Opus Dei, como a maior parte das grandes organizações, contava entre os seus membros algumas almas perdidas que lançavam uma sombra sobre todo o conjunto.
Dois meses antes, um grupo da congregação em uma universidade do Midwest fora apanhado drogando novos recrutas com mescalina na tentativa de induzir um estado eufórico que os neófitos tomassem por uma experiência religiosa. Um outro estudante universitário usara o seu cilício durante mais tempo do que as recomendadas duas horas diárias e c ontraíra uma infecção que quase o matara. Em Boston, bastante recentemente, um jovem e desiludido banqueiro doara as poupanças de uma vida inteira à Opus Dei antes de tentar suicidar-se.
Ovelhas tresmalhadas, pensava Aringarosa, e o seu coração voava para eles.
O grande embaraço fora, claro, o muito publicitado julgamento do espião do FBI Robert Hanssen, que, além de ser um proeminente membro da Opus Dei, acabara por se revelar culpado de práticas sexuais desviantes. No julgamento, ficara provado que equipara o seu quarto com câmaras de vídeo escondidas para que os amigos pudessem vê-lo tendo relaçõescom a mulher. “O que dificilmente se poderá considerar um passatempo adequado a um católico devoto”, observara o juiz.
Infelizmente, todos estes acontecimentos tinham ajudado ao aparecimento de um novo grupo de vigilância conhecido como Opus Dei Awareness Network (ODAN). O concorridíssimo website deste grupo — www.odan.org — publicava histórias assustadoras narradas por ex-membros que alertavam para o perigo de aderir à organização. Os meios de comunicação referiam-se agora à Opus Dei como “a Máfia de Deus” e “o Culto de Cristo”.
Receamos aquilo que não compreendemos, pensou Aringarosa, Perguntando a si mesmo se aqueles críticos fariam alguma ideia quantas vidas a Opus Dei tinha enriquecido. O grupo gozava do pleno aval e da bênção do Vaticano. A Opus Dei é uma prelatura pessoal do próprio Papa.
Recentemente, no entanto, vira-se ameaçada por uma força infinitamente
mais poderosa do que a imprensa.... um inimigo inesperado do qual Aringarosa não tinha meio de se esconder. Cinco meses antes, o caleidoscópio do poder fora sacudido, e Aringarosa estava ainda se refazendo do golpe.
— Nem imaginam a guerra em que se meteram —, murmurou o bispo para si mesmo, olhando através da janela do avião para o negro oceano lá embaixo. Por um instante, refocou os olhos, demorando-os no reflexo do seu próprio rosto —
escuro e oblongo, dominado por um nariz achatado e adunco, partido por um murro quando era um jovem missionário, em Espanha. Uma deficiência física que ele agora quase não notava. O mundo de Aringarosa era o mundo da alma, não o da carne.
Quando o avião sobrevoava a costa de Portugal, o celular começou a vibrar no bolso da sotaina de Aringarosa, com o sinal sonoro desligado. Mal-grado as regras da companhia que proibiam o uso de telefones celulares durante o voo, Aringarosa sabia que aquela era uma chamada que não podia perder. Apenas um homem conhecia aquele número, o mesmo que lhe enviara o telefone pelo correio.
Excitado, o bispo respondeu em voz baixa:
— Sim?
— Silas localizou a Chave de Abóbada — disse a voz. — Está em Paris. Na igreja de
Saint-Sulpice.
O bispo Aringarosa sorriu.
— Então estamos perto.
— Podemos consegui-la imediatamente. Mas precisamos da sua influência.
— Com certeza. Diga-me o que devo fazer.
Quando desligou o celular, Aringarosa tinha o coração a bater com força.
Olhou mais uma vez para o vazio da noite, sentindo-se um anão face aos acontecimentos que acabava de desencadear.
A oitocentos quilômetros dali, o albino chamado Silas, inclinado para uma pequena bacia cheia de água, lavava o sangue que lhe escorria das costas, observando os esfiapados padrões de vermelho que se desenhavam no líquido.
Purga-me com o hissope e ficarei limpo, rezou, citando os Salmos. Lava-me, e ficarei mais branco do que a neve.
Silas sentiu uma excitação expectante que não experimentava desde os tempos da sua antiga vida, uma excitação que o surpreendeu e ao mesmo tempo o eletrizou. Havia uma década que seguia O Caminho, lavando-se do pecado...
reconstruindo a sua vida... apagando a violência do seu passado. Naquela noite, porém, tudo voltara, numa vaga avassaladora. O ódio que tanto se esforçara por enterrar fora chamado à superfície.
Ficara espantado pela rapidez com que o passado ressurgira. E com ele, claro, tinham regressado as suas capacidades, enferrujadas mas utilizáveis.
A mensagem de Jesus é uma mensagem de paz... de não-violência... de amor.
Era esta a mensagem que lhe tinham ensinado desde o início, a mensagem que gravara no coração. E no entanto, era esta a mensagem que os inimigos de Cristo ameaçavam agora destruir. Aqueles que ameaçam Deus com a força, encontrarão a força. Inamovível e firme. Durante dois milênios, os soldados de Cristo tinham defendido a sua fé contra aqueles que tentavam destruí-la. Naquela noite, Silas fora chamado à batalha.