O Código Da Vinci
Capítulo Oitenta e Quatro
Em Londres jaz um cavaleiro que um papa enterrou.
Langdon sentiu-se tremer à medida que avançava.
Tinha de ser aquele o lugar.
C A P Í T U L O 84
Rémy Legaludec estacionou o Jaguar atrás de uma fila de caixotes de lixo industriais, um sujo beco muito próximo de Temple Churc h. Desligando o motor, inspecionou a área. Deserta. desceu, dirigiu-se à traseira do carro e entrou na ampla cabina da limusine, onde estava o monge.
Ao sentir a presença de Rémy, o albino pareceu emergir de uma espécie de transe de oração e ergueu para ele olhos onde havia mais curiosidade do que temor. Durante toda a noite, Rémy sentira-se impressionado pela capacidade do homem amarrado para manter a calma. Depois de alguma resistência inicial, no Range Rover, parecia ter-se resignado à sua sorte e confiado o futuro a um poder superior.
Desapertando o laço de pescoço, Rémy desabotoou o alto colarinho engomado, de pontas reviradas, e sentiu-se como se pudesse finalmente respirar pela primeira vez em anos. Abriu a porta do bar e serviu a si mesmo um vodca Smirnoff, que bebeu de um só trago, logo seguido de um segundo.
Em breve serei um homem rico.
Procurou no bar até encontrar o saca-rolhas. Abriu a lâmina, normalmente usada para cortar o envoltório de folha de chumbo das garrafas de bom vinho.
Naquela manhã, porém, ia servir um propósito bem mais dramático. Voltou-se para Silas, mostrando-lhe a lâmina refulgente.
Um clarão de medo perpassou pelos olhos vermelhos do homem.
Rémy sorriu e aproximou-se da traseira do carro. O monge encolheu-se e forcejou por libertar-se das amarras que o prendiam.
— Quieto — sussurrou Rémy, erguendo a lâmina.
Silas não queria acreditar que Deus o tivesse abandonado. Até a dor física de
estar amarrado transformara em exercício espiritual, pedindo ao latejar dos músculos privados de sangue que lhe recordasse a dor que Cristo suportara. Toda a noite rezei pedindo a libertação. Naquele instante, enquanto a lâmina descia, Silas fechou os olhos com força.
Uma chicotada de dor atravessou-lhe as omoplatas. Gritou, incapaz de acreditar que ia morrer ali, na parte de trás daquela limusine, sem poder defender-se. Estava fazendo o trabalho de Deus. O Professor disse que me protegeria.
Sentiu o calor mordente espalhar-se-lhe pelos ombros e imaginou o seu próprio sangue escorrendo pelas costas. No instante seguinte, uma dor dilacerante verrumou-lhe as coxas, e sentiu o início da familiar vaga de desorientação — o mecanismo de defesa do corpo contra a dor.
Enquanto o ardor se alastrava a todos os seus músculos, Silas fechou os olhos ainda com mais força, decidido a que a última imagem da sua vida não fosse a do homem que o matara. Em vez disso, imaginou um bispo Aringarosa mais jovem, diante de uma pequena igreja, na Espanha... a igreja que ele e Silas tinham construído com as suas próprias mãos. O começo da minha vida. Silas sentia todo corpo em fogo.
— Beba isto — murmurou o homem de smoking, com um sotaque francês —
Ajuda a restabelecer a circulação.
Silas abriu os olhos, surpreso. Uma imagem confusa inclinava-se para ele, oferecendo-lhe um copo cheio de líquido. No chão do carro, ao lado da lâmina sem uma gota de sangue, havia um monte de fita isolante.
— Beba — repetiu o homem. — A dor que sente é do sangue voltando aos músculos.
Silas sentiu o latejar ardente começar e transformar-se em um formigueiro doloroso, como se estivesse sendo picado por milhares de agulhas. A vodca sabia horrivelmente mal, mas bebeu-o, agradecido. A sorte dera-lhe um bom naco de má sorte naquela noite, mas Deus salvara tudo com uma miraculosa reviravolta.
Deus não me abandonou.
Sabia como o bispo Aringarosa chamaria àquilo.
Intervenção divina.
— Queria tê-lo libertado mais cedo — disse o mordomo —, mas foi
impossível. Com a Polícia chegando a Château Villette, e depois ao aeródromo de Biggin Hill, esta foi a primeira oportunidade que tive. Compreende isto, não é verdade, Silas?
Silas recuou o corpo, sobressaltado.
— Sabe o meu nome?
O homem sorriu.
Silas sentou-se direito, massagenado os músculos r ígidos, e as suas emoções eram uma torrente de incredulidade, gratidão e confusão.
— É o... Professor?
Rémy abanou a cabeça, rindo da ideia.
— Quem me dera ter esse tipo de poder. Não, não sou o Professor. Sirvo-o, tal como você. Mas o Professor fala muito elogiosamente de você.
Silas estava estupefato.
— Não compreendo. Se trabalha para o Professor, porque foi que Langdon levou a Chave para a sua casa?
— Não é a minha casa. É a casa do mais eminente historiador do Graal do mundo, Sir Leigh Teabing.
— Mas você vive lá. As probabilidades...
Rémy sorriu, parecendo não ter qualquer problema com a aparente coincidência do refúgio escolhido por Langdon.
— Era tudo perfeitamente previsível. Robert Langdon tinha a Chave de Abóbada, e precisava de ajuda. Que lugar lhe pareceria mais lógico como esconderijo do que a casa de Leigh Teabing? Foi precisamente pelo fato de eu lá viver que o Professor me contatou.
— Fez uma pausa. — Como é que acha que o Professor sabe tanto a respeito do Graal?
Silas compreendeu, e ficou aturdido. O Professor recrutara um criado que tinha acesso a todas as investigações de Sir Leigh Teabing. Era brilhante.
— Tenho muito para lhe contar — continuou Rémy, devolvendo a Silas a Heckler and Koch, carregada. Depois, estendeu o braço através da divisória e tirou um pequeno revólver do porta-luvas. Mas, antes disso, há uma coisa que tenho de fazer.
O capitão Fache desceu do avião que o levara ao aeródromo de Biggin Hill e
ouviu, incrédulo, o relato do inspetor-chefe de Kent sobre o que se passara no hangar de Sir Teabing.
— Eu próprio revistei o avião — insistiu o inspetor —, e não havia ninguém lá. — O tom tornou-se altivo. — E devo acrescentar que se Sir Leigh Teabing apresentar queixa contra mim, vou...
— Interrogou o piloto?
— Claro que não. É francês, e a nossa jurisdição exige...
— Leve-me ao avião.
Chegando ao hangar, Fache precisou apenas de sessenta segundos para detectar uma anômala mancha de sangue no chão, perto do lugar onde a limusine estivera estacionada.Dirigiu-se ao jato e bateu com força na fuselagem.
— Sou o capitão Fache, da Polícia Judiciária francesa. Abra a porta!
O aterrorizado piloto abriu a porta e baixou a escada.
Fache subiu. Cinco minutos depois, com a ajuda da pistola, tinha conseguido uma confissão completa, incluindo uma descrição do monge albino amarrado e amordaçado.
Além disso, ficou sabendo que o piloto vira Langdon e Sophie deixarem qualquer coisa no cofre de Teabing, uma caixa de madeira. Embora negasse saber o que estava dentro da caixa, o homem admitira que, fosse o que fosse, concentrar a toda a atenção de Langdon durante o voo até Londres.
— Abra o cofre — exigiu Fache.
O piloto estava cada vez mais aterrorizado.
— Não sei a combinação!
— É uma pena. Preparava-me para lhe oferecer a possibilidade de conservar a sua licença de voo.
O piloto torcia as mãos, desesperado.
— Conheço algunshomens da manutenção aqui do aeródromo. Talvez eles consigam abri-lo?
— Tem meia hora.
O piloto saltou para o rádio.
Fache foi até o fundo do avião e serviu-se de uma bebida. Era cedo, mas como não chegara a deitar-se, não contava como beber antes do meio-dia.
Sentado em um dos confortáveis assentos, fechou os olhos, tentando perceber o
que se tinha acontecido. A trapalhada da Polícia de Kent pode me custar caro.
Agora, todos estavam à procura de uma limusine Jaguar preta.
O celular tocou, e Fache desejou um momento de paz.
— Sim?
— Estou a caminho de Londres. — Era o bispo Aringarosa. — Chego dentro de uma hora.
Fache endireitou-se no assento.
— Pensei que ia para Paris.
— Estou muitíssimo preocupado. Alterei os meus planos.
— Não devia tê-lo feito.
— Encontrou o Silas?
— Não. Os captores conseguiram enganar a Polícia local antes de eu aterrissar.
O tom de Aringarosa subiu, irritado.
— Tinha garantido que deteria o avião.
Fache baixou a voz.
— Eminência, considerando a s ua situação, aconselho-o a não pôr a minha paciência à prova. Encontrarei o Silas e os outros logo que for possível. Onde vai aterrar?
— Um momento. — Aringarosa tapou o microfone do celular por um momento. — O piloto está tentando conseguir autorização de Heathrow. Sou o único passageiro, mas a alteração do plano de voo não estava prevista.
— Diga-lhe que venha para o aeródromo executivo de Biggin Hill, em Kent.
Eu arranjo-lhe autorização. Se não estiver aqui quando aterrissar, terei um carro à sua espera.
— Obrigado.
— Como tive ocasião de lhe dizer quando falamos pela primeira vez, Eminência, faria bem em lembrar-se de que não é o único que corre o risco de perder tudo.
Í