O Código Da Vinci
Capítulo Sessenta e Quatro
Centenas de quilômetros a sul dali, um Beechcraft Baron 58 alugado voava para norte por cima do mar Tirreno. Apesar da quietude dos céus, o bispo Aringarosa agarrava com as duas mãos um saco para o enjoo, seguro de que ia precisar dele de um momento para o outro. A conversa que tivera com Paris não fora nada do que tinha imaginado.
Sozinho na pequena cabina, Aringarosa girou o anel de ouro à volta do dedo e tentou acalmar a esmagadora sensação de medo e desespero. Em Paris, correu tudo terrivelmente mal. Fechando os olhos, Aringarosa rezou para que Bezu Fache tivesse os meios necessários para remediar a situação.
C A P Í T U L O 64
Teabing estava sentado no divã, com a caixa de roseira pousada no colo, admirando a rosa intricadamente embutida na tampa. Esta noite acabou por ser a mais estranha e a mais mágica de toda a minha vida.
— Levante a tampa — sussurrou Sophie, de pé diante dele, ao lado de Langdon.
Teabing sorriu. Não me apressem. Depois de passar mais de dez anos à procura daquela Chave de Abóbada, queria saborear cada milissegundo do momento.
— A Rosa — murmurou. — A Rosa é Madalena é o Santo Graal. A Rosa é a bússola que aponta o caminho. — Sentiu-se tolo. Durante anos, viajara pelas catedrais e igrejas de França, pagando para ter direito a um acesso especial, examinando centenas de arcos e abóbadas por baixo de rosáceas, procurando a Chave de Abóbada codificada. La Clef de Voûte... uma chave de pedra sob o signo da Rosa.
Abriu lentamente o fecho e levantou a tampa.
Quando finalmente pousou os olhos no conteúdo da caixa, soube que só podia ser a Chave de Abóbada. Estava olhando para um cilindro de pedra, constituído por anéis interligados e marcados com letras. O objeto pareceu-lhe estranhamente familiar.
— Construído a partir dos diários de da Vinci — explicou Sophie. — O meu avô fazia-os como passatempo.
Claro, compreendeu Teabing. Tinha visto os esboços e os planos. A chave para encontrar o Santo Graal esta dentro desta pedra. Retirou o pesado criptex de dentro da caixa, segurando-o gentilmente. Apesar de não fazer a mínima ideia de
como abrir o cilindro, sentiu que o seu destino estava ali dentro. Em momentos de desesperança, muitas vezes perguntara a si mesmo se o esforço de uma vida inteira seria alguma vez recompensado. Agora, essas dúvidas tinham desaparecido para sempre. Ouvia as antigas palavras... a base da lenda do Graal: Vous ne trouvez pas le Saint-Graal, c’est le Saint-Graal qui vous trouve.
Ninguém encontra o Santo Graal, é o Santo Graal que nos encontra.
E naquela noite, incrivelmente, a chave para encontrar o Santo Graal entrara-lhe pela porta dentro.
Enquanto Sophie e Teabing, sentados no divã com o criptex, falavam do vinagre, dos anéis e de qual poderia ser a senha, Langdon levou a caixa de roseira para uma mesa bem iluminada, do outro lado da sala, para examiná-la melhor. Uma frase que Teabing dissera andava-lhe às voltas na cabeça.
A chave do Graal está escondida sob o signo da Rosa.
Ergueu a caixa de madeira para a luz e examinou o símbolo embutido.
Embora a sua familiaridade com a arte não incluísse marcenaria nem marchetaria, acabav a de recordar o famoso teto de azulejos de um mosteiro espanhol dos arredores de Madrid, de onde, três séculos depois de ter sido construído, os azulejos tinham começado a cair, revelando textos sagrados escritos pelos monges no estuque que tapavam.
Voltou a olhar para a rosa.
Sob a Rosa.
Sub-Rosa.
Segredo.
Um ruído no corredor, atrás dele, o fez se voltar. Não viu nada senão sombras.
O mordomo de Teabing tinha muito provavelmente acabado de passar. Voltou a dedicar a sua atenção à caixa. Passou os dedos pelo suave contorno do embutido, perguntando a si mesmo se seria possível retirar a Rosa, mas a junção era perfeita. Duvidou que até uma lâmina de barbear coubesse entre a rosa embutida e a depressão milimetricamente escavada onde estava encaixada.
Abriu a caixa e examinou o interior da tampa. Era liso e suave. Ao mudá-la de posição, no entanto, a luz apanhou o que parecia ser um minúsculo orifício, situado exatamente no centro. Fechou a tampa e examinou o motivo embutido na face superior.
Nenhum orifício.
Não atravessa a tampa.
Pousou a caixa em cima da mesa e, olhando em redor, descobriu um monte de papéis presos por um clip metálico. Retirou o clip e voltou à caixa, abriu-a e estudou novamente o orifício. com extremo cuidado, endireitou o clip e introduziu uma ponta no orifício. Empurrou muito de leve. Quase não foi preciso fazer força. Ouviu qualquer coisa cair com um ligeiro ruído em cima da mesa.