O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 19 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo Dezesseis

Deteve-se na sombra do maciço pórtico e inspirou fundo. Só naquele instante percebeu verdadeiramente o que se preparava par a fazer, e o que o esperava lá dentro.

A Chave de Abóbada. Nos conduzirá ao nosso objetivo final.

Ergueu o punho branco de fantasma e bateu três vezes.

Instantes depois, os ferrolhos da enorme porta de madeira começaram a mover-se.

C A P Í T U L O 16

Sophie perguntou a si mesma quanto tempo demoraria Fache para perceber que ela não chegara a sair do edifício. Vendo que Langdon estava claramente esmagado, interrogou-se sobre se teria sido boa ideia encurralá-lo no banheiro dos homens.

Que outra coisa eu poderia fazer?

Reviu mentalmente o corpo do avô, morto e estendido no chão de braços e pernas abertas. Houvera um tempo em que aquele homem fora tudo para ela, e no entanto, naquela noite, surpreendia-se ao descobrir que quase não sentia pena.

Jacques Saunière tornara-se um desconhecido. A relação que existira entre ambos esfumara-se num único instante, em uma noite de Março, quando tinha vinte e dois anos. Há dez anos.

Regressara uns dias mais cedo de um curso de pós-graduação em uma universidade inglesa e vira involuntariamente o avô fazendo algo que não era obviamente suposto ela ver. Uma imagem em que, passados dez anos, ainda mal conseguia acreditar.

Se não tivesse visto com os meus próprios olhos...

Muito envergonhada e aturdida para suportar as desastradas tentativas de explicação do avô, Sophie saíra imediatamente de casa dele, pegando o dinheiro que conseguira poupar e alugando um pequeno apartamento que partilhava com algumas colegas. Jurara nunca falar fosse a quem fosse do que tinha visto. O avô tentara desesperadamente entrar em contato com ela, enviando-lhe postais e cartas, suplicando-lhe que o deixasse explicar. Explicar como? Sophie nunca respondeu, exceto uma vez: para proibi-lo de telefonar-lhe ou tentar encontrar-se com ela em público. Tinha medo de que as explicações fossem ainda mais

aterradoras do que o incidente em si.

Incrivelmente, Jacques Saunière nunca desistira, e Sophie tinha agora uma década de cartas por abrir guardadas em uma gaveta da cômoda. A crédito do avô, tinha de reconhecer que nunca desobedecera à intimação dela tentando telefonar-lhe.

Até esta tarde.

— “Sophie?” A voz dele soara surpreendentemente velha no atendedor automático.

— “Tenho acatado os seus desejos até agora... e custa-me muito telefonar, mas preciso falar contigo. Aconteceu uma coisa terrível.”

De pé na cozinha do seu apartamento em Paris, Sophie sentiu um arrepio gelado ao voltar a ouvi-lo passados todos aqueles anos. A voz meiga do avô trouxe à superfície uma vaga de recordações de infância.

— “Sophie, por favor, ouça-me.” — Estava falando em inglês, como costumava fazer quando ela era uma garotinha. Pratique o francês na escola.

Pratique inglês em casa. — “Não pode ficar zangada para sempre. Não leu as cartas que te mandei ao longo de todos estes anos?” — Fez uma pausa. —

“Temos de falar urgentemente. Por favor, conceda ao seu avô este desejo. Ligue-me no Louvre. Imediatamente. Penso que ambos corremos um grave perigo.”

Sophie ficou olhando para o atendedor automático. Perigo? Do que ele estava falando?

— “Princesa...” — A voz do avô quebrou-se com uma emoção que ela não conseguiu identificar. — “Sei que te escondi coisas, e sei que isso me custou o teu amor. Mas foi para sua própria segurança. Agora precisa saber a verdade. Por favor, tenho de contar a verdade a respeito da sua família.”

De repente, Sophie conseguia ouvir o bater do seu próprio coração. A minha família? Os pais tinham morrido quando ela era ainda uma criança de quatro anos. O carro em que viajavam galgara o parapeito de uma ponte e caíra em um rio de águas tumultuosas. A avó e o irmão mais novo também estavam no carro, de modo que toda a sua família desaparecera de um momento para o outro.

Tinha uma caixa de recortes de jornais que o confirmavam.

As palavras do avô desencadearam uma inesperada onda de saudade que lhe chegou ao âmago. Naquele fugaz instante, viu imagens, o sonho que tantas vezes

a acordara quando era pequena: Estão vivos e voltaram para casa! Mas, tal como no seu sonho, as imagens dissolveram-se.

Estão todos mortos, Sophie. Não vão voltar para casa.

— “Sophie...” — continuou a voz do avô no atendedor. — “Há anos que espero para te dizer. Tenho estado à espera do momento certo, mas agora o tempo se esgotou. Ligue-me para o Louvre. Logo que ouvir isto. Vou esperar aqui a noite toda. Receio que estejamos ambos em perigo. Há tanto que você precisa saber.”

A mensagem terminava aqui.

No silêncio que se seguiu, Sophie ficou de pé, imóvel e tremendo, pelo que lhe pareceu vários minutos. Considerando bem a mensagem do avô, só uma possibilidade fazia sentido, e a verdadeira intenção dele tornou-se clara. Era um engodo.

Obviamente, o avô queria muito vê-la. Estava disposto a tentar todos os truques. A aversão que sentia pelo homem tornou-se ainda mais profunda. Disse a si mesma que talvez ele estivesse doente, em fase terminal, e tivesse decidido tentar todos os estratagemas de que conseguisse lembrar-se para levá-la a visitá-lo uma última vez. Se era esse o caso, escolhera bem.

A minha família.

Agora, no lavabo dos homens do Louvre, ouvia ecos da mensagem daquela tarde.

Sophie, podemos estar em perigo. Telefone-me.

Não tinha telefonado. Nem planejara fazê-lo. Agora, porém, o seu ceticismo estava sendo duramente questionado. O avô jazia assassinado no interior do seu próprio museu.

E tinha escrito uma mensagem cifrada no chão.

Uma mensagem de que era ela a destinatária. Disso tinha certeza.

Apesar de não compreender o significado daquela mensagem, Sophie tinha certeza de que a sua natureza crítica era prova adicional de que se lhe destinava.

A sua paixão e habilidade para a criptografia eram uma das consequências de ter crescido ao lado de Jacques Saunière — ele próprio um maníaco de charadas, jogos de palavras e palavras cruzadas. Quantos domingos passamos resolvendo os criptogramas e as palavras cruzadas dos jornais?

Naquela noite, a criptóloga que havia nela via-se forçada a respeitar a eficiência com que o avô usara um simples código para juntar dois desconhecidos: Sophie Neveu e Robert Langdon.

A questão era: porquê?

Infelizmente, pela expressão de confusão nos olhos de Langdon, Sophie sentiu que o americano não sabia mais do que ela a respeito dos motivos que tinham levado o avô a juntá-los.

Voltou à carga.

— O senhor e o meu avô tinham combinado encontrar-se esta noite. Para falar de quê?

Langdon parecia verdadeiramente perplexo.

— A secretária dele marcou o encontro, não deu qualquer razão específica e eu não perguntei. Assumi que tinha sabido que eu ia dar uma conferência sobre a iconografia pagã das catedrais francesas, se interessava pelo tema e pensado que seria divertido nos encontrarmos para uma bebida depois da palestra.

Sophie não acreditou. A ligação era muito frágil. O avô sabia mais a respeito de iconografia pagã do que qualquer outra pessoa em todo o mundo. Além disso, era um homem extraordinariamente reservado, nada dado a c onversas com professores americanos de passagem a menos que tivesse uma razão muito forte.

Inspirou fundo e resolveu ir um pouco mais longe.

— O meu avô me telefonou esta tarde e me disse que ele e eu corríamos um grave perigo. Significa alguma coisa para você?

Os olhos azuis de Langdon estavam velados de preocupação.

— Não, mas considerando o que acabou por acontecer...

Sophie assentiu. Considerando os acontecimentos daquela noite, teria de ser louca para não estar assustada. Sentindo-se esgotada, aproximou-se da pequena janela na parede mais distante do banheiro e ficou olhando em silêncio através da trama de fitas de alarme embebidas na vidraça. Estavam muito acima do nível da praça. Doze metros, pelo menos.

Com um suspiro, ergueu os olhos e contemplou a deslumbrante paisagem noturna de Paris. À esquerda, do outro lado do Sena, a Torre Eiffel, refulgente de luzes. Em frente, o Arco do Triunfo. E à direita, no alto de Montmartre, a graciosa cúpula coberta de arabescos do Sacré-Coeur, cujas pedras polidas

brilhavam como um resplandecente santuário. Ali, na extremidade mais ocidental da Ala Denon, a faixa de rodagem do sentido norte-sul da Place du Carrousel corria quase colada ao edifício, apenas com um estreito passeio a separá-la da parede exterior do Louvre. Lá em baixo, a habitual caravana de caminhões de entregas esperava, com os motores ronronando, que o semáforo mudasse para verde, e os faróis eram olhos que piscavam ironicamente para ela

— Não sei que lhe dizer — confessou Langdon, aproximando-se dela. — O

seu avô estava obviamente tentando dizer-nos qualquer coisa. Lamento ser de tão pouca ajuda.

Sophie voltou-se, detectando uma genuína pena na voz grave de Langdon.

Era evidente que, apesar de todos os problemas que o atormentavam, continuava a querer ajudá-la. É o professor que há nele, pensou Sophie, recordando o resumo da DCPJ sobre o suspeito. Era um acadêmico que, segundo toda a evidência, detestava não compreender.

Temos isso em comum, pensou.

Como decifradora de códigos, Sophie passara a sua vida tentando extrair um significado de dados aparentemente sem sentido. Naquela noite, o seu palpite era que Robert Langdon, quer soubesse ou não, possuía informação que ela precisava desesperadamente. Princesa Sophie, Encontre Robert Langdon. A mensagem não podia ser mais clara. Sophie precisava de mais tempo com aquele homem, tempo para pensar.

Tempo para, juntos, deslindarem aquele mistério. Infelizmente, o tempo estava esgotando-se.

Erguendo os olhos para Langdon, Sophie fez a única jogada que conseguiu se lembrar.

— Bezu Fache vai detê-lo de um momento para o outro. Posso fazê-lo sair deste museu. Mas temos de agir já.

Langdon abriu muito os olhos.

— Quer que eu fuja?

— É a única coisa inteligente que pode fazer. Se deixar o Fache detê-lo, vai passar semanas em uma cadeia francesa enquanto a DCPJ e a embaixada dos Estados Unidos discutem que tribunal tem competência para julgar o seu caso.

Mas se conseguirmos levá-lo daqui para fora e chegar à embaixada, o governo

americano protegerá o seus direitos enquanto nós dois provamos que não teve nada a ver com este assassinato.

Langdon parecia não estar nem sequer remotamente convencido

— Esqueça! Fache tem guardas armados em todas as saídas! Mesmo que escapássemos sem sermos abatidos a tiro, fugir só serviria para me fazer parecer ainda mais culpado. O que tem de fazer é dizer ao Fache que a mensagem escrita no chão se destinava a você e que o meu nome não está ali como uma acusação.

— É o que vou fazer — prometeu Sophie, falando apressadamente —, mas só depois de deixá-lo a salvo na embaixada americana. Fica a quilômetro e meio daqui, e o meu carro está parado à porta do museu. Lidar com o Fache aqui dentro é muito arriscado.

Será que não compreende? O capitão está decidido a provar a sua culpa. Só adiou a detenção porque queria levar a cabo esta vigilância na esperança de que fizesse qualquer coisa que reforçasse a posição dele.

— Exatamente. Como fugir!

O celular de Sophie começou subitamente a tocar. Fache, provavelmente.

Meteu a mão no bolso e desligou o aparelho.

— Senhor Langdon — disse, apressada —, tenho de fazer-lhe uma última pergunta. — E todo o seu futuro pode depender dela. As palavras escritas no chão não são obviamente prova suficiente da sua culpa, e no entanto Fache disse à nossa equipe que tem certeza de que o senhor é o culpado. É capaz de pensar em qualquer outra razão que possa tê-lo convencido disso?

Langdon ficou calado durante vários segundos.

— Nenhuma.

Sophie suspirou. O que significa que Fache está mentindo. Não imaginava sequer porquê, mas, de momento estava longe de ser essa a questão. Permanecia o fato de Bezu Fache estar decidido a pôr Robert Langdon atrás de grades, custasse o que custasse. Sophie precisava de Langdon, e isto era um dilema que lhe deixava apenas uma conclusão lógica.