O Código Da Vinci

Dan Brown · Capítulo 65 de 109

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O Código Da Vinci

Capítulo Sessenta e Dois

Quando vira A Pequena Sereia pela primeira vez, Langdon não conseguira abafar uma exclamação de espanto ao verificar que o quadro na casa subaquática de Ariel era nem mais nem menos do que A Madalena Arrependida do artista francês do século XVII Georges de La Tour — uma famosa homenagem à banida Madalena —, uma decoração adequada, considerando que o filme era uma colagem com noventa minutos de óbvias referências à santidade perdida de Ísis, Eva, Pisces, a deusa-peixe, e, repetidamente, Madalena. O nome da Pequena Sereia, Ariel, tinha poderosas ligações ao sagrado feminino e, no Livro de Isaías, era sinônimo de “Cidade Santa sitiada”. É claro que os ondulantes cabelos vermelhos da sereiazinha também não podiam ser uma coincidência.

O cliquetear das muletas de Teabing aproximava-se pelo corredor, a um passo invulgarmente vivo. Quando o dono da casa entrou no estúdio, a sua expressão era severa.

— É melhor explicar-se, Robert — disse, friamente. — Não foi honesto comigo.

C A P Í T U L O 62

— Estou sendo falsamente incriminado, Leigh — disse Langdon, tentando manter-se calmo. Você me vonhece. Sabe que não matei ninguém.

O tom de Teabing não se suavizou:

— Robert, a sua fotografia está na televisão, pelo amor de Deus. Sabia que era procurado pelas autoridades?

— Sabia.

— Então abusou da minha confiança. Espanta-me que tenha tido o desplante de vir a minha casa e incitar-me a dissertar sobre o Graal para poder esconder-se da Polícia.

— Não matei ninguém.

— Jacques Saunière está morto e a Polícia diz que foi você que o matou. —

Teabing pareceu subitamente entristecido. — Um amigo tão grande das artes...

— Sir? — O mordomo tinha aparecido à porta do estúdio, de braços cruzados atrás de Teabing. — Deseja que os ponha na rua?

— Eu mesmo o faço. — Teabing coxeou até ao outro lado do estúdio e abriu as portadas de uma ampla janela de sacada que dava Para um relvado natural. —

Por favor, procurem o seu carro e vão embora.

Sophie não se mexeu de onde estava.

— Temos informações sobre a Clef de Voûte. A Chave de Abóbada do Priorado.

Teabing ficou olhando para ela durante vários segundos, e então sorriu desdenhosamente.

— Uma tentativa desesperada. Robert sabe como eu a tenho procurado.

— Ela está dizendo a verdade — interveio Langdon. — Foi por isso que

viemos aqui esta noite. Para falar sobre a Chave de Abóbada.

O mordomo avançou um passo.

— Saiam, ou terei de chamar as autoridades.

— Leigh — sussurrou Langdon. — Sabemos onde está.

Teabing pareceu ter um momentâneo desequilíbrio. Rémy avançava, rígido, pela sala.

— Saiam imediatamente. Ou usarei da força...

— Rémy! — Teabing voltou-se vivamente para o mordomo. Desculpe-nos por um momento.

O queixo de Rémy deu a impressão de cair.

— Senhor? Sou forçado a protestar. Estas pessoas são...

— Eu cuido disto — disse Teabing, apontando para o corredor.

Ao cabo de um instante de aturdido silêncio, Rémy retirou-se, de cabeça baixa como um cão escorraçado. A fresca brisa noturna entrava pelas portas abertas. Teabing voltou-se para Sophie e para Langdon, com uma expressão ainda desconfiada.

— É melhor que isto seja bom. O que é que sabem a respeito da Chave de Abóbada?

Escondido na espessura dos arbustos fora do estúdio de Teabing, Silas apertou a coronha da pistola e espiou através das portas de vidro. Apenas momentos antes, contornara a casa e v ira Langdon e a mulher conversando no grande estúdio. Antes que pudesse avançar, aparecera um homem de muletas, gritara com Langdon, abrira as portas e pedira aos dois que saíssem, Então, a mulher falou da Chave de Abóbada, e tudo mudou. Os gritos transformaram-se em sussurros. A tensão desaparecera. E as portas tinham sido rapidamente fechadas.

Agora, acocorado nas sombras, Silas espreitava através dos vidros. A Chave de Abóbada está Em algum lugar dentro desta casa. Sentia-a.

Mantendo-se no escuro, aproximou-se muito lentamente, desejoso de ouvir o que estava sendo dito. Ia dar-lhes cinco minutos. Se não revelassem onde tinham escondido a Chave de Abóbada, teria de entrar e convencê-los à força.

Dentro do estúdio, Langdon sentia o espanto do seu anfitrião.

— Grão-Mestre? — engasgou-se Teabing, olhando para Sophie. — Jacques

Saunière?

Sophie assentiu, vendo o choque nos olhos dele.

— Mas como é que pode saber uma coisa dessas?

— Jacques Saunière era meu avô.

Teabing recuou um passo, como se lhe tivessem batido, e olhou para Langdon, que assentiu com a cabeça. Teabing voltou-se de novo para Sophie.

— Menina Neveu, estou sem palavras. Se isto é verdade, então lamento muito sinceramente a sua perda. Tenho de admitir que, para as minhas pesquisas, coligilistas de homens de Paris que me pareciam ser bons candidatos a estar envolvidos com o Priorado. Jacques Saunière fazia parte dessas listas, juntamente com muitos outros. Mas Grão-Mestre, você diz? Quem imaginaria.

— Ficou calado por um instante, e então abanou a cabeça. — Mas continua a não fazer sentido. Mesmo que o seu avô fosse o Grão-Mestre do Priorado e tivesse criado com as suas próprias mãos a Chave de Abóbada, nunca lhe diria como encontrá-la. A Chave de Abóbada indica o caminho para o maior tesouro da irmandade. Neta ou não, não estava à altura de receber um tal conhecimento.

— O senhor Saunière estava morrendo quando transmitiu as informações —

explicou Langdon. — Não tinha muita escolha.

— Não precisava escolher — argumentou Teabing. — Há três senescais que também conhecem o segredo. É aí que reside a beleza do sistema. Um deles ascenderá a Grão-Mestre e escolherão outro senescal, a quem revelarão o segredo.

— Suponho que não viu o noticiário completo — disse Sophie. — Além do meu avô, três outros destacados parisienses foram assassinados esta noite. Todos da mesma maneira. Todos parecem ter sido interrogados.

Teabing deixou cair o queixo.

— E está convencida de que eram...

— Os senescais — completou Langdon.

— Mas como? Era absolutamente impossível a um assassino descobrir as identidades de todos os quatro membros do escalão superior do Priorado de Sião! Olhem para mim, ando investigando há décadas, e não sei o nome de um único membro do Priorado. Parece inconcebível que todos os senescais e o Grão-Mestre pudessem ser descobertos e mortos em um só dia.

— Duvido que a informação tenha sido recolhida em um só dia — disse Sophie. — Tem todo o ar de uma déc apitation bem planejada. É uma técnica que usamos para combater os sindicatos do crime organizado. Quando a DCPJ

quer atacar um dos grupos, senta-se, observa e escuta silenciosamente durante meses, identifica todos os principais jogadores, e quando avança, apanha-os todos ao mesmo tem po. Decapitação. Sem chefes, o grupo mergulha no caos e divulga novas informações. É possível que alguém tenha vigiado atentamente o Priorado e então dado o golpe, na esperança de que os membros do topo revelassem a localização da Chave de Abóbada.

Teabing não parecia convencido.

— Mas os irmãos nunca falariam. Todos eles juram guardar segredo. Mesmo com risco da própria vida.

— Exatamente — disse Langdon. — Quero dizer, se nunca revelassem o segredo, e fossem todos mortos...

Teabing deixou escapar uma exclamação.

— A localização da Chave de Abóbada se perderia para sempre!

— E com ela — completou Langdon — a localização do Santo Graal.

O corpo de Teabing pareceu vacilar sob o peso das palavras de Langdon.

Então, como se estivesse muito exausto para continuar de pé mais um instante que foss e, deixou-se cair em uma cadeira e ficou olhando para a janela.

Sophie aproximou-se e falou-lhe docemente:

— Considerando a situação em que o meu avô se encontrava, parece possível que, em desespero de causa, tenha tentado passar o segredo a alguém fora da irmandade.

Alguém em que julgasse poder confiar. Alguém da família.

Teabing estava pálido.

— Mas alguém capaz de tal ataque... de descobrir tanta coisa a respeito da irmandade... — Fez uma pausa, irradiando um novo medo. — Só pode tratar-se de uma força. Este tipo de infiltração só podia ter vindo do mais antigo inimigo do Priorado.

Langdon ergueu os olhos.

— A Igreja.

— Quem mais? Há séculos que Roma procura o Graal.

Sophie estava cética.

— Acham que a Igreja matou o meu avô?

— Não seria a primeira vez na História que a Igreja matava para se proteger

— respondeu Teabing. — Os documentos que acompanham o Santo Graal são explosivos, e há muito que a Igreja quer destruí-los.

Langdon estava tendo dificuldade em aceitar a premissa de Teabing de que a Igreja era capaz de matar abertamente pessoas para obter aqueles documentos.

Tendo conhecido o novo Papa e muitos dos cardeais, sabia que eram homens profundamente espirituais que nunca consentiriam com um assassínio. Fosse o que fosse que estivesse em jogo. Sophie era, aparentemente, da mesma opinião.

— Não será possível que os membros do Priorado tenham sido mortos por alguém exterior à Igreja? Alguém que não compreenda o que o Graal realmente é? A Taça de Cristo seria, afinal, um tesouro muito aliciante. Certamente que já houve caçadores de tesouros que mataram por muito menos.

— A experiência me diz — declarou Teabing — que as pessoas são capazes de ir muito mais longe por causa daquilo que temem do que por causa daquilo que desejam.

Detesto algum desespero neste ataque ao Priorado.

— O argumento é paradoxal — contrariou Langdon. — Porque haveriam os membros do clero católico de assassinar membros do Priorado em uma tentativa de obter e destruir documentos que, de todos os modos, consideram falsos testemunhos?

Teabing deixou escapar um risinho.

— As torres de marfim de Harvard amoleceram-no, Robert. Sim, o clero de Roma foi abençoado com uma fé poderosa, e, por causa dis so, as suas crenças conseguem suportar qualquer tormenta, incluindo documentos que contradizem tudo o que consideram sagrado. Mas, e o resto do mundo? E aqueles que não foram abençoados com uma certeza tão absoluta? E aqueles que olham para a crueldade de que o mundo é hoje palco e perguntam, onde está Deus? Os que olham para os escândalos da Igreja e perguntam, quem são estes homens que afirmam dizer a verdade a respeito de Cristo e no entanto mentem para esconder o abuso sexual de crianças praticado pelos seus sacerdotes? — Teabing fez uma pausa. — O que acontece a essas pessoas, Robert, se vêm a público provas

científicas convincentes de que a versão da Igreja da história de Cristo é falsa e que a maior história contada é na verdade a maior história impingida?

Langdon não respondeu.

— Eu digo-lhe o que acontece se esses documentos são revelados —

continuou Teabing. — O Vaticano enfrenta uma crise de fé sem precedentes nos seus dois mil anos de história.

— Mas se é a Igreja a responsável por este ataque — perguntou Sophie, ao cabo de um longo silêncio —, porque foi que só agiram agora? Passados todos estes anos? O Priorado mantém os documentos Sangreal escondidos. Não representam qualquer ameaça direta para a Igreja.

Teabing deixou escapar um ominoso suspiro e lançou um olhar a Langdon.

— Robert, assumo que está a par da missão final do Priorado. O pensamento fez Langdon conter a respiração.

— Estou — disse.

— Menina Neveu — continuou Teabing —, há muitos anos que a Igreja e o Priorado mantêm um entendimento tácito. Ou seja, a Igreja não ataca o Priorado, e o Priorado conserva os documentos Sangreal escondidos. — Fez uma pausa.

— No entanto, parte da história do Priorado sempre incluiu um plano para desvendar o segredo. A irmandade planeja, em uma data específica, quebrar o silêncio e consumar o seu triunfo final mostrando ao mundo os documentos Sangreal e gritando a verdadeira história de Jesus Cristo do alto das montanhas.

Sophie ficou olhando para Teabing em silêncio. Por fim, também ela se sentou.

— E pensa que essa data se aproxima? E que a Igreja sabe disso?

— Uma especulação — respondeu Teabing. — Mas que proporcionaria à Igreja a motivação para desencadear um ataque desesperado na tentativa de encontrar os documentos antes que seja muito tarde.

Langdon teve a desagradável sensação de que aquilo que Teabing dizia fazia todo o sentido.

— Acha que a Igreja seria realmente capaz de descobrir a data do Priorado?

— Porque não?... Se estamos assumindo que descobriu as identidades dos membros do Priorado, então seria seguramente capaz de descobrir-lhes os planos. E mesmo que não conheçam a data exata, é possível que estejam

deixando-se levar pelas suas próprias superstições.

— Superstições? — surpreendeu-se Sophie.

— Em termos de profecia — explicou Teabing —, estamos atualmente em uma época de enorme mudança. O milênio acaba de passar, e com ele terminaram os dois mil anos da idade astrológica de Pisces, o peixe, que é também o signo de Jesus. Como qualquer simbologista astrológico lhe dirá, o ideal pisceano acredita que tem de haver um poder superior dizendo ao homem o que fazer, uma vez que ele é incapaz de pensar pela sua própria cabeça. Foi, por isso, uma era de religião fervorosa. Agora, no entanto, estamos entrando na Idade de Aquarius, o carregador de água, cujos ideais afirmam que o homem aprenderá a verdade e será capaz de pensar por si mesmo. A mudança ideológica é enorme, e está acontecendo neste preciso momento.

Langdon sentiu um arrepio. Nunca vira grande interesse ou credibilidade na profecia astrológica, mas sabia haver na Igreja quem a seguisse de muito perto.

— A Igreja chama a este período de transição o Fim dos Dias.

Sophie fez um ar cético.

— Como no fim do mundo? O Apocalipse?

— Não — respondeu Langdon. — Esse é um erro bastante comum. Muitas religiões falam do Fim dos Dias. Não se refere ao fim do mundo, e sim ao fim da Idade atual, a dos Peixes, que começou no momento do nascimento de Cristo, cobriu dois mil anos e acabou com a passagem do milênio. Agora que entramos na Idade de Aquário, o Fim dos Dias chegou.

— Numerosos historiadores do Graal — acrescentou Teabing acreditam que se o Priorado está de fato planejando revelar a verdade, este ponto da História seria uma altura simbolicamente adequada. A maior parte dos acadêmicos do Priorado, incluindo eu próprio, pensava que a revelação da irmandade coincidiria precisamente com a passagem do milênio. Obviamente, não coincidiu é certo que o calendário romano não encaixa precisamente com os marcadores astrológicos, pelo que há várias áreas cinzentas na previsão. Se a Igreja possui agora informações precisas de que a data se aproxima ou se estão apenas ficando nervosos por causa da previsão astrológica, é algo que não sei dizer. Seja como for, não tem importância. Qualquer dos cenários explica por que razão a Igreja pode ter decidido lançar um ataque preventivo contra o Priorado. — Franziu a testa. — E, acredite, se a Igreja descobrir o Santo Graal, o destruirá. Os

documentos e as relíquias da abençoada Maria Madalena. Os olhos dele ensombreceram. — Então, minha querida, com o desaparecimento do Santo Graal, deixará de haver provas. A Igreja ganhará a sua luta milenar para reescrever a História. O passado será apagado para sempre.

Lentamente, Sophie tirou do bolso do camisolão a chave cruciforme e estendeu-a a Teabing. Teabing a pegou e examinou.

— Céus, o selo do Priorado. Onde arranjou isto?

— O meu avô me deu esta noite, antes de morrer.

Teabing passou os dedos pela chave.

— A chave de uma igreja?

Sophie inspirou fundo.

— Essa chave dá acesso à Chave de Abóbada.

Teabing ergueu vivamente a cabeça.

— Impossível! Qual foi a igreja que falhei? Visitei todas as que há de França!

— Não está em uma igreja — disse Sophie. — Está em um banco depositário suíço.

O ar de excitação de Teabing desvaneceu-se.

— A Chave de Abóbada está em um banco?

— Em um cofre — acrescentou Langdon.

— No cofre de um banco? — Teabing abanou violentamente a cabeça. — É

impossível. A Chave de Abóbada é suposta estar escondida sob o signo da Rosa.

— E está — disse Langdon. — Estava guardada em uma caixa de madeira de roseira com uma rosa de cinco pétalas embutida na tampa.

Teabing estava siderado.

— Vocês viram a Chave de Abóbada?

Sophie assentiu.

— Fomos ao banco.

Teabing aproximou-se deles, com os olhos tresloucados de medo.

— Meus amigos, temos de fazer qualquer coisa. A Chave de Abóbada está em perigo! Temos o dever de protegê-la. E se há outras chaves? Talvez roubadas dos senescais assassinados? Se a Igreja consegue chegar ao banco, como vocês...

— Chegarão muito tarde — disse Sophie. — Tiramos de lá a Chave de

Abóbada.

— O quê? Tiraram a Chave de Abóbada do seu esconderijo?