O Código Da Vinci
Capítulo Vinte e Seis
— Não, senhor.
— Qualquer mensagem que lhe fosse destinada teria sido transcrita manualmente pelos nossos serviços. Importa-se de repetir o seu nome?
Mas o homem tinha desligado.
Bezu Fache estava confuso enquanto andava de um lado para o outro junto à margem do Sena. Tinha certeza de ter visto Langdon marcar um número local, introduzir um código de três dígitos e em seguida ouvir uma mensagem gravada.
Mas se Langdon não telefonou para a embaixada, para quem diabo telefonou?
Foi nesse momento, ao olhar para o celular, que Fache compreendeu que tinha a resposta na palma da mão. Usou o meu telefone para fazer a chamada.
Apertando a tecla do menu, chamou ao visor a lista dos últimos números marcados e descobriu o telefonema que Langdon tinha feito.
Um número de Paris, seguido pelo código 454. Apertou então a tecla de rechamada e esperou.
Finalmente, uma voz de mulher disse:
— “Bonjour, vous êtes bien chez Sophie Neveu. Je suis absente pour le moment, mais...”
Fache sentia o sangue ferver de raiva enquanto marcava 4...5...4.
C A P Í T U L O 26
A despeito da sua fenomenal reputação, a Mona Lisa tem meros 75,5 cm por 25,5 cm — menos do que os cartazes com a reprodução vendidos na loja de souvenirs do Louvre. Está suspensa na parede noroeste da Salle des États, atrás de uma placa de Plexiglas com cinco centímetros de espess ura. A atmosfera etérea, enevoada, do quadro, pintado em um painel de madeira de choupo, é atribuída ao incomparável domínio que da Vinci tinha da técnica do sfumato, em que as formas parecem dissolver-se umas nas outras.
Desde que assentou residência no Louvre, a Mona Lisa — ou La Joconde, como lhe chamam na França — foi roubada por duas vezes, a última das quais em 1911, quando desapareceu da “salle impénétrable” do Louvre — Le Salon Carré. Os parisienses choraram nas ruas e escreveram artigos nos jornais suplicando aos ladrões que devolvessem o quadro. Dois anos mais tarde, encontraram-na no fundo falso de uma mala, em um quarto de hotel em Florença.
Langdon, tendo deixado bem claro a Sophie que não tencionava ir embora, atravessou com ela a Salle des États. Estavam ainda a vinte metros de distância do quadro quando Sophie ligou a lanterna de luz negra e o fino feixe azulado começou a correr pelo chão à frente deles. Sophie fazia-o balançar de um lado para o outro, como um detetor de minas, em busca do menor vestígio de tinta luminescente.
Enquanto avançava ao lado dela, Langdon sentia já o formigueiro de antecipação que acompanhava sempre os seus encontros face-a-face com as grandes obras de arte.
Esforçou-se por ver além do casulo de luz violeta emitido pela lanterna que Sophie levava na mão.
À esquerda, o sofá octogonal da sala emergiu das sombras, parecendo uma ilha negra no meio de um mar vazio de parquet.
Langdon começava a ver o painel de vidro escuro na parede. Do outro lado, nos recessos da sua cela privada, encontrava-se suspenso o quadro mais célebre do mundo.
O status da Mona Lis a como a obra de arte mais famosa do mundo nada tinha a ver, Langdon bem sabia, com o seu enigmático sorriso. Nem se devia às misteriosas interpretações que lhe eram atribuídas por numerosos historiadores de arte e maníacos da teoria de conspiração. Muito simplesmente, a Mona Lisa era famosa porque Leonardo da Vinci a considerav a a mais perfeita das suas realizações. Levava o quadro consigo para onde quer que viajasse e, se lhe perguntavam porquê, respondia que tinha dificuldade em separar-se da mais sublime expressão da beleza feminina.
Mesmo assim, muitos historiadores de arte suspeitavam de que a reverência de da Vinci pela Mona Lisa nada tinha com a sua maestria artística. Na realidade, o quadro era um retrato sfumato surpreendentemente vulgar. A veneração do artista pela sua obra, diziam, devia-se a algo muito mais profundo: uma mensagem escondida nas camadas de tinta. A Mona Lisa era, de fato, uma das piadas privadas mais estudadas do mundo. A bem documentada colagem de duplos sentidos e alusões jocosas do quadro tem sido descrita na maior parte dos livros de História da Arte, o que, incrivelmente, não impedia que o público em geral continuasse a considerar o seu sorriso um grande mistério.
Não há qualquer mistério, pensou Langdon enquanto avançava e via os difusos contornos do quadro começarem a ganhar forma. Nenhum mistério.
Muito recentemente, tinha partilhado o segredo da Mona Lisa com um grupo bastante inesperado de ouvintes: uma dúzia de detidos na Essex County Penitentiary. O seminário fizera parte de um Programa de Harvard que visava levar a educação ao sistema prisional. Cultura para Condenados, como os colegas de Langdon gostavam de lhe chamar.
De pé junto de um retroprojetor na biblioteca da penitenciária de luzes apagadas, Langdon explicou o segredo da Mona Lisa aos presos que assistiam à aula, homens que achara surpreendentemente interessados — rudes, mas atentos.
— Notarão — disse-lhes , aproximando-se da imagem projetada na parede —
que o fundo por trás do rosto dela não é uniforme. — Apontou para a clamorosa
discrepância. — Da Vinci pintou a linha de horizonte do lado esquerdo muito mais abaixo do que do lado direito.
— Fez burrada? — perguntou um dos homens.
Langdon riu.
— Não. Da Vinci raramente fazia burrada. Na realidade, trata-se de um pequeno truque. Ao baixar a paisagem à esquerda, fez com que a Mona Lisa parecesse muito maior desse lado do que do direito. Uma piadinha privada, poderia dizer. Historicamente, os conceitos de masculino e feminino têm lados atribuídos: o esquerdo é feminino, o direito é masculino. Da Vinci, sendo um grande fã dos princípios femininos, fez a Mona Lisa parecer mais majestosa do lado esquerdo.
— Ouvi dizer que ele era maricas — disse um homem que usava uma barbicha.
Langdon franziu os lábios.
— De um modo geral, os historiadores não põem a coisa exatamente nesses termos, mas sim, da Vinci era homossexual.
— Era por isso que estava tão nessa do feminino?
— Na realidade, da Vinci estava em sintonia com o equilíbrio entre o masculino e o feminino. Acreditava que a alma humana só podia ser iluminada se possuísse em simultâneo elementos masculinos e femininos.
— Quer dizer, garotas com pica? — perguntou alguém.
A saída provocou uma explosão de gargalhadas. Langdon considerou a hipótese de lhes dar uma explicação etimológica atenuada a respeito da palavra hermafrodita e das ligações a Hermes e a Afrodite, mas algo lhe disse que seria esforço perdido.
— Eh, senhor Langdon — interpelou-o um homem cheio de músculos. — É
verdade que a Mona Lisa é um retrato do da Vinci vestido de mulher? Ouvi dizer que sim.
— É muito possível — respondeu Langdon. — Da Vinci era um brincalhão, e a análise computadorizada da Mona Lisa e de alguns dos seus autorretratos confirma a existência de vários e surpreendentes pontos de congruência em ambos os rostos. Mas, fosse qual fosse a intenção de da Vinci, a Mona Lisa não é macho nem fêmea. Transmite uma sutil mensagem de androginia. É uma fusão
de ambas as coisas.
— Tem certeza de que isso não é só conversa erudita para dizer que a Mona Lisa é feia como o diabo?
Langdon riu.
— Talvez tenha razão. Mas a verdade é que da Vinci deixou uma indicação muito clara de que o quadro deve ser considerado andrógino. Alguém já ouviu falar de um deus egípcio chamado Amon.
— Raios, sim — respondeu o homem dos músculos. — O deus da fertilidade masculina!
Langdon estava espantado.
— É o que vem escrito em todas as caixas de preservativos Amon. — O
Hércules sorriu amplamente. — Têm na parte da frente um cara com cabeça de carneiro e diz que é o deus egípcio da fertilidade. Langdon não conhecia a marca, mas ficou contente por saber que os fabricantes de profilácticos tinham interpretado corretamente os hieróglifos.
— Muito bem. Amon é de fato representado por um homem com cabeça de carneiro.
E sabem como se chamava o seu equivalente feminino? Quem era a deusa egípcia que encarnava a mulher-modelo?
Seguiram-se vários segundos de sepulcral silêncio.
— Era Isis — disse Langdon, pegando um marcador. — Temos, pois, o deus masculino, Amon — e escreveu a palavra em um acetato —, e a deusa feminina, Isis, cujo antigo pictograma se chamava em outros tempos L’ISA.
Langdon parou de escrever e afastou-se do projetor.
AMON L’ISA
— Lembra-lhes alguma coisa? — perguntou.
— Mona Lisa... olha que porra! — exclamou alguém.
Langdon assentiu.
— É verdade, meus senhores, não só o rosto da Mona Lisa parece andrógino, como o seu próprio nome é um anagrama da união divina entre o masculino e o feminino. É este, meus amigos, o segredo de da Vinci, e a razão daquele
sorrisinho de quem sabe qualquer coisa.
— O meu avô esteve aqui — disse Sophie, ajoelhando a menos de dez metros do quadro.